Documentos ímpares da I Guerra Mundial – A História por Contar, por Fernando Freire

Encerrou no pretérito dia 13 de janeiro de 2022, com a visita dos comandos militares sitos do Polígino Militar de Tancos, a exposição “A Primeira Guerra Mundial – A História por Contar”, evento que decorreu no Espaço Memória de Payo de Pelle (Praia do Ribatejo) e que recaía sobre o papel decisivo que a freguesia da Praia do Ribatejo desempenhou na preparação do Corpo Expedicionário Português (CEP), aquando da intervenção de Portugal na I Guerra Mundial, ocorrida entre 1914-1918. Contou a mesma com a colaboração, inexcedível, do Museu Militar de Lisboa, do Regimento de Engenharia n.º 1, do Arquivo Municipal António Luís Roldão, da Arquiteta Rita Inácio, da Professora de História Antónia Coelho, do Executivo e dos trabalhadores da freguesia da Praia.

Foi aqui que ocorreu o chamado “Milagre de Tancos” ou “Cidade de Paulona (pau e lona)”.

Os líderes da 1.ª República, nascida do 5 de outubro de 1910, através dos comandos militares, aprontaram, em escassos três meses, a formação para mais de 20 mil soldados portugueses que partiram para as várias frentes da I Guerra Mundial. Certo é que os nossos mancebos foram envolvidos numa instrução ligeira e muitas vezes improvisada que levou, posteriormente, a uma participação desastrosa no conflito com elevado número de feridos, gaseados e de mortos.

Em exposição estiveram muitos documentos ímpares da I Guerra Mundial.

Quero aqui relevar três documentos que me sensibilizaram pela sua exposição.

1.            O primeiro documento: o livro de óbitos da freguesia de Praia do Ribatejo de 1916. Fazendo fé no que tinha lido até à atualidade, não tinha conhecimento de que ali se encontram registados os nomes de muitos jovens de diferentes regiões de Portugal, que em consequência de acidentes, afogamentos ou rebentamentos em exercícios militares, ficaram sepultados no cemitério paroquial da Praia, e ali repousam pois, certamente, ninguém reivindicou o seu corpo ou não haveria dinheiro para fazer o transporte para a sua última morada, e para poderem jazer junto dos seus entes queridos.

2.            O segundo documento: centenas de fotografias que nos contam toda a logística da preparação para a I Guerra Mundial: os veículos auto e de tração animal; as trincheiras; as pontes; as máscaras para os gases; o quotidiano no quartel; os exercícios dos pontoneiros; os rebentamentos; as casernas; a curiosidade dos civis; etc. Tudo espólio documental da antiga Escola Prática de Engenharia que só elas fazem uma magnífica exposição.

3.            O terceiro documento: uma carta, escrita em letra bem legível, do sargento Rodrigo António Rodrigues à sua mãe, que nos narra na 1.ª pessoa o sangrento conflito nas trincheiras, caldeada com histórias de amor e que, pela sua importância, passo a transcrever na íntegra:

“Campo de Batalha 21 julho 1918. Mãezinha

Tendo hoje possibilidade de lhe dizer alguma coisa sobre mim, lhe envio esta carta pelo meu colega Trajano que não sei se a mãezinha o conhece, mas enfim. Ele prontificou-se em ir aí dizer-lhe alguma coisa sobre a minha situação que é para lamentar, porque de vez em quando vejo ir um ou outro de licença, e com a certeza de não mais voltar a estes campos e aldeias devastadas por toda a qualidade de metralha e onde só reina a tristeza.

Calcule a mãezinha que na minha companhia atualmente somos 18 sargentos, para os quais existe uma escala para irem de licença, quando para isso haja autorização. Ora já se deixa ver que eu estou em número 18. Há um ano que estou na companhia, já vi ir 3 sargentos de licença como vê daqui a seis anos ainda aqui estou.

A situação aqui é crítica quanto pode ser. Os oficiais abandonaram-nos cheios de terror. Calcule que na minha companhia pertence ter 8 oficiais, estamos atualmente com 1, e os restantes tem fugido para os hospitais, não tendo doença alguma, mas sim medo.

Com respeito à minha subvenção (subsídio de guerra) pelo que os outros meus colegas me dizem que os seus receberam, sei que a mãezinha tem sido roubada não tenho eu a sorte de aí voltar, porque passaria bastante o tempo revoltado com essa gatunagem que só não se contenta com o que lhe dão, e acima de tudo com o seu bem estar, para ir roubando as famílias dos que lutam com atrozes feras e que cada vez a morte se assemelha mais angustiosa porque umas vezes nos lembramos do que já temos sofrido, e qualquer dia teremos de sucumbir nos campos da igualdade e outros pelos exemplos que estamos vendo todos os dias, e mesmo os que chegam a escapar desta coisa toda, a sua vida não pode ir muito longe.

Pois a minha infelicidade foi eu ter sido castigado, porque além de ter cumprido o meu castigo numa 1.ª linha onde me encontrava a 70 metros dos boches (alemães), sofrendo os horrores que a mãezinha nem tão pouco pode fazer uma pequena ideia.

Foi em julho do ano passado (1917) até por sinal o mês mais bonito cá em França, lá o passei nunca com tenções de ainda ser vivo, mas sim de estar já fazendo companhia a muitos portugueses que jazem por estes campos todos escavados pelas artilharias;

Enfim passaram-se os 25 dias que tinha que cumprir apesar de serviços espinhosos que todos os dias me obrigavam a fazer, ou para melhor dizer todas as noites, porque durante o dia é que se dormia alguma coisa, isto é os que passavam a noite comigo na primeira linha vinham dormir para a segunda linha, mas eu é que de dia e de noite lá tinha que estar encostado ao parapeito, até que no dia 4 agosto (1917), às 16 horas, completei o meu fadário e lá saí do meu buraquinho que eu mesmo fiz a um cantinho da trincheira e que tanta vez me livrou da morte.

Pois que sempre tive a felicidade de nunca me rebentar uma granada em cima de tantas que todos os dias no meu redor revolviam aterrar.

Se eu aí aparecesse tal e qual como estou ninguém me conheceria. O fato cheio de rasgões e numa completa lama. O cabelo e barba tapando as orelhas, piolhos eram como chuva e o corpo num perfeito esqueleto.

Mas tudo cumpri com parcimónia confiando em voltar para a companhia que distava uns 90 Km das trincheiras e onde já se estava tranquilo.

Mas ainda me sucedeu o contrário porque o general Narciso não só se contentou em me castigar, porque ainda me passou para a 1.ª companhia de Sapadores Mineiros que estão já trabalhando nas trincheiras e lá comecei eu então trabalhando com um grupo de homens sempre nos sítios mais perigosos que para mim eram escolhidos visto não ter ninguém que punisse, por mim e eu na companhia ser tido como um correcional.

Mas eu nada fazia oposição apenas procurava descompensar-me de todos os encargos o melhor possível para ver se assim os meus chefes compreendiam que eu não era nada do que eles julgavam. E como tal assim sucedeu porque já fiz um ano que aqui estou na Companhia e nunca mais foi castigado nem repreendido, quanto que camaradas meus que os comandantes tinham em boa consideração já o tem sido.

Mas, contudo, durante todo esse tempo que andei trabalhando a sorte sempre me protegeu, porque para além de andar sempre mais exposto ao fogo da artilharia só de tempos a tempos é que me morria algum homem.

Assim fui andando até ao dia 4 abril, nesse dia foi abatido um Sargento à companhia e que o dito era de condutores, pois o comandante quis ter então essa amabilidade para comigo e passou-me para os condutores. Foi então quando disse adeus aos meus trabalhos de trincheiras porque os sargentos montados não trabalham, apenas dirigimos o serviço de viaturas no acantonamento que distava então uns 2 Km das linhas de fogo, pois neste dia considerei-me feliz por me terem aliviado deste tão terrível peso.

Mas pouco gozei esse bem-estar porque no dia 9 os boches (alemães) deram-nos um ataque, então é que eu pensei que ficássemos esmagados. Calcule a mãezinha que eram mais de 5.000 bocas do fogo vomitando metralha ao mesmo tempo. Não havia acantonamento nem estrada que não fosse tudo batido pela artilharia. Alguns civis que se encontravam mais perto das linhas fugiram espavoridos em camisa, isto é tal e qual estavam deitados nas suas camas visto que o combate rompeu às 4 horas da manhã. Eu por acaso nesse dia estava de dia à Secção e como o graduado estava um pouco desviado do acantonamento da companhia o Sargento Dia dormi lá, numa barraca de madeira, que nós nos encarregamos de fazer. Pois a mãezinha não sabe calcular a minha sorte, pois logo que rompeu o bombardeamento o gado começou a ser batido aos estrondos da artilharia e do gado ferido que soltava urros enormes, mas como nós aqui dormimos sempre vestidos, levantei-me num salto, para acordar todos os homens para nos pormos em fuga, visto que nada ali nos podia valer. Pois não havia ainda ½ minuto que tinha deixado o barracão já uma granada a reduzia a cinzas.

Os homens pareciam doidos. Começou-nos a chegar depois o gás asfixiante. Nós todos pusemos as máscaras, mas os cavalos e mulas soltavam urros que pareciam racionais, até é mesmo impossível fazer uma descrição exata destas horas tão terríveis. Mesmo assim ainda disse a alguns homens que ainda estavam ao pé de mim, o melhor que temos a fazer é ver se podemos engatar alguns carros e fugirmos porque daqui a alguns minutos estamos prisioneiros dos boches (alemães). Assim foi. Ainda pude engatar 3 carros que ainda as granadas não tinham partido, e de 300 cabeças de gado que tínhamos só pudemos salvar umas 20. E assim foi, fomos fugindo pelo meio das granadas, por cima dos mortos e feridos que a todo o passo se encontravam. Fomos correndo todo o dia para nos juntarmos à companhia que já tinha partido há mais tempo, e até que à noite a encontramos. Ai descansamos um bocado e tomámos algum alimento. Depois continuamos a marcha e assim fomos marchando durante 4 dias, até que depois descansámos 15 dias. Aí recebemos roupas e calçado, gado e viaturas.

Passados 15 dias voltámos outra vez para a frente, onde nos encontramos atualmente, mas agora estamos numa aldeia bonita por sinal, e aqui estamos construindo trincheiras de reserva porque se espera novo avanço boche.

Mesmo assim aqui não estou mal, durmo numa boa cama, como nunca dormi em Portugal. Há aqui muitos civis e eu como não vou trabalhar os dias que não estou de serviço entretenho-me falando com as mademoiseles que são muito galantes e que gostam muitos dos portugueses.

Eu cá tenho o meu namoro que por sinal é linda. Se a mãezinha me ouvisse falar com ela ficava admirada, eu já estou um francês perfeito pois não calcula como sou bem tratado pelos seus pais. Fico lá em casa deles numa boa cama, como já lhe disse, e todos os dias de manhã me dão 2 ovos ainda na cama, e como com eles em qualquer ocasião, e aí a pequena é uma doida pelo seu Rodrigo, ou por outra, pelo seu António, porque lhe custa muito pronunciar Rodrigo. Ela um dia destes escreveu à Rosa felicitando-a pelo seu aniversário, porque eu disse-lhe que a Rosa fazia anos no dia 24, é o que me vale mesmo assim é a pequena para distração e já tenho pena de qualquer dia me ter que ir embora daqui, porque naturalmente já não arranjo outra tão amiga como esta.

Enfim, são peripécias da guerra.

Efetivamente se eu tivesse sorte de um dia voltar tenho muito que contar nuns bons serões de inverno.

Por hoje já me estou tornando muito chato e por isso vou terminar, peço recomendações para todos os vizinhos, abraços às tias, avozinha e beijos aos petizes e à Rosa.

Receba longos abraços do seu filho.

Muito amigo, Rodrigo António Rodrigues”    

Cronologia da I Guerra Mundial

  • 23 de fevereiro de 1916 – A Inglaterra tinha falta de transportes para tropas e mercadorias. Pediu a Portugal, ao abrigo, da secular aliança, que confiscasse os barcos alemães ancorados nos nossos portos. Assim aconteceu, o que levou a Alemanha a declarar-nos guerra. O Governo português por decreto 2229, de 24 de fevereiro, fundamentando-se no princípio jurídico do domínio eminente, requisita os alemães e austríacos surtos em portos portugueses, sendo içada solenemente a Bandeira Portuguesa em 35 navios alemães e 1 austríaco, imobilizados no rio tejo.
  • 9 de março de 1916 – A Alemanha declara guerra a Portugal, pelos factos ocorridos desde os chamados incidentes de fronteira nas colónias portuguesas até ao facto da requisição dos navios alemães.
  • 20 de março de 1916 – É criada, por iniciativa de um grupo de senhoras, sob a presidência da escritora Ana de Castro Osório, a “Cruzada das Mulheres Portuguesas” para prestar assistencial moral e material aos que dela necessitassem.
  • 23 de abril de 1916 – Os alemães atacam o posto de Namoto, no rio Rovuma, e são forçados a retirar pela resistência da pequena guarnição portuguesa.
  • 12 de maio de 1916 – Os aleães atacam os postos de Nhica e Mitomoni, no Rio Rovuma.
  • 24 de agosto de 1916 – O submarino alemão U-22, próximo de Lisboa, tenta torpedear a canhoeira Ibo, que neste dia saíra do tejo com rumo a Cabo Verde.
  • 26 de novembro de 1916 – Os alemães realizam um ataque geral, após uma dura resistência das forças de Nevala.
  • 3 de dezembro de 1916 – A cidade do Funchal é bombardeada pelo submarino alemão U-83, que torpedeou dois navios franceses e um inglês, fundeados no porto.
  • 5 de dezembro de 1916 – Os alemães atacam e incendeiam o posto português de Mocimboa do Rovuma, a Sul do Rio.
  • 26 janeiro de 1917 – Embarcam as primeiras tropas do CEP para França.
  • 7 de fevereiro de 1917 – Desembarcou na zona de concentração do CEP (estação de Aire-sur-la-Lys) o primeiro batalhão português.
  • 3 de março de 1917 – O General Tamagnini assume o Comando Superior do CEP.
  • 4 de abril de 1917 – Entra ao serviço das trincheiras a primeira unidade portuguesa e, logo nesse dia, regista-se o primeiro morto em combate do CEP, o soldado do Batalhão de infantaria n.º 28
Funeral de António Gonçalves Curado
  • Dezembro de 1917 – As forças políticas que se opunham à nossa intervenção na guerra derrubam o Governo e instauram uma ditadura militar que governou até dezembro de 1918, deixando ao abandono as nossas forças.  
  • 9 de abril de 1918 – Batalha de La Lys – A 2.ª Divisão do CEP que tinha ordem de ser rendida neste dia, é atacada violentamente. Perdemos cerca de 7000 soldados e mais de 300 oficiais, entre mortos e prisioneiros.
  • 10 de abril de 1918 – Um contingente de tropas portuguesas, dos Batalhões de Infantaria 13 (Vila Real) e o 15 (Tomar) rende-se na manhã deste dia às 11H45, depois de 31 horas de fogo no reduto de La Couture, no próprio local onde está o Padrão de Portugal.
  • 18 de agosto de 1918 – É bombardeada, por um submarino alemão, a costa de Aveiro.
  • 21 de agosto de 1918 – O Caça Minas Augusto Castilho atinge com três granadas um submarino alemão nas proximidades do Cabo Raso, afundando-o.
  • 24 de agosto de 1918 – Assume o comando do CEP o General Garcia Rosado.
  • 14 de outubro de 1918 – O Caça Minas Augusto Castilho, que escoltava o paquete São Miguel em viagem do Funchal para Ponta Delgada, é atacado pelo submarino alemão U-139. O combate é violento, desigual, dura duas horas e o caça minas português sob o Comando do Comandante Carvalho Araújo cumpre a sua missão permitindo que o paquete, repleto de passageiros e indefeso, se salve, mas é afundado, sendo túmulo do seu comandante.
  • 11 de novembro de 1918 – Armistício entre Alemanha e Aliados que encerra o grande conflito.

Fernando Freire

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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