Imagem retirada da curta "Life Smartphone", de Chenglin Xie

Por estes dias o Artur Barcelos (um arqueólogo amigo do outro lado do atlântico) partilhou uma brilhante reflexão sobre o novo mundo digital, sobre como de revolução em revolução, desde que habitamos este planeta, chegámos até a uma revolução sem precedentes, materializada e condensada num único objecto que quase todos carregamos no bolso – o smartphone. Nós, os arqueólogos não resistimos a olhar para a sociedade e para a forma como nos relacionamos mediada pelos objetos, passados ou contemporâneos. 

Claro que não vou aqui replicar a reflexão do Artur, mas sim o quanto ela me fez também pensar e repensar acerca do salto gigantesco e disruptivo da digitalização desde há umas décadas, e como esta está a transformar as nossas vidas de maneiras que não imaginamos (nem está ao nosso alcance acompanhar dada a velocidade da inovação tecnológica) e que não tem paralelo noutros momentos chave da história da humanidade.

A história da humanidade é em grande medida a história da sua tecnologia. Durante milhões de anos os nossos antepassados não teriam consciência da dimensão constitutiva da tecnologia nas suas vidas, nem da singularidade que isso lhes dava. Porque, entre outras possíveis razões, durante um muito longo período de tempo, a técnica evoluía connosco de forma mais ou menos harmoniosa.

A história da humanidade é em grande medida a história da sua tecnologia.

Mesmo que tenham existido rupturas técnicas fundacionais, como a pedra lascada, o domínio do fogo, ou de maior fôlego, a agricultura, a pastorícia e a emergência de povoados e sociedades mais complexas. A verdade é que até à revolução industrial a humanidade vive num ambiente técnico estável, transformado de tempos a tempos por ruturas intervaladas por milhares de anos na Pré-História, séculos desde a antiguidade e a partir do século XIX por dúzias de anos. Com a revolução Industrial a duração dos sistemas técnicos é cada vez mais curta e começa a ser tão contraída que quase não há estabilidade.

E agora? Agora o intervalo das ruturas nem sequer pode ser medido por dúzias de anos e não há mesmo qualquer estabilidade técnica. Como lembrou o Artur desde o aparecimento do primeiro telemóvel até ao smartphone que temos nas mãos passaram apenas 39 anos. Pensem no que fazia o primeiro Motorola e o que faz qualquer smartphone hoje… primeiro as chamadas, depois mensagens de texto, logo a seguir ligação à internet, pouco depois câmara fotográfica, acesso a email e hoje a possibilidade de gerir toda a nossa vida profissional e pessoal (com o bom e o mau que isso implica) e aceder a toda a informação. Toda a informação, note-se, é aí está o ponto de não retorno.

Inventada há milénios pelos gregos, foi com a revolução industrial que a Democracia regressou e, sempre frágil, foi crescendo e fazendo o seu caminho, mudando radicalmente as formas de vida das sociedades que a escolheram como regime político. Para melhor, não há aqui dúvida alguma.

E o que nos traz a revolução digital? Nas palavras de Byung-Chul Han, fílosofo e ensaísta sul coreano, traz-nos a Infocracia que é uma insidiosa ameaça à democracia (leiam o seu pequeno grande livro «Infocracia – a digitalização e a crise da democracia»). É um regime em que «a informação e o seu processamento por meio de algoritmos e de inteligência artificial determinam de um modo decisivo os processos sociais, económicos e políticos».

O capitalismo hoje já não produz os corpos dóceis, submissos e obedientes como em tempos no-lo demonstrou Michel Focault (que diria ele acerca do que hoje se passa?). Já não há biopolítica e submissão, mas sim psicopolítica num mundo em que todos se acham «livres, autênticos e criativos» no palco das redes sociais. Ninguém se considera isolado, contudo ali ninguém comunica, deixa informação. E o que usamos para fazer isso? Os smartphones, claro.

Hoje toda a nossa vida é mediada por algoritmos, inteligência artificial, mudando a natureza das nossas atividades e a forma como nos relacionamos, e até como amamos.

A corrente contínua da digitalização e o seu fluxo de informação avançam de forma voraz em todas as esferas da sociedade e nada será como antes (como sempre). Hoje toda a nossa vida é mediada por algoritmos, inteligência artificial, mudando a natureza das nossas atividades e a forma como nos relacionamos, e até como amamos. Mais, também muda a forma como olhamos o outro e como nos organizamos coletivamente (perdendo ou ganhando direitos). Muda até a forma como produzimos conhecimento se pensarmos na recente tendência para usar inteligência artificial na produção de textos académicos (onde está a regulação ética disto?).

A Infocracia é, no fundo, ao trazer a informação total também o sistema da desinformação porque a informação é tanta, tão fugaz e hiperacelerada que a verdade se perde. Bem dizem muitos que vivemos na sociedade da pós-verdade.

Vejo eu, portanto, com maus olhos a digitalização, a inteligência artificial, os algoritmos, enfim a nossa frenética evolução tecnológica? Não necessariamente. Sou arqueóloga e, portanto, olho o mundo em transformação com fascínio, ontem e hoje. Há obviamente inúmeras coisas boas em tudo isto (eu uso muito as redes sociais e com grande proveito pessoal e profissional). Porém, vivemos transformações que trazem radicais novas formas de vivermos em conjunto e quanto a isso é preciso estar atento para nãos nos perdermos. É bom ser crítico e reflexivo para estabelecer limites e cuidar do que nos é mais precioso.

Enfim, é bom pensar sobre as coisas, caso contrário, quando nos dermos conta, já não há volta a dar.

Arqueóloga de formação, dedicou-se durante largos anos à investigação em Pré-História na região do Médio Tejo. Atualmente é Gestora de Ciência na Escola Superior de Comunicação Social e é também Comunicadora de Ciência.

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