De Concavada para os grandes palcos: a ascensão de DJ Cloudz. Foto: DR

Alexandre Soares continua a viver em Concavada, a pequena aldeia do concelho de Abrantes onde cresceu e onde começou, quase sem dar por isso, um percurso que hoje o leva a atuar um pouco por todo o país. Conhecido artisticamente como DJ Cloudz, soma já presenças em festivais académicos, discotecas, eventos corporativos e ações de marcas, integra atualmente os projetos Bad Guys e Funk Edition e é agenciado por uma estrutura profissional.

Antes de regressar ao palco das festas em honra do Senhor Jesus dos Navegantes, falou ao mediotejo.net sobre o caminho percorrido, os desafios de construir uma carreira a partir do interior e os objetivos que continua a traçar para o futuro.

A história começou de forma simples, no quarto de casa, quando tinha apenas 17 anos. Em 2021 comprou a primeira mesa de mistura, começou a experimentar, a aprender sozinho e a mostrar as primeiras misturas aos amigos. O entusiasmo dos que o rodeavam acabou por dar-lhe confiança para publicar os primeiros vídeos nas redes sociais, sem imaginar que esse passatempo se transformaria numa profissão.

“O projeto nasceu a partir do meu quarto, quando comprei a minha primeira mesa de mistura. Ia mostrando coisas novas aos meus amigos e muitos começaram a dizer-me que tinha jeito. Foi aí que decidi lançar-me para as redes sociais”, contou, lembrando os momentos iniciais antes de subir aos palcos para atuações ao vivo e com uma agenda cada vez mais carregada.

De Concavada para os grandes palcos: a ascensão de DJ Cloudz. Foto: DR

A música, porém, já fazia parte da sua vida muito antes de existir o nome DJ Cloudz. Cresceu a ouvir os discos de vinil do pai, que durante os anos 80 animava bailes populares na região, e recorda com naturalidade as brincadeiras junto aos gira-discos e o ambiente musical vivido em casa.

É precisamente essa ligação familiar que identifica como a primeira grande influência do percurso que hoje está a construir.

As raízes continuam igualmente presentes. Apesar de atuar por todo o país, mantém residência em Concavada e considera especial o convite recebido para atuar pela primeira vez nas festas anuais da freguesia, em 2024. Desde então passou a integrar o cartaz todos os anos, regressando agora, pela terceira vez consecutiva, ao palco da terra onde nasceu.

Em apenas dois anos, o crescimento foi muito mais rápido do que alguma vez imaginou. Hoje reconhece que houve momentos em que duvidou se estaria preparado para alguns dos palcos onde começou a atuar, mas acredita que essas inseguranças fazem parte do processo de qualquer artista.

“Nunca me passou pela ideia ter crescido tanto em apenas dois anos. Foi um salto muito grande e muitas vezes pensei que não estivesse ao nível de estar nesses palcos, quase como se não pertencesse lá”, afirmou.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu na Semana Académica de Castelo Branco. Foi aí que sentiu, pela primeira vez, a dimensão de atuar perante milhares de pessoas. Ainda hoje se recorda da ansiedade dos primeiros minutos antes de subir ao palco, mas também da lição que guarda desde então.

“Lembro-me perfeitamente de subir ao palco e sentir as pernas constantemente a tremer. Foi aí que aprendi que só custam as primeiras três músicas”, recordou, numa noite memorável com a pista de dança ao rubro.

Pouco tempo depois surgiu outra etapa decisiva: a entrada na discoteca Alternativa, em Castelo Branco. Foi aí, diz, que começou verdadeiramente a sentir o reconhecimento do público e percebeu que o projeto deixava de ser apenas um passatempo. “É verdade. Foi aí que percebi que para algumas pessoas deixei de ser o Alex e passei a ser o Cloudz”, lembra, entre risos.

Outro passo importante aconteceu quando partilhou palco com John Goulart, que acabaria por apostar no jovem DJ praticamente sem conhecer o seu percurso. “No final da festa pediu-me o contacto para futuras datas. Desde então tenho trabalhado com ele.”

A partir daí vieram novos desafios, a integração nos projetos Bad Guys e Funk Edition e o acompanhamento por uma estrutura profissional, mudanças que encara como o verdadeiro início da carreira. “É quase como se deixasse de ser uma brincadeira e passasse a ser uma coisa séria”, notou.

Apesar de o público conhecer apenas a hora passada em palco, Alexandre Soares garante que a maior parte do trabalho acontece longe dos holofotes. Cada atuação exige preparação musical, ensaios, logística, deslocações e um investimento permanente em equipamento e atualização da biblioteca musical. Resume o percurso com uma imagem simples: “muitos litros de combustível e muitas horas de estrada”.

De Concavada para os grandes palcos: a ascensão de DJ Cloudz. Foto: DR

Nem tudo, admite, foi fácil. Houve momentos de dúvida e ocasiões em que questionou se valeria a pena continuar, sobretudo quando tenta conciliar a atividade artística com a licenciatura que frequenta. O objetivo, para já, passa por concluir os estudos e, mais tarde, perceber qual dos caminhos poderá oferecer maior estabilidade, consciente de que o mercado da música continua a ser particularmente imprevisível.

Continuar a viver em Concavada também significa construir uma carreira longe dos grandes centros urbanos. O jovem DJ reconhece que existem menos oportunidades para quem começa no interior, embora considere que as redes sociais vieram reduzir algumas dessas desigualdades, permitindo chegar mais facilmente ao público.

Ainda assim, deixa um aviso a quem pretende seguir o mesmo caminho: o sucesso exige tempo, estudo e muita prática, e não deve ser apressado.

No próximo sábado regressa ao palco das festas em honra do Senhor Jesus dos Navegantes. Curiosamente, garante sentir menos pressão perante os vizinhos do que em muitos festivais onde já atuou. “Quando estou em casa sinto que sou sempre bem recebido”. afirma Alexandre.

O principal desejo para a atuação é simples: que as pessoas se divirtam. E quando olha para o futuro, também não fala de fama ou de grandes palcos internacionais. O sonho passa, antes de tudo, por produzir música própria e continuar a crescer passo a passo.

“Gostava de ser cabeça de cartaz numa terra perto de mim, com todos os meus amigos presentes e conseguir dar o melhor espetáculo possível”, confessa.

De Concavada para os grandes palcos: a ascensão de DJ Cloudz. Foto: DR

Aos 21 anos, acredita que ainda está apenas no início da caminhada e que, se pudesse voltar atrás e falar com o Alexandre de 15 anos, deixar-lhe-ia apenas um conselho: “não ter medo de começar mais cedo”, porque, diz, a música é uma indústria onde a experiência se constrói com tempo, dedicação e muitas horas de prática. O próximo espetáculo ao vivo, em são convívio e com boa música é já no sábado, em Concavada.

Regressa às festas da terra no sábado

DJ Cloudz atua no sábado, 4 de julho, nas Festas em Honra do Senhor Jesus dos Navegantes, em Concavada e Ribeira do Fernando, certame que decorre entre 3 e 5 de julho. O jovem sobe ao palco após o concerto dos Brysas, seguindo-se a animação pela madrugada dentro.

O programa abre na sexta-feira com a abertura da festa e da quermesse, prosseguindo com a atuação do Duo de Dois e do DJ Skartixe. No sábado realizam-se os tradicionais torneios da malha e da sueca, culminando à noite com o espetáculo dos Brysas e a atuação de DJ Cloudz.

No domingo, o programa inclui o habitual peditório acompanhado pelo grupo de concertinas Terra da Couve, missa e procissão em honra do Senhor Jesus dos Navegantes, atuação do Rancho Folclórico As Lavadeiras de Asseiceira, sorteio de rifas e leilão de fogaças, encerrando com um espetáculo de Mário Coutinho.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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