A charola em 1509. Iluminura manuelina do Livro de Leitura Nova da Estremadura

No âmbito do Dia de Tomar, que se celebra a 1 de março, o mediotejo.net publica um Suplemento Especial com reportagens, entrevistas e um passeio guiado pela cidade templária, traçando também o retrato das 11 freguesias que compõem o concelho.

Tudo começou em 1160 quando os cavaleiros Templários comandados por Gualdim Pais fundaram o castelo de Tomar, no cimo de uma colina.

Numa altura em que as invasões muçulmanas eram uma constante, o castelo permitiu que as populações se fixassem no seu interior estando protegidas das ameaças.

A construção do castelo obedeceu a “preceitos de estratégia militar, aliados às normas de vida próprias da Ordem do Templo”, conforme escreve Álvaro José Barbosa, ex-diretor do Convento de Cristo, no livro “Tomar Perspetivas”.

Tomar em meados do séc. XIX. Uma das primeiras fotografias da cidade

Havia três cinturas de muralhas que formavam entre si três recintos distintos. Foi entre a primeira e a segunda cintura de muralhas, que se fixou a primeira povoação de Tomar. Alguns vestígios arqueológicos encontrados no local confirmam este facto. A urbe tinha ligação ao exterior através da porta de «Almedina», vocábulo que em árabe quer dizer «a cidade».

No lado norte da terceira cintura de muralha, onde hoje se encontra o jardim, dois claustros e o que resta dos paços do Infante, era o reduto dos Cavaleiros Templários que tinha como cenário, a poente, a emblemática charola, “lugar praticamente inexpugnável” salienta o mesmo autor.

A partir do século XII a povoação foi-se ampliando ao ponto de sair do interior das muralhas e estender-se pela encosta do castelo até às margens do rio Nabão.

Tomar no final do séc. XIX

Não nos podemos esquecer que era por Tomar que passava a estrada real que ligava Lisboa a Coimbra e seguia para o Porto. Um fator que, a par da Ordem de Cristo, criada em 1319, contribuiu para o desenvolvimento de Tomar.

No início a Ordem de Cristo tinha sede em Castro Marim mas em 1357 é transferida para Tomar a pedido dos frades.

Foi com o Infante D. Henrique que o atual centro histórico da cidade, com as suas ruas paralelas e perpendiculares, ganhou forma entre a margem direita do rio e a encosta do castelo.

Como faz notar o arquiteto José Inácio Costa Rosa no livro já citado, “já no tempo dos Templários, e depois com a Ordem de Cristo, Tomar possuía hospitais, gafarias e albergarias”, o que demonstra a importância da então villa.

Outra ação importante do Infante foi a regularização do rio Nabão e nessa altura já existiam lagares na Levada.

Segundo os historiadores, Tomar, em 1707, teria 900 habitantes e, com o surto do progresso no séc. XVIII, esse número passa, 125 anos depois, para 3.618.

O castelo e parte da cidade numa imagem aérea recente (Foto: DR)

As invasões francesas, a extinção das ordens religiosas (1834) e a elevação de Tomar à categoria de cidade (1844) são três acontecimentos que marcaram a história desta cidade no séc. XIX.

É também nesse século que se inicia o processo de industrialização do concelho na qual merecem referência a fábrica de fiação a as fábricas de papel.

A cidade estende-se cada vez mais para a outra margem, a nascente. Em 1878 a população da zona urbana era de 5.191 habitantes, passando a 6.575 no ano de 1880, distribuídos por 1.428 fogos.

Com a evolução tecnológica do séc. XX Tomar assiste a um assinalável desenvolvimento económico. A criação do ramal ferroviário (anos 20) deu um forte contributo para tal. Em termos culturais Tomar fervilhava com a atividade de duas bandas filarmónicas e vários grupos musicais e teatrais.

Também o cinema e a imprensa revelavam uma dinâmica surpreendente para a época.

Tomar, no início do séc. XX, foi das primeiras cidades do país a dispor de energia elétrica.

Imagem aérea do centro histórico de Tomar (Foto: DR)

Nesta fase é inevitável falar do industrial Manuel Mendes Godinho como grande impulsionador do maior complexo industrial do concelho de Tomar, com significativo peso a nível nacional até há poucas décadas.

Em meados do século XX, a barragem de Castelo do Bode foi também um empreendimento marcante, não só para Tomar como para todos os concelhos abrangidos pela sua albufeira, que se estende ao longo de 60 quilómetros.

Em 1967, ou seja, há 50 anos, foram inauguradas duas obras emblemáticas na cidade: o hotel dos Templários e a chamada ponte nova.

A partir dos anos 80 assiste-se a um desmantelamento progressivo da indústria no concelho com graves consequências sociais. Perderam-se milhares de postos de trabalho e muitas famílias tiveram de emigrar. Por este motivo assiste-se a um decréscimo da população, agravado pelo baixo índice de natalidade. Atualmente estima-se que vivam nas 11 freguesias do concelho cerca de 38 mil pessoas.

Para contrabalançar, o início do Instituto Politécnico contribuiu para captar mais juventude que tem ajudado a dinamizar o comércio local.

Os anos 90 e a primeira década do século XXI são marcados por grandes obras públicas. O programa Polis na cidade deu uma nova imagem e trouxe novos equipamentos para a zona ribeirinha da cidade. É no âmbito deste programa que é construída a terceira travessia do rio Nabão, a ponte do Flecheiro.

Em termos de acessibilidades é o tempo de construção das atuais A13, A23 e IC9, vias que atravessam o concelho e que deram uma nova centralidade a Tomar.

No campo económico atualmente assistimos a uma crescente aposta na área dos serviços e a um aumento do turismo.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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