Os registos policiais da época confirmam a detenção de um indivíduo na posse de uma pasta contendo propaganda comunista, na estação de comboios de Abrantes, em Rossio ao Sul do Tejo, na noite de 20 de outubro de 1948. Guilherme da Costa Carvalho era o seu nome, e foi entregue pela GNR de Abrantes no dia seguinte a elementos da polícia política.
O inspector da PIDE que o interrogou descreveria, anos mais tarde, as circunstâncias da captura em Abrantes deste destacado membro do Partido Comunista na clandestinidade, filho de uma das famílias mais ricas do Porto, e que, em 1960, viria a ser um dos presos políticos que protagonizou, ao lado de Álvaro Cunhal, uma espetacular fuga do Forte de Peniche.
Até então, estava referenciado como pertencendo ao “sector intelectual” do Porto, exercendo as suas atividades políticas na universidade. A partir de 1946, escreveu o agente Fernando Gouveia no livro “Memórias de um inspector da PIDE – a organização clandestina do PCP” (Ed. Delraux, 1979), “este indivíduo vivia na clandestinidade como ‘funcionário’, dominado, sem dúvida, por um espírito de aventura, dado que era filho de um corretor de fundos do Porto, indivíduo bastante rico. Desconhecia-se, na altura, para que ‘sector’ teria sido destacado. (…) Pela região em que foi preso, deduziu-se que tinha a seu cargo o ‘sector’ do Alto Ribatejo. (…) [Nesse dia] meteu-se no Entroncamento numa carruagem de terceira classe do comboio que seguia para a Beira Baixa. A carruagem ia apinhada, e o Guilherme da Costa Carvalho, que ainda tinha conseguido arranjar lugar num dos compartimentos, levava, a seu lado, a pasta, como de costume, cheia de material – jornais e panfletos clandestinos do Partido. De repente, uma mulher sentada ao seu lado (a pasta estava entre os dois), começou a gritar que lhe tinham roubado o porta moedas com 600 escudos. Gritos, mais gritos, alvoroço e o ‘funcionário’, com a pasta bem chegada a si, pretendia aparentar a maior indiferença. Olhavam uns para os outros e todos dispostos a deixarem-se revistar menos o ‘funcionário’. Isto aumentou a desconfiança e chamaram o revisor, que o intimou a consentir na revista pessoal e a abrir a pasta.”
Como Guilherme da Costa Carvalho não aceitou identificar-se ou ser revistado, foi chamada a GNR na estação de Abrantes. O inspector Fernando Gouveia acrescenta na descrição: “Devemos esclarecer que não foi o ‘funcionário’ o autor do furto do porta-moedas (…) [Mas] aberta a pasta e verificado o seu conteúdo, ficou detido por ser portador de imprensa clandestina e foi, depois, entregue à nossa Polícia.”
A PIDE não conseguiu arrancar qualquer informação do detido mas, ainda assim, a posse de panfletos contra a ditadura ditou a sua detenção na prisão do Aljube e o posterior julgamento no Tribunal Criminal de Lisboa, onde foi condenado a dois anos e seis meses de prisão, com suspensão dos direitos políticos por quinze anos. A sentença ganharia um peso acrescido quando foi conhecida a prisão onde teria de ser cumprida: no Campo de Concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde.

O Tarrafal, desterro de centenas de presos políticos, quer de Portugal, quer das ex-colónias portuguesas, ficou conhecido como “campo da morte lenta”, e só viria a ser desativado a 1 de maio de 1974.
Durante os anos de funcionamento ao serviço do regime fascista português, só por uma vez foi autorizada uma visita de familiares ao Tarrafal – precisamente ao prisioneiro Guilherme da Costa Carvalho, graças à determinação da sua mãe, Herculana Carvalho, e à posição financeira e social da família portuense. Herculana viajou para Cabo Verde em 1949 com o marido, Luiz, e regressaram a Portugal com os únicos registos fotográficos conhecidos de prisioneiros no interior do Tarrafal.

O fotógrafo João Pina, 44 anos, cresceu a ouvir falar da “aventura” dos seus bisavós mas desconhecia os pormenores de uma história que, como viria a descobrir numa tarde de verão de 2019, não era apenas de grande importância para a sua família.
Fotojornalista profissional há 25 anos, colaborador regular de grandes meios internacionais como o New York Times, Stern, Le Monde ou El País, tem dedicado grande parte da sua carreira a projetos de investigação sobre questões sociopolíticas, que resultaram em livros como “Condor”, sobre as ditaduras militares na América do Sul durante a década de 1970, ou “46750”, título que remete para o número de homicídios registados no Rio de Janeiro entre 2007 e 2016, quando a cidade estava em mutação para receber o Mundial de Futebol, não conseguindo, contudo, livrar-se da sua histórica violência.
Com “Tarrafal”, a lente de João Pina voltou-se novamente para Portugal, depois de uma primeira obra publicada em 2007, “Por teu livro pensamento”, retratando 25 presos políticos da ditadura salazarista. “O ‘Tarrafal’ representa uma continuação do meu compromisso em documentar a memória histórica e expor as violações dos direitos humanos, mas desta vez trabalhando entre Portugal, Cabo Verde e Angola, a partir da história da minha própria família, neste ano crucial em que celebramos o 50º aniversário da Revolução dos Cravos”, explica João Pina.
Este livro, que acaba de ser publicado pela Tinta da China e foi apresentado a 30 de abril na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, começou a ganhar vida na cabeça de João há cinco anos, quando sentiu “coragem” para abrir velhas caixas de arquivos fotográficos da família.
Num estojo antigo encontrou negativos, provas de contacto e fotografias tiradas em 1949 com a Rolleiflex do seu bisavô Luiz, na célebre viagem ao Tarrafal. “As primeiras fotografias que vi foram as da minha bisavó Herculana a depositar flores nas campas de todos os presos que morreram no Tarrafal… fiquei logo com as mãos a suar e comecei a chorar, de emoção.”

No regresso, sabemos agora, os bisavós de João Pina percorreram o País para levar notícias (e fotografias) às famílias de todos os presos do Tarrafal. Muitos não tinham há anos qualquer informação sobre os seus familiares, nem sequer se estariam vivos ou mortos.
Herculana e Luiz fotografaram também os familiares que visitaram, registando todas as informações de um processo a que se dedicaram durante dois anos. O livro de João Pina revela agora toda essa documentação mas vai mais além, criando um diálogo entre esses registos históricos e aqueles que o próprio fotógrafo fez, nos últimos quatro anos, seguindo os passos dos bisavós.
Além de fotografar o que resta do Tarrafal na atualidade, visitou outros locais relevantes para a recuperação destas memórias e entrevistou familiares de antigos presos políticos. Por exemplo, a partir de uma fotografia em que se podem ver os seus bisavós em Cabo Verde, junto à casa onde ficaram hospedados quando viajaram para o Tarrafal, João Pina chegou à família dos antigos proprietários, Nhô Papacho e Nhá Beba, e foi ao mesmo local com a filha Lilica e o seu marido Manuel Boal, mais de 70 anos depois.

Guilherme de Carvalho regressou a Portugal em maio de 1951, mas para prosseguir preso na Cadeia do Forte de Peniche. Entre penas cumpridas, libertações e fugas, entre 1948 e 1973 passou mais de 16 anos encarcerado. Acabaria por morrer poucos meses antes da “madrugada mais esperada”, por falta de assistência médica. Foi para honrar a sua memória, e a de tantos outros “heróis” desconhecidos que pagaram no Tarrafal a audácia de ter um sonho de liberdade, que João Pina quis fazer este livro, que descreve como “um manual para que esta história nunca seja esquecida”.

João Pina (Lisboa, 1980) formou-se em 2005 no International Center of Photography, em Nova Iorque, especializando-se em Fotojornalismo e Fotografia Documental, e passou grande parte das últimas duas décadas a trabalhar na América Latina. Em 2007, publicou o seu primeiro livro de fotografia (com Rui Daniel Galiza), Por Teu Livre Pensamento, onde relata as histórias de 25 presos políticos portugueses. Em 2014, publicou CONDOR, sobre o plano militar secreto com o mesmo nome, criado pelas ditaduras militares na América do Sul na década de 1970, e, em 2018, publicou 46750, mostrando os efeitos da violência urbana na cidade do Rio de Janeiro. Tarrafal é a sua quarta monografia. Nos últimos 25 anos tem sido colaborador regular de grandes meios internacionais, como New York Times, New Yorker, Washington Post, National Geographic, Le Monde, El País, Stern e GEO, e expôs também as suas fotografias em diversos países. Recebeu vários prémios, bolsas e distinções, destacando-se o Grande Prémio Estação Imagem, prémio autores da SPA, Prémio Moving Walls e Prémio Marty Forscher. Foi ainda bolseiro da Nieman Foundation na Universidade de Harvard e do Institute for Ideas&Imagination no pólo da Universidade de Columbia em Paris. Atualmente, é professor convidado na Universidade de Columbia em Nova Iorque.


