Inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto, em Galveias. Créditos: mediotejo.net

O edifício de três pisos conta também com uma sala para exposições temporárias que acolhe uma mostra de fotografia de Maria Peixoto Martins (sobrinha do escritor) alusiva à obra ‘Morreste-me’, ou seja, dedicada à memória de José João Serrano Peixoto, pai do escritor. A ideia principal da exposição é partir da obra de José Luís Peixoto para se falar de Galveias.

Talvez o possível seja mesmo o futuro do impossível. No centro da vila de Galveias encontramos uma antiga casa senhorial totalmente requalificada, pintada de branco e amarelo que acolhe agora o Centro de Interpretação José Luís Peixoto. O objetivo passa por estimular a descoberta de Galveias a partir da obras do escritor, um filho da terra considerado um dos mais notáveis escritores da língua portuguesa da sua geração. O romance ‘Galveias’ assume, por isso, um papel fundamental na descoberta do território, das suas gentes e das suas vivências, contribuindo para traçar a identidade mais profunda da ruralidade portuguesa, através de retratos do viver e dos costumes do interior alentejano. A ideia de avançar com o projeto surgiu na sequência do lançamento do romance ‘Galveias’, da autoria do escritor.

Assim, a Junta de Freguesia apresentou uma candidatura, que foi aprovada, ao Valorizar, programa do Turismo de Portugal de apoio ao investimento na promoção da qualificação do destino turístico Portugal, pelo que o projeto é comparticipado a 70%, num investimento de 387 mil euros, mais cerca de 100 mil euros, verba financiada pela Junta de Freguesia de Galveias.

O Centro de Interpretação surge no espaço onde estava instalada a Casa da Cultura, que entretanto foi mudada para outro local, inserido na rede de Turismo Literário do Alentejo e Ribatejo.

O equipamento funciona, então, em três pisos, com uma sala para exposições temporárias que conta atualmente com uma mostra de fotografia alusiva à obra do escritor, intitulada ‘Morreste-me’. A exposição, designada ‘7Janeiro’ pertence a Maria Peixoto Martins (sobrinha do escritor), nascida no mesmo dia em que faleceu José João Serrano Peixoto (pai do escritor e avô da fotógrafa), em 1996, explicou José Luís Peixoto, durante a visita guiada ao Centro, que proporcionou aos visitantes e convidados, após o descerrar da placa na cerimónia de inauguração.

“Pensámos que seria interessante que começasse por esta exposição porque a Maria, hoje, é uma fotógrafa de 28 anos e tem a particularidade de ter nascido no dia 7 de janeiro de 1996, no dia em que faleceu o meu pai. Nasceu um hora antes do avô falecer e esta exposição é um pouco sobre isso”, indicou.

“Como sabem está muito presente na minha obra, o falecimento do meu pai foi muito trabalhado por aquilo que escrevi e Maria ter nascido nesse dia tem essa relação muito direta e evidente. Aquilo que está nestas imagens tem a ver com a casa dos meus pais, a oficina do meu pai certas coisas muito próximas e pessoais que ela registou. Fazia todo o sentido!”, afirmou José Luís Peixoto, explicando que uma das “vocações” daquele espaço é “a diversidade e a quantidade de manifestações culturais”.

Ainda a viver em Galveias, com 17 anos, José Luís Peixoto publicou o seu primeiro texto literário, um poema que saiu no Jornal de Letras, na secção ‘Prova dos Novos’, a 14 de abril de 1992. Logo a seguir, iniciou uma colaboração no DN Jovem, o suplemento do Diário de Notícias que recebia e selecionava textos de jovens até aos 25 anos. Essa colaboração durou até ao final desse suplemento, onde publicou mais de uma centena de textos de prosa e poesia.

Ao longo da década de 1990, teve dezenas de colaborações com pequenas revistas literárias e coordenou o suplemento literário da ‘Nova em Folha’ a revista da Associação de Estudantes da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Em 1997 participou nas plaquetes de poesia ‘Cadernos Átis’ com antigos companheiros do DN Jovem, como é o caso de Margarida Vale de Gato, Rita Taborda Duarte, José Mário Silva, Pedro Mexia, entre outros.

Foi no último número do suplemento DN Jovem, em maio de 1996, que publicou o primeiro capitulo de ‘Morreste-me’. Quatro anos mais tarde daria à Estampa esse texto em edição de autor, que seria os eu primeiro livro publicado.

Apesar de ter saído de Galveias aos 18 anos, José Luís Peixoto afirma sentir aquela a sua terra, dizendo que “tudo o que está aqui tem a ver com os meus anos de Galveias, que são marcantes e são a raiz de tudo isto, o alicerce”.

Nas várias salas do Centro é possível ver fotografias da infância, os seus primeiros escritos, o primeiro poema que publicou no Jornal de Letras, os primeiros poemas escritos à mão que receberam influencia de Florbela Espanca. Também a tal edição de autor, com publicação financiada pelo escritor, sendo ele próprio quem vendia, tendo sido publicado, como referido, o primeiro capitulo no suplemento DN Jovem.

Um cantinho dedicado à escola, onde não falta a fotografia dos professores de José Luís Peixoto, várias imagens de Desporto, designadamente do atletismo, com uma foto do professor Laranjeira, “grande dinamizador” do Desporto em Galveias. Fotos de família, da mãe, das irmãs, dos filhos e dos padrinhos. Alguns objetos, brinquedos, passaportes.

O Centro conta também com uma sala dedicada ao livro ‘Galveias’, uma sala multimédia polivalente e um espaço de leitura.

“Um espaço dedicado a Galveias, não só ao romance ‘Galveias’, com um espaço multimédia, uma sala com vídeo onde pessoas leem excertos de livros. Nessa parede estão excertos de diversos livros ligados a espaços concretos de Galveias e ilustrados por aguarelas de Carlos Sousa, um pintor local mas com um âmbito maior do que isso, um galveense, alguém que com o seu trabalho também tem engrandecido Galveias.

Além dos excertos existem textos originais que são de certa forma contextualizações de cada um dos espaços, feitos por Vânia Rego, uma professora universitária que sabe mais dos meus livros do que eu”, garante o escritor.

Outra das valências é um espaço focado no percurso e na sua obra, onde os visitantes podem observar capas e exemplares dos livros de José Luís Peixoto, escritos nos vários idiomas em que a sua obra foi editada pelo mundo. Existe ainda um outro espaço dedicado a outras atividades de José Luís Peixoto, não apenas as relacionadas com a escrita, mas com o seu percurso ligado à música, quer numa banda rock quer na banda filarmónica de Galveias, e a outras manifestações culturais como as viagens, desde logo à Tailândia e à Coreia do Norte.

O primeiro livro de José Luís Peixoto foi publicado há 24 anos mas não falta o recente livro ‘Almoço de Domingo’ sobre uma personalidade do Alto Alentejo; Rui Nabeiro. Também não falta a ligação do escritor ao rock tendo destaque o projeto que realizou com os Moonspell em 2003.

“Inequivocamente a maior banda portuguesa de heavy metal, com uma dimensão internacional muito grande e rapazes da minha idade com quem mantenho amizade. Estão também alguns materiais de uma experiência que tivemos aqui, há 30 anos, um grupo de música pesada. Eu era guitarrista, o que demonstra muito da qualidade do grupo porque não sou lá grande guitarrista. Mas foi muito importante para nós, estávamos a crescer, tínhamos uma certa rebeldia. Também uma homenagem ao Joaquim Rocha que desapareceu no ano passado prematuramente”, disse.

“Conforme está retratado no livro ‘Abraço’, em 1997 um jovem aproxima-se do escritor José Saramago para lhe pedir um autógrafo. O autor acede ao pedido mas engana-se no nome da dedicatória, escreve. “A José Luís Pacheco, com a estima de José Saramago”. Quatro anos mais tarde, em 2001, esse mesmo jovem vence o Prémio José Saramago com o romance ‘Nenhum Olhar’.

Tanto a partir das leituras, como da relação pessoal de encontros e partilhas, José Saramago deixou influências literárias evidentes em José Luís Peixoto, que culminam na publicação, em 2019, do romance ‘Autobiografia’. Nessas páginas, a presença de Saramago, transformado em personagem, faz-se sentir do início ao fim da narrativa. Desde o título, este livro propõe uma reflexão sobre a abolição de fronteiras entre a autobiografia , a realidade e a ficção, num jogo de espelhos que reflete o processo de criação literária”.

Estas palavras encontramos na parede dessa mesma sala, onde se destaca o momento em que o escritor se encontra com o Papa Francisco na Capela Sistina e com José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, em 1998. “Alguém que tive a grande sorte que estivesse no meu caminho”, afirma. Lembra que o romance ‘Nenhum olhar’, que ganhou o prémio literário José Saramago em 2001, “mudou a minha vida. A partir do prémio muita gente teve curiosidade sobre o meu trabalho”.

Recorda-se que José Luís Peixoto conquistou em 2019, com o romance ‘Galveias’, traduzido para a língua japonesa por Maho Okazaki Kinoshita, o maior prémio de tradução do Japão, a primeira vez que o prémio foi atribuído a um livro traduzido do português. Também esse é um facto não esquecido no Centro de Interpretação.

“Neste espaço encontramos essa dimensão do mundo. Existe a referência a dois livros meus que são sobre lugares e viagens remotas, na Ásia. Um deles é o livro que já tem 12 anos e que teve um percurso também assinalável que é ‘Dentro do Segredo’ que fala sobre a Coreia do Norte, esse lugar tão misterioso, que nos faz pensar. Uma das vocações deste espaço será recebermos aqui escolas e gente que também venha encontrar Galveias mas também um bocadinho do mundo em Galveias, tem diversos objetos que trouxe de diversas partes do mundo, por exemplo objetos do Bornéu, telas da Coreia do Norte, fotografias de vários pontos do mundo”.

No domingo, 21 de janeiro, foi também inaugurada a Rota Literária ‘Galveias’, constituída por 22 pontos registados na obra literária do escritor e que ‘convidam’ os visitantes a percorrer a freguesia.

“A rota literária são pontos de interesse na vila e na freguesia, pontos referidos no livro ‘Galveias’, como edifícios, capelas, edifícios com história, largos, azinhagas, entre outros. Estes pontos têm um percurso que inicia e depois termina no centro de interpretação”, referiu a presidente da Junta de Freguesia, Maria Fernanda Bacalhau.

Através de um instrumento multimédia, com fotografias, som e vídeo, é possível acompanhar a Rota Literária, inspirada no romance ‘Galveias’, a partir do Centro de Interpretação.

Também nos diversos locais – Monte da Torre de Sepúlveda, Herdade do Cortiço, Campo da Bola, Carpintaria, Rua de São João, Rua José Luís Peixoto, Rua da Amendoeira, Rua da Fonte Velha, Capela do sr. das Almas, Capela de São Pedro, Jardim de São Pedro, Rua do Outeiro, Terreiro, Sociedade Filarmónica Galveense, Rua da Fonte Nova, Fonte da Vila, Rua da Palha, Igreja Matriz de Galveias, Alto da Praça, Escola Primária de Galveias, Santuário de São Saturnino, Centro de Interpretação José Luís Peixoto – o visitante encontra contextualização histórica e literária através de códigos QR.

Inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto, em Galveias. Créditos: mediotejo.net

A presidente da Junta de Freguesia de Galveias notou ser este Centro cultural “mais uma história da nossa terra, uma história construída por pessoas, a história de Galveias que José Luís Peixoto leva consigo pelo mundo. Galveias onde regressa das viagens trazendo na bagagem novas histórias para nos contar [… ] um projeto âncora que afirma ou reafirma a nossa identidade”.

A cerimónia de inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto contou com diversos convidados, algumas personalidades destacadas do mundo da Cultura como Pilar del Rio ou Francisco José Viegas, ou do Turismo, como Rita Monteiro, em representação do Turismo de Portugal.

Uma cerimónia marcada pela presença, e discursos, do secretário de Estado do Turismo, Nuno Fazenda, de Maria Manuel Gantes, em representação da Entidade Regional do Turismo do Alentejo, e do presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor, Hugo Hilário,

ÁUDIO | PRESIDENTE DA JUNTA DE FREGUESIA DE GALVEIAS , FERNANDA BACALHAU
ÁUDIO | ENTIDADE REGIONAL DO TURISMO DO ALENTEJO, MARIA MANUEL GANTES
ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE PONTE DE SOR, HUGO HILÁRIO
AÚDIO | SECRETA´RIO DE ESTADO DO TRISMO, NUNO FAZENDA
ÁUDIO | O ESCRITOR JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Muitos outros autarcas alentejanos, desde Cuba a Monforte, estiveram presentes, a par dos dois deputados eleitos pelo circulo eleitoral de Portalegre, entidades militares e civis, representantes do Partido Comunista Português, do Partido Social Democrata, do Partido Socialista e muitos populares.

O dia contou, para além da inauguração da nova infraestrutura, com um concerto da Banda da Sociedade Filarmónica Galveense, no recentemente inaugurado espaço multiusos, antigo “Mercado de Galveias”, acompanhado pela leitura de excertos das suas obras pelo próprio escritor.

Créditos: CMPS

José Luís Peixoto nasceu em Galveias, em 1974. É um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias, traduzidas num vasto número de idiomas, e é estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras.

Em 2001, acompanhando um imenso reconhecimento da crítica e do público, foi atribuído o Prémio Literário José Saramago ao romance ‘Nenhum Olhar’. Em 2007, ‘Cemitério de Pianos’ recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha. Com ‘Livro’, venceu o prémio Libro d’Europa, atribuído em Itália ao melhor romance europeu publicado no ano anterior, e em 2016 recebeu, no Brasil, o Prémio Oeanos com ‘Galveias’.

As suas obras foram ainda finalistas de prémios internacionais como o Femina (França), Impac Dublin (Irlanda) ou o Portugal Telecom (Brasil). Na poesia, o livro ‘Gaveta de Papéis’ recebeu o Prémio Daniel Faria e ‘A Criança em Ruínas’ recebeu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 2012, publicou ‘Dentro do Segredo’, ‘Uma viagem na Coreia do Norte’, a sua primeira incursão na literatura de viagens.

Os seus romances estão traduzidos em mais de trinta idiomas.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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