Um idoso protege-se do frio junto a uma lareira. Foto arquivo: ANTONIO JOSE / LUSA

O ano de 2020 começou da pior maneira. Donald Trump faz uma autêntica declaração de guerra ao Irão e coloca em causa a segurança de uma região e de milhões de pessoas. A maioria dos países não gostou, mas ficam-se pelos “apelos à contenção”, incluindo o governo português, quando quem devia ser “contido” é mesmo Trump.

Dois jovens são assassinados – um em Lisboa, em consequência de um assalto em que é esfaqueado e outro em Bragança, neste caso um jovem cabo-verdiano a estudar no nosso país, espancado por um grupo com motivações raciais, segundo várias fontes. São duas situações, que ocorreram com poucos dias de intervalo que nos têm forçosamente que fazer reflectir. O recurso à violência que resulta em morte no contexto de um assalto, cujos suspeitos são na sua maioria menores de idade, é uma situação com contornos muito graves.

Agressões motivadas pelo racismo repetem-se no nosso país e são um alerta para pararmos de fingir que não existe racismo entre nós e enfrentarmos o problema de frente.

Podemos ainda juntar as duas mulheres assassinadas pelos maridos no final do ano, fazendo de 2019 um ano dramático no que diz respeito à violência doméstica.

E as alterações climáticas, impiedosas, não dão tréguas. Os incêndios na Austrália, que duram há meses, devastam tudo – casas, florestas, regista-se uma mortandade de animais. Por aqui as cheias também foram um sinal a levar em conta, um sério sinal.

No início do ano veio também a confirmação daquilo que já sabíamos: um quinto dos portugueses não tem dinheiro para aquecer a casa e se proteger do frio. Somos o 5.º país europeu neste ranking. Como é o Eurostat a dizer pode ser que acreditem e baixem o IVA da electricidade.

E como se tudo isto não bastasse, temos um Governo que actua como se tivesse maioria absoluta sem a ter, apresenta um Orçamento de Estado que é um retrocesso em relação ao caminho que vinha a ser seguido, com a excepção da área da Saúde. Um Orçamento que insulta os funcionários públicos com os aumentos propostos e que faz do “excedente orçamental” o facto mais importante. Um Orçamento, no entanto, que não esquece a verba para injectar no Novo Banco, à banca não se pode falhar.

Desculpem não falar de coisas bonitas, fofinhas e com muitas cores no início do ano, mas a realidade é esta. Faço votos para que neste início de uma nova década sejamos capazes, individual e colectivamente, de não abdicar dos nossos direitos de cidadania e iniciar as mudanças que garantirão o nosso futuro.

Apesar de tudo, um Bom Ano!

Helena Pinto

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação Feministas em Movimento.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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