Há cerca de 12 anos, nada fazia prever que o antigo profissional do ramo automóvel viria a dedicar-se ao mundo das antiguidades e velharias. A ideia, como o próprio conta, surgiu de forma improvável, quase casual, num momento quotidiano. “Um dia ia no carro com a minha mulher – entretanto já falecida – e com a minha filha, de regresso a Abrantes, e surgiu a ideia de começar a vender artigos usados”, recorda.
Não houve grandes planos nem estudos de mercado. Houve impulso e ação. Do pensamento até à prática, José Alves começou a dar os primeiros passos, transformando a garagem da casa de família no primeiro ponto de venda. Nessa altura, ainda viviam todos juntos: José, a esposa e os dois filhos. O espaço rapidamente começou a encher-se – primeiro de curiosidade, depois de objetos.
O que começou como uma experiência cresceu a um ritmo inesperado. A garagem tornou-se pequena e o negócio expandiu-se para um espaço na Rua da Estação, também em Alferrarede. Mais tarde, mudaria novamente para um local onde funcionou o antigo Cine-Teatro, onde permaneceu cerca de três anos. Foi aí que o nome “Zé das Velharias” começou a ganhar força e reconhecimento entre clientes e curiosos.





Mas a ambição não ficou por aí. José Alves acabaria por adquirir as instalações da antiga fábrica da empresa SILVA & DIAS – Indústrias de Alimentação, Importação e Comércio S.A., também situada em Alferrarede. Um espaço com significado especial: ali, o próprio José trabalhou durante anos, tal como o seu pai, que ali foi motorista.
“Foi uma coisa que eu nunca pensei”, admite. “Trabalhei aqui, o meu pai também, e ao fim de 30 anos saí daqui… e acabei por comprar isto com a minha mulher. Sem pensar muito. Num dia pensámos, no outro comprámos.”
Hoje, o espaço é amplo e continua em transformação. José tem vindo a realizar várias intervenções para melhorar as condições de armazenamento e exposição. E o que se encontra ali é, nas suas palavras, “um bocadinho de tudo”: desde móveis a eletrodomésticos, passando por peças de decoração e objetos únicos.

Mais do que vender objetos, José Alves lida diariamente com memórias. Muitos dos artigos chegam através de famílias que se desfazem de bens herdados, muitas vezes carregados de significado. “Às vezes as pessoas têm pena de vender, mas não lhes serve de nada. Aquilo está a ocupar espaço”, explica. Ainda assim, as histórias acompanham frequentemente os objetos – e são parte do valor que carregam.
Entre os milhares de peças que já passaram pelas suas mãos, algumas destacam-se pela raridade ou surpresa. “Já apareceu de tudo um pouco”, diz, recordando desde coleções de moedas e selos até libras de ouro. Mas também situações inesperadas: “Já fui buscar coisas a casas onde estavam advogados, polícia, famílias em discussão… já vi de tudo.”
E há também o lado humano do negócio. José não esconde o orgulho quando fala da solidariedade. “Ainda há pouco tempo, uma casa ardeu e eu mobilei tudo para a senhora, desde eletrodomésticos a talheres. Também gosto de ajudar.”
Ao longo desta jornada, José Alves nunca esteve sozinho. Os filhos acompanharam de perto os passos do pai. João Alves, de 29 anos, recorda o crescimento do negócio, desde os primeiros dias na garagem até ao espaço atual.




Segundo João, o ponto de viragem na vida do pai surgiu após um problema inesperado de saúde. “Depois de ter um enfarte, deixou a vida dos automóveis e começou a interessar-se aos poucos por isto. Começou a ver, a comprar… e depois foi crescendo.”
Para a família, o negócio foi também uma forma de recomeço. “Foi bom para ele ter esse escape e mudar o rumo de vida”, conta João. O apoio foi imediato. “Apoiámo-lo todos – eu, a minha irmã e a minha mãe. E eu comecei a ajudá-lo desde o início.”
Os primeiros tempos foram também de aprendizagem. João lembra-se bem dos primeiros artigos: móveis de madeira prensada, pouco valorizados. “Disseram-lhe que era dos piores negócios que podia fazer”, admite. Mas com o tempo, experiência e ajuda de pessoas mais conhecedoras, José foi afinando o olhar e ganhando “bagagem” para melhor selecionar as peças.





Hoje, o espaço atrai uma clientela diversificada. Há colecionadores, curiosos, comerciantes, restauradores e famílias à procura de mobília a preços acessíveis. “Temos um pouco de tudo”, explica João. “Desde pessoas que vêm mobilar casas, até àquelas que procuram peças com história para turismo rural.”
Curiosamente, o perfil dos clientes também tem mudado. “Antes eram pessoas mais velhas, agora já aparece muita gente nova”, nota. Seja por necessidade económica ou gosto pessoal, há uma nova geração interessada em peças antigas e com história.
O próprio João revela uma ligação especial a objetos tradicionais, sobretudo ferramentas rurais e de profissões antigas. “O meu avô foi sapateiro, então essas ferramentas têm um significado especial para nós”, partilha. “Isto também é perceber a história das pessoas.”
“Eu sou mais ligado às partes tradicionais, mais rurais, ferramentas do campo, eu gosto mais disso e então é sempre um fascínio quando, por exemplo, encontramos um arado antigo ou uma canga ou albarda de burros ou de bois. Isso eu gosto muito”, acrescenta.
Essa ligação às origens e às histórias reflete-se também no ambiente do espaço, onde muitos clientes acabam por partilhar memórias. “Às vezes as pessoas até dizem que têm pena de vender, mas acabam por contar a história do objeto”, descreve João.
Apesar do crescimento, José Alves mantém uma visão simples sobre o futuro: “É um dia de cada vez.” A emoção surge quando fala da esposa, com quem iniciou este projeto. “Isto foi uma coisa que eu comecei numa brincadeira com a minha falecida mulher… hoje é uma coisa que tenho aqui com muito trabalho da minha mulher, dos meus filhos, de algumas minhas irmãs também. Isto envolve uma família”.


Ainda assim, não esconde o orgulho no percurso feito. “Hoje isto é conhecido em muito lado. Vem gente de todo o lado aqui”.
João reforça que o rumo do negócio continuará nas mãos do pai: “O futuro é o que o meu pai quiser. Nós estamos cá para o apoiar.”
Mais do que um negócio, este é um projeto familiar, construído com esforço, resiliência e memória. Um espaço onde todos os dias chegam novidades, mas onde o passado nunca deixa de estar presente. “Há pessoas que vêm aqui à procura de um livro, outras de um móvel… aqui há de tudo um pouco”, resume José Alves.
E talvez seja essa a essência do “Zé das Velharias”: um lugar onde cada objeto encontra uma nova vida e cada cliente, uma história para levar consigo.
