A primeira paragem faz-se em Alferrarede, na Rua da Fonte Quente. Ali, a força da água foi tal que a ribeira acabou por galgar as margens e originou diversas inundações. No local, é possível observar as marcas deixadas pela enxurrada: lama acumulada, resíduos espalhados e derrocadas de terras. Mas o impacto não se ficou apenas pelas inundações.
Com o desabamento de terras nas encostas junto à via férrea, também a linha de comboio ficou sob risco de derrocada. Segundo João Marques, a instabilidade obrigou à interrupção da circulação ferroviária durante algumas horas no dia de quinta-feira.
Vídeo/Reportagem
Ao longo da visita, é evidente o rasto deixado pela depressão Cláudia, que em poucas horas expôs fragilidades estruturais e voltou a colocar na agenda a necessidade de soluções duradouras para a gestão de águas pluviais e estabilização de taludes.
Apesar dos estragos causados pela intempérie, João Marques reforça que a resposta foi rápida e coordenada.


A proprietária de uma habitação, que na manhã de sexta-feira contactou o presidente da União de Freguesias, aproveita para relatar o estado em que se encontra a sua casa, após as movimentações de terras provocadas pela intempérie.
Os movimentos do solo, situado junto a uma linha de água, provocaram o desmoronamento do cimento, colocando em risco a estrutura de um anexo.
Visivelmente apreensiva, a proprietária mostrava-se preocupada com a possibilidade de um agravamento das condições atmosféricas poder conduzir ao desabamento da estrutura para o leito da ribeira. Um cenário que, temia, poderia entulhar o curso de água e levar a ribeira a galgar as margens, com risco de invasão da própria habitação.




Depois de ouvir a moradora, João Marques solicitou de imediato o apoio dos funcionários da União de Freguesias, que chegaram ao local poucos minutos depois e iniciaram os trabalhos de consolidação.
“Eles agora vão ficar aqui a dar apoio, retirando o material que se encontrava em risco de poder vir a cair e entupir a ribeira”, explicou o autarca, enquanto a equipa procedia à remoção manual dos elementos soltos e ao reforço provisório da zona afetada.

Já na zona do Tapadão, também foram várias as habitações afetadas pela quantidade de água acumulada, que acabou por provocar inundações ao longo do dia de quinta-feira. Durante a passagem pelo local, a equipa da União de Freguesias encontrou uma das proprietárias ainda a realizar trabalhos de limpeza.
Ao avistar o autarca, a moradora fez questão de agradecer o apoio prestado pelos funcionários da freguesia, a quem chamou “uns queridos”, sublinhando a intervenção recentemente realizada no passeio junto à entrada da sua residência.
A proprietária mostrou-se esperançosa de que essa intervenção venha finalmente resolver o problema da entrada de água em situações de chuva intensa.

Em declarações ao nosso jornal, João Marques explicou que a grande quantidade de água, proveniente sobretudo da Zona Industrial, acaba frequentemente por se acumular naquele ponto, criando situações de risco para várias casas.
“Algumas destas habitações foram construídas abaixo da quota da estrada, e quando isso acontece, a água não encontra saída e acaba por entrar nas casas”, referiu o autarca, apontando para o desnível evidente entre a via e as entradas das moradias.
Segundo o presidente, será necessário intervir de forma estruturada para evitar que estas situações se repitam no futuro. Entre as medidas previstas estão o redimensionamento do tubo de escoamento, substituindo-o por um de maior capacidade, como já foi feito na habitação visitada, e também o alteamento dos lancis das casas, de modo a criar uma barreira que impeça a água de voltar a invadir os espaços residenciais.




De seguida, a equipa ruma em direção às Sentieiras, onde várias derrocadas de terra acabaram por levar ao corte de estradas. Os trabalhos de limpeza encontravam-se ao final da manhã quase terminados. No local, uma máquina concluía as operações de remoção de detritos, libertando a via para a circulação.
Ao nosso jornal, o operador da máquina explica que não vai ser retirada mais terra, uma vez que a remoção excessiva poderia deixar a barreira sem suporte e aumentar o risco de nova derrocada.
“O importante agora é garantir estabilidade. Se tirarmos mais, podemos destabilizar o talude”, referiu, apontando para a encosta ainda húmida e marcada pelos deslizamentos.
Mais adiante, a ribeira que atravessa a aldeia sofreu também as consequências da força da água, levando ao desabamento das margens e provocando o seu alargamento. As marcas da corrente intensa são ainda visíveis na vegetação dobrada e nos detritos de terra acumulados junto às margens.


Numa outra estrada das Sentieiras, em terra batida, João Marques mostra o local onde um desabamento de terra havia impedido a passagem do proprietário de uma habitação ali situada, situação que levou o morador a contactar a Junta de Freguesia em busca de auxílio.
Ao final da manhã os trabalhos estavam já concluídos e a circulação havia sido restabelecida.

Já em Casais de Revelhos, a população ficou impedida de sair da localidade durante a manhã de quinta-feira. A ribeira que corre junto à entrada da aldeia subiu de forma repentina e acabou por galgar a ponte, tornando impossível a circulação automóvel e isolando temporariamente os moradores.
Na manhã de sexta-feira, a Junta de Freguesia foi alertada para eventuais danos na estrutura da ponte, consequência direta da força da água que, durante várias horas, embateu com intensidade na estrutura. Perante o aviso, João Marques deslocou-se ao local e confirmou a necessidade de adotar medidas imediatas.

“Vamos proceder ao corte do trânsito a veículos pesados, de forma preventiva”, adiantou o autarca ao nosso jornal, sublinhando que a decisão visa evitar sobrecargas numa estrutura que poderá ter sido fragilizada.
“A seguir vamos tentar perceber o que se terá de fazer, porque os danos deverão ser ao nível da estrutura. Terá de ser feita uma intervenção, de forma a salvaguardar a segurança de quem aqui transita”, acrescentou João Marques, indicando que será realizada uma avaliação técnica para determinar a extensão dos estragos e as soluções a implementar.




Entretanto, a Câmara Municipal de Abrantes anunciou no sábado que a Ponte de Entre Ribeiras, principal acesso a Casais de Revelhos pela A23, permanece condicionada ao trânsito devido às fragilidades estruturais detetadas após a passagem da tempestade Cláudia (ver AQUI). A circulação está limitada a veículos ligeiros, ficando proibida a passagem de viaturas com peso superior a 3.500 kg, uma medida que visa garantir a segurança da população enquanto decorrem avaliações e intervenções técnicas no local.


Até às 11h30 de sábado, o Comando Sub-Regional do Médio Tejo registava 134 ocorrências relacionadas com a depressão Cláudia, sendo Abrantes o município mais afetado (45 ocorrências), seguido do Sardoal (19), Torres Novas (14), Ourém e Entroncamento (13 cada), Tomar (11), Mação (8), Alcanena e Ferreira do Zêzere (4 cada) e Constância (2). Vila Nova da Barquinha não registou ocorrências.
O comandante sub-regional da Proteção Civil, David Lobato, reforçou que a situação em Abrantes e no Médio Tejo continua a exigir atenção, especialmente nas localidades com pontes e acessos comprometidos.
