“Precisamos de previsibilidade e precisamos de estabilidade porque isso é que nos conduz à sustentabilidade financeira”, afirmou Manuel Lemos, tendo feito notar que este é “o grande desafio” para a continuidade do trabalho que as misericórdias desenvolvem ao nível de “respostas aos setores mais frágeis da sociedade”, com a prestação de cuidados a crianças, jovens em risco, pessoas portadoras de deficiência e idosos, entre outros.
Manuel Lemos falava à agência Lusa à margem da inauguração de um lar residencial e uma residência de autonomização e inclusão para pessoas portadoras de deficiência em Moita do Norte, Vila Nova a Barquinha, equipamento gerido pela Misericórdia local e que representou um investimento na ordem dos 600 mil euros. A obra é fruto da parceria entre a Associação de Paralisia Cerebral de Vila Nova da Barquinha, a Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova da Barquinha, a Diocese de Santarém, Segurança Social de Santarém e o Município, com gestão da Misericórdia.
“As misericórdias portuguesas são as grandes especialistas em cuidar dos mais idosos e dos mais frágeis, como as que sofrem de deficiência, mas também cuidamos das crianças, dos jovens em risco, e tudo isto cria uma situação social difícil, no nosso universo, e nós precisamos da cooperação do Estado. Ou melhor, o Estado precisa da nossa cooperação, e se diz que as creches são gratuitas alguém tem de pagar, e esse alguém é o Estado”, notou Manuel Lemos.




No caso concreto da estabilidade e da previsibilidade tendo em vista a sustentabilidade financeira das misericórdias face à gestão diária e a investimentos, Manuel Lemos vincou a necessidade do cumprimento dos valores acordados com o Estado para que estas possam cumprir as suas obrigações.
“Se o Estado se compromete connosco a pagar 50% do custo de um idoso em lar e se só paga 36&, faltam 14%”, exemplificou Manuel Lemos, tendo feiro notar que a falta desses 14% “nota-se depois nos salários dos trabalhadores e nota-se nos investimentos a fazer”.

ÁUDIO | MANUEL LEMOS, UNIÃO MISERICÓRDIAS PORTUGUESAS:
Dividido em dois espaços, o lar tem capacidade para 12 utentes em regime de internato e para cinco utentes em regime de autonomização, num projeto iniciado em 2016 pela Associação de Paralisia Cerebral de Vila Nova da Barquinha e que acabou por ser concluído em parceria com várias entidades, entre elas a Santa Casa da Misericórdia, que vai gerir o equipamento, o município, que contribuiu com 320 mil euros, e a Segurança Social, que aprovou uma candidatura ao programa PARES no valor de 307 mil euros, a par de apoios da comunidade e juntas de freguesia.
A diretora da Segurança Social de Santarém, presente na cerimónia, disse que o equipamento “é um exemplo do melhor que se pode fazer, num trabalho de parceria entre a Santa Casa, município e Segurança Social, e que oferece duas respostas, uma delas bastante inovadora, que é esta questão da residência e da inclusão com autonomização”.




Paula Carloto, que disse que gostaria de ter “muitas IPSS a desenvolver este tipo de resposta”, com a Segurança Social “na primeira linha do apoio técnico e financeiro”, disse que as necessidades são muitas e que instituição que gere está a fazer um esforço para criar o maior número de respostas possível” no distrito.
“Estamos a fazer um esforço articulado de criar uma série de respostas para várias necessidades, tendo elas a ver com pessoas com deficiência, com idosos, crianças ou requerentes e beneficiários da proteção internacional”, declarou.

ÁUDIO | PAULA CARLOTO, DIRETORA SEGURANÇA SOCIAL SANTARÉM:
O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova da Barquinha, instituição que vai gerir o lar e a residência de autonomização, destacou a “satisfação” pela concretização de um equipamento cuja resposta social “era um antigo anseio e uma necessidade da comunidade de Vila Nova da Barquinha e da região” envolvente, com capacidade para 17 utentes.

ÁUDIO | HELDER BRITO, PROVEDOR MISERICÓRDIA VN BARQUINHA:
Helder Brito, que vincou a importância das parcerias e a envolvência da sociedade civil na cerimónia de inauguração, disse ainda que a Santa Casa vai avançar para outro projeto, ao nível de uma unidade de cuidados continuados, com capacidade para 90 camas, num novo projeto de parceria, desta vez com a Santa Casa da Misericórdia de Tomar
A Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova da Barquinha, que vai contratar 16 funcionários para o novo equipamento, tem hoje um total de 85 trabalhadores que prestam serviço a cerca de 130 utentes nas valências de ERPI – Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, apoio domiciliário, creche, centro de dia, e lar para crianças e jovens em risco.
O evento contou com a presença de Dom José Traquina, Bispo de Santarém, Fernando Freire, Presidente da Câmara Municipal, Paula Carloto, Diretora do Centro Distrital de Santarém do Instituto da Segurança Social, Manuel de Lemos, Presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas, Hélder Brito, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, entre algumas dezenas de convidados.




Na sua intervenção, centrada no historial das misericórdias, nomeadamente da Barquinha, e nas bem aventuranças, o presidente do município, Fernando Freire, começou por parafrasear Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

“O apóstolo São Mateus (no Capitulo 5, versiculo 3-13) fala-nos das Bem-Aventuranças! Conta-nos que Bem-aventurados são: os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz, os que sofrem perseguição por amor da justiça! Bem Bem-aventurados somos, quando, nos insultarem, nos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra nós!
O nosso empenho no – envolvimento social, na educação, na formação, nas bem-aventuranças, e nos valores verdadeiros da vida – deve constituir um imperativo categórico diário!
Este Compromisso ético e moral cristão é ancestral no nosso território. Vem das extintas misericórdias deste concelho: a Misericórdia de Tancos, fundada em 30 de agosto de 1582 e da Misericórdia da Atalaia, erigida em 15 de fevereiro de 1588, ambas por alvará do Rei Dom Filipe I., e já extintas.
Este Compromisso das bem-aventuranças foi transmitida à Misericórdia da Barquinha, criada em 22 de agosto de 1921, e que hoje aqui abre mais uma resposta social, o Lar Residencial e Residência de Autonomização e Inclusão.
A Misericórdia sempre acudiu aos reptos da pobreza, aos grupos sociais mais débeis, à doença, às limitações na idade mais avançada, às crianças em risco de exclusão ou vítimas de maus tratos físicos ou psicológicos, como é exemplo o Centro de Acolhimento Temporário (CAT) a acolher na Praia do Ribatejo, tendo como responsável o sempre “bom arguido” Provedor Hélder, tutor de quase 2 dezenas de crianças.
Hoje, e aqui, acolhe mais um desafio social, a resposta aos deficientes!
Hoje, e aqui, com esta resposta, prosseguimos este caminho da misericórdia que também é, de inclusão”.

