“Quando conseguimos chegar ao centro, na manhã seguinte à tempestade, encontrámo-lo completamente destruído, sem condições mínimas para receber os utentes”, recorda o padre Tiago Alberto, presidente do Centro Social Paroquial de Além da Ribeira, “tendo lembrado que a prioridade imediata era perceber como cada utente se encontrava, garantimos apoio básico ao mesmo tempo que tentávamos conter os danos no edifício e minimizar riscos adicionais”.
“De facto, o primeiro momento foi sempre de choque, mas também de um primeiro auxílio às pessoas. A nossa primeira preocupação foi verificar como é que cada utente se encontrava e só depois olhar para o edifício e para os danos materiais”, acrescentou.

Numa localidade marcada pela ruralidade, rodeada de verde e floresta, a pouco mais de 15 minutos do rebuliço citadino de Tomar, são ainda visíveis os sinais da tempestade – postes tombados, árvores partidas e restos de destroços – que testemunham a violência do fenómeno.





No interior do centro de dia, no alto da aldeia, cerca de 20 utentes ocupavam o salão de estar, com a luminosidade do dia e os rostos alegres a contrastarem com os remendos e infiltrações visíveis nas paredes e tetos. Algumas utentes tricotavam, outros conversavam ou observavam a televisão, enquanto uma ampla mesa anunciava jogos de tabuleiro e passatempos.
Ao fundo, a cozinha mantinha o ritmo do dia, com funcionárias preparando o almoço – favas com entrecosto – e observando os utentes através de uma ampla janela aberta para o salão.




O padre Alberto recorda à Lusa a noite da tempestade, vivida com inquietação nas três paróquias onde exerce funções: “Foi uma noite muito inquieta, com o vento muito intenso. Íamos notando como tudo se começava a desmoronar. Quando o vento abrandou, saímos para a rua para perceber se estava tudo bem com os vizinhos. Não sabíamos em que estado estavam as casas”.
“Foi uma imagem que não retiro da cabeça. Encontrámo-nos dois ou três vizinhos e fomos ver se alguém precisava de ajuda imediata. Havia muita preocupação, porque não sabíamos se alguma casa poderia ter ruído”, acrescentou.

ÁUDIO | PADRE ALBERTO ALBERTO, CENTRO SOCIAL DE ALÉM DA RIBEIRA:
Na manhã seguinte, o acesso ao centro foi dificultado por estradas bloqueadas por árvores e postes tombados. “Demorei a chegar ao centro, só por volta das 10 da manhã, devido à impossibilidade de passar nas estradas. E pelo caminho encontrava pessoas a partilhar a angústia pelos danos nas suas casas. Era um cenário desolador, com muita gente a chorar e a pedir uma palavra de ânimo”, relatou.
O edifício do centro não escapou à destruição: “O vento entrou no edifício, levantou o teto falso, danificou portas, chaminés e anexos. Os painéis solares caíram e danificaram viaturas. De uma forma geral, tanto o edifício como o equipamento ficaram bastante afetados”, descreveu.
Apesar dos danos, o apoio nunca foi interrompido. “Mesmo com o centro encerrado durante alguns dias, o apoio domiciliário nunca parou. Conseguimos levar alimentos aos utentes e garantir que ninguém ficava sem o essencial”, sublinhou, explicando que a reabertura aconteceu após quatro a cinco dias, com condições mínimas de segurança.




O edifício sofreu danos significativos: telhados parcialmente destruídos, painéis solares partidos, anexos sem cobertura, infiltrações múltiplas e tetos falsos levantados pelo vento. O impacto financeiro está estimado entre 250 a 300 mil euros, valor que inclui reparações urgentes e reposição de equipamentos essenciais.
“Estamos com paliativos. O centro está a funcionar, mas de forma provisória. Todos os dias aparecem novos problemas, o que faz aumentar o valor dos prejuízos”, alertou o padre.
O apoio financeiro “tarda”, quer de seguros quer do Estado, atrasando a recuperação total do centro. “Sentimos, num primeiro momento, alguma solidão, fruto da incomunicação e da pouca ajuda que chegava. E agora sentimos que os processos não são céleres. Fizemos todas as candidaturas, mas ainda não há resposta efetiva”, disse.

Presente no local, o presidente da União de Freguesias de Além da Ribeira, também vice-presidente da instituição, destacou o impacto na comunidade: “O centro de dia está prestes a assinalar 21 anos e foi uma das instituições mais afetadas. É fundamental para uma população muito envelhecida e a sua recuperação é essencial para manter o apoio aos idosos”, alertou Jorge Graça.
Segundo o autarca, a freguesia foi das mais atingidas do concelho: “Temos mais de 250 habitações afetadas, algumas famílias desalojadas, e prejuízos que ultrapassam os 3 milhões de euros. Foi um impacto enorme em habitações, comércio e serviços”.

ÁUDIO | JORGE GRAÇA, PRESIDENTE UF ALÉM DA RIBEIRA E PEDREIRA:
Sobre os apoios, deixou um alerta: “Ainda não temos conhecimento de que alguém tenha recebido apoios do Estado. As pessoas estão a recuperar com os seus próprios meios, com poupanças e ajuda da comunidade. A recuperação está a ser lenta a todos os níveis”.
Apesar das dificuldades, o padre Alberto destaca a resposta da comunidade e o papel da esperança: “A fé não nos dá dinheiro nem acelera a reparação, mas dá-nos esperança. Foi essa esperança que nos colocou em movimento e nos permitiu continuar”.
“Este centro é casa para muitos dos nossos utentes. Quando perderam este espaço, sentiram-se à deriva. O nosso esforço foi garantir que continuavam a ter um porto de abrigo, mesmo em condições difíceis”, afirmou.
No final, deixa um apelo: “Precisamos que os apoios cheguem com rapidez. Estes centros são essenciais para a dignidade das pessoas. Quem puder ajudar estará a contribuir para manter vivo este espaço, que é um verdadeiro jardim de ternura para os nossos idosos”.

Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos de milhares de milhões de euros.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.
c/LUSA
