O último domingo disse-me que, passados quarenta e sete anos, muito se conquistou, mas muito mais há para conquistar.
Apropriando-me de uma partilha do meu Amigo João Nuno Silva, “cada vez que vejo alguém a denegrir o 25 de abril, lembro-me sempre de um sketch dos Monty Python. Tirando o Serviço Nacional de Saúde, a Educação para todos, a Liberdade, as Pensões de Reforma, a possibilidade de as mulheres poderem ir para o estrangeiro sem ter de pedir autorização aos maridos, a possibilidade de se divorciarem, a quase extinção do analfabetismo”. De facto, “tirando tudo isto e muito, muito mais, porque a lista é demasiado extensa, o 25 de abril não nos deu nada de especial”.
A realidade antes de abril de 74 não tem comparação possível com nenhuma realidade pós-abril de 74. Há de facto quem, ao longo destes últimos quarenta e sete anos, se tenha aproveitado das fragilidades da nossa jovem democracia e não tenha sabido estar ao nível da responsabilidade conferida por esta liberdade, mas circunscrever essa culpa ao “25 de abril”, torna-se demasiado redutor e falacioso, até porque, como também pude ler por aí numa frase proferida pelo General Ramalho Eanes, “abril ofereceu-nos a liberdade, mas esqueceu-se de criar cidadãos”.
Esta falha é tanto mais grave quanto maior se torna a confusão entre conceitos. Identifico alguns saudosistas do antigo regime que partilham essa saudade sem nunca ter vivido esses tempos e vejo também por aí muitos democratas que se desdobram em elogios à liberdade criada pelo “25 de abril”, caindo rapidamente em contradição numa defesa provocatória e de baixo nível a uma outra “liberdade” que apenas permita um pensamento único.
São estes exemplos que redobram a minha motivação e que me dizem que há hoje, um papel cada vez mais importante, único e insubstituível, na força e na necessidade do exercício de uma cidadania ativa e participativa, porque a política é, cada vez mais, um assunto demasiado sério para ser deixado apenas para os políticos.
E essa também é uma liberdade que nos foi deixada por Abril. A liberdade que nos confere a faculdade de cada um de nós poder contribuir para a construção de um futuro diferente.
Há quem afirme que juntos somos mais fortes. Não tenho dúvidas disso. Juntos somos de facto mais fortes. Sem demagogias e com a convicção que é de facto assim. Com todos e para todos. Propondo e sugerindo, mas principalmente, ouvindo. Só assim estaremos juntos e seremos, de facto, mais fortes. Passemos das palavras aos atos. Com todos e para todos. Só assim honraremos a herança de Abril. Saberemos estar ao nível desta tremenda responsabilidade?
