Foto: Adelino Correia-Pires

As pessoas entram. Olham, hesitam e param. Talvez percebam que estou a ler, a tentar escrever, a fazer tudo, menos o que devia. Olham à volta, voltam a olhar-me e talvez pensem para elas: olhe, porque é que não arruma os livros?

E eu? Olho sempre. Cumprimento. E, a quem não me conhece, tento que continue sem me conhecer. Basta-me que perceba que o que faço é desarrumar livros. Por ordem analfabética, ou por desordem alfabética, como queiram. Mas sempre desarrumados. Como a cabeça de quem os pensou e de quem os terá escrito. A princípio as pessoas estranham. E podem não entender. Porque não lhes respondo de imediato onde fica a “A Casa Grande de Romarigães”? Ou se os “Sinais de Fogo” do Sena ainda não foram apagados? Ou porque vagueia Pessoa pela esquerda e Yourcenar permanece na gaveta?

Gostariam que estivesse tudo organizado. Eu, os livros e tudo. Mas eu não estou aqui para isso. Nem por isso. Para arrumar livros, estão aqueles que os compram, certinhos, direitinhos. Que os colocam na estante certa, sem pó ou sem dó. Mas que nunca lhes tocam. E talvez nunca os leiam. Por isso, não os desarrumam. Esses não são os meus livros, nem nunca o serão. Os meus estão gastos, vividos, mexidos, desarrumados.

E aos poucos, as pessoas vão percebendo. E aos poucos, as pessoas vão-se arrumando aos livros desarrumados. E lá vão mergulhando naquela piscina de livros onde nunca haverá o risco de se ir ao fundo. Porque cada livro é uma bóia e haverá sempre um salvador por ali. Desde que devidamente desarrumado.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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