Nesta reportagem, acompanhamos um dia de trabalho nos olivais do Tramagal e ouvimos aqueles que conhecem esta terra como ninguém: os trabalhadores e proprietários que mantêm viva a cultura da oliveira.
Quando o outono chega ao Tramagal, o amarelo das folhas mistura-se com o verde dos olivais e anuncia um dos rituais mais enraizados da vila: a apanha da azeitona. Ali, entre redes estendidas no chão e varas erguidas ao céu, famílias inteiras e grupos de amigos repetem gestos que atravessam gerações.
O trabalho é duro, marcado pelo frio, pelas mãos calejadas e pelo cheiro da terra húmida, mas também pelas gargalhadas, pelas histórias partilhadas e pelo silêncio cúmplice do campo. É assim, ano após ano, que os tramagalenses mantêm viva uma tradição antiga.

Entre os muitos que ainda se dedicam a este costume está Franquelim Lopes, para quem a apanha da azeitona faz parte da própria memória familiar.
“Há muitos anos, já vem dos meus pais e dos meus avós, se calhar há uns 30 ou 40 anos”, recorda, enquanto ajeita a rede aos pés da oliveira. Ele, como tantos outros, garante que o valor do azeite começa muito antes de chegar ao lagar. “A época da apanha é complicada, é fria, e a chuva é uma condicionante da época, é normal […] o trabalho é difícil e rigoroso, por isso compreende-se.”

Os ranchos começam cedo — ainda o sol se levanta — e só regressam a casa por volta das 16h00 ou 17h00. Há reformados que encontram aqui um modo de continuar ativos, trabalhadores que tiram férias só para cumprir o ritual, jovens que regressam ao fim de semana para ajudar a família, e outros que abdicam dos seus dias de descanso para manter viva a tradição. O discurso repete-se: mais do que trabalho, é convivência.
Na horta de Joaquim Inácio, a azáfama não foi diferente. Antecipando o mau tempo, dedicou as últimas semanas de outubro à apanha, sempre com o apoio do filho e de amigos. Agora, já com grande parte das azeitonas no lagar, prossegue apenas com pequenas colheitas para conserva. Nesse sábado de 15 de novembro, debaixo de chuva persistente, conseguiu apanhar apenas algumas, mas ainda assim partilhou a sua visão de um costume que conhece bem.
“Mantém-se praticamente tudo igual, o que muda são as máquinas, facilitam. Eu também já tenho uma, mas não uso, há sempre a vara na mão e a ripada.”





Dono do seu olival desde 1998, Joaquim teme que o futuro venha a ditar o fim da apanha artesanal:
“É complicado, há cada vez menos pessoas a apanhar a azeitona. Agora vai ser as máquinas e os olivais intensivos”.
Apesar disso, ainda há jovens que se mantêm próximos da tradição. É o caso de Joaquim Fernandes, de 18 anos, que estuda longe mas regressa ao Tramagal sempre que pode para ajudar o pai.

“Aprendi algo valioso, a perseverança. A apanha exige alguma paciência mas devemos dedicar-nos”, afirma. Quer manter o legado e transmiti-lo às gerações que vierem depois. Para Joaquim, colher a azeitona é mais do que sacudir ramos.

“Envolve muita estratégia, como saber o ângulo certo da apanha nas árvores mais altas, ou como colocar a rede para a queda do fruto não o danificar […]”.
Cresceu a ver a família transformar o trabalho no campo em momentos de união e conexão com a natureza.
Já no olival da rua que conduz às Bicas, encontramos um grupo de oito pessoas, quase todos com mais de 60 anos, exceto Manuel Diogo. O mais novo do rancho conta que começou a apanhar azeitona há cerca de 30 anos, ao lado dos pais, e que mais tarde se juntou a este grupo, que continua a reunir todos os anos.
Mais uma vez, as máquinas são tema — mas apenas como possibilidade. “Tudo à mão e com a vara na oliveira”, diz Manuel Diogo, com orgulho.
A rotina é simples, mas sagrada: “Às 09h30 tomamos a bucha, e ao 12h30 comemos todos juntos.” É o convívio que o motiva a continuar, mesmo em anos mais difíceis.




“Este ano a azeitona está mais miúda por ter chovido pouco na altura certa”, comenta, refletindo sobre como as alterações climáticas tornam a produção incerta, ora com demasiada chuva, ora com escassez nos momentos decisivos.
De relato em relato, percebe-se que a apanha da azeitona no Tramagal é muito mais do que o simples ato de recolher fruto. É memória, identidade, dedicação e partilha.
Apesar das máquinas, dos olivais extensivos e do ritmo acelerado dos tempos modernos, nos campos tramagalenses a tradição mantém-se viva — talvez mais por teimosia do que por necessidade, mas sobretudo por amor. Aqui, nas mãos que colhem e nos ranchos que se reúnem, preserva-se não só o azeite que chega ao lagar, mas também a união familiar e a herança que passa de geração em geração.

Entre tradição, esforço e convívio, a apanha da azeitona no Tramagal continua a ser um retrato fiel da vida rural: duro, mas cheio de sentido. Aqui, onde cada oliveira conta uma história de família, o azeite não é apenas um produto — é identidade, memória e futuro de uma comunidade que resiste a desaparecer.
