“Temos a responsabilidade de proteger os vossos dados e se não conseguimos então não merecemos servir-vos”. A afirmação é do genial Mark Zuckerberg, fundador da rede social mais relevante da atualidade num post na sua página de Facebook, dita no contexto de uma aplicação que conseguiu ficar com centenas de milhares de dados privados através de um questionário. A revelação indignou milhões de utilizadores que ameaçaram retirar-se desta rede social. Poucos o terão feito.
Esta afirmação levanta sérias dúvidas sobre a privacidade dos nossos dados nas redes sociais e coloca sérias reservas no processo democrático. É um tema complexo e que merece uma análise mais fina e cuidada ao longo do tempo. É apenas um esboço inicial de uma reflexão que entendo que deve ser mais profunda e não se perder na espuma dos dias. As redes sociais têm mais prós ou mais contras? Promovem o isolamento ou o convívio utilizador? Protegem-nos ou tornam-nos mais vulneráveis? Questões que se me colocam e para as quais devem ser construídas respostas.
Em relação ao domínio da privacidade, todos nós ainda estamos a aprender o que se deve ou não colocar nas nossas páginas pessoais. Obviamente que devemos evitar colocar demasiada informação pessoal. Isto porque a mesma pode ser utilizada para fins menos próprios, nomeadamente por pessoas mal-intencionadas. E, infelizmente, há muitas por aí. Também devemos acautelar a proteção de todos os dados sensíveis e dos menores, protegendo a sua imagem e salvaguardando a sua privacidade, conforme referido em inúmeros estudos.
Vivemos um período em que quem não está no Facebook não existe. Esta ideia generalizada, numa sociedade ávida de informação, coloca muitas dificuldades na vida das pessoas e formas de discriminação subtis. Além disso, deparamos-nos com pessoas que julgam que não existem limites morais e legais por estarem no Facebook. No Facebook todos são juízes em causa própria. Todos julgam, todos opinam, todos contestam, todos apontam o dedo sem se olharem ao espelho. Temos nesta situação, por exemplo, casos de bullying, crimes financeiros, crimes sexuais, crime de injúrias ou simplesmente a triste e mera alcovitice. Temos todos de estar preparados e evitar comportamentos de risco, censurando de forma clara todos os comportamentos excessivos, além de os punir de forma exemplar.
Em relação ao tema da Democracia, também ele nos deve preocupar. A partir do debate das eleições americanas de 1960 que opôs o democrata John Kennedy ao republicano Richard Nixon, o marketing político mudou de paradigma e passou a assentar na imagem e na TV. Com a eleição americana de 2009 tudo voltou a mudar. Barack Obama venceu pelo poder das redes sociais do “Yes We Can”.
Contudo, as mesmas redes sociais servem para partilhar “fake news” e essas notícias falsas são partilhadas imensamente como verdadeiras sem controlo. Já parece valer tudo. Esta situação apareceu de forma clara nos últimos processos eleitorais mundiais, sendo o seu expoente máximo as últimas eleições americanas e também as francesas. Mas como isso é possível? Acaba por ter a ver com um fenómeno onde não existe controlo da qualidade do que é escrito. A título de exemplo, nas redes sociais encontramos sempre “posts” de grandes especialistas em tudo. É fácil de ver nas redes comentários sobre as relações Portugal – Rússia sem ler o mínimo sobre relações internacionais, comentários sobre política energética, sem saber como são formados os preços, ou comentários sobre política económica sem saber como se calcula o défice orçamental. É importante a democratização de opinião mas seria importante ela ser acompanhada por estudo e opiniões fundamentadas.
É neste território do imediatismo sem contestação que as “fake news” encontram espaço. A culpa não está nas redes. A culpa está na inexistência de filtros. Os políticos e os partidos também não estão isentos de responsabilidades nesta questão. Estruturas muitas vezes arcaicas e uma incapacidade de passar a mensagem nos dias de hoje. Esse é um dos grandes desafios dos novos tempos que urge conseguir ultrapassar.
