Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

O que poderá ter um licenciado em Ciências da Comunicação em comum com o trabalho manual? Para João Bruno Videira essa relação representa o passado e o presente, e a antevisão do futuro. É artista têxtil e os seus trabalhos resultam de uma fusão entre o artesanato e o design contemporâneo. É em Tomar que desenvolve a sua criatividade, sendo artista residente do projeto Fábrica das Artes, na antiga Moagem.

Entrar no mundo de João Bruno Design é entrar noutra dimensão, onde a cor ganha destaque e onde a lã é dona e senhora do espaço. Em baús, na mesa de trabalho, nas diversas peças expostas, tudo são fios de lã que já foram ou serão trabalhados pelas mãos do artista tomarense.

“Recrio técnicas tradicionais e utilizo materiais tradicionais como a lã. Mas dou-lhes uma roupagem completamente nova, inovadora em algumas circunstâncias, porque a utilização que habitualmente é dada à lã não é esta. O que faço permite uma abordagem diferente em termos conceptuais”, começa por explicar.

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“A lã é a base do meu trabalho, já fiz experiências com outras matérias-primas, tenciono continuar a fazer isso, mas no trabalho que apresento ao público é a lã. É o que exploro, é o que desenvolvo”, conta-nos, enquanto vai tecendo mais uma encomenda em cima dos cavaletes, um painel bem grande que está prestes a terminar.

Enquanto vai puxando cada fio e acertando o seu devido lugar, diz-nos que a lã é uma matéria-prima “muito interessante”. Considera que tem caraterísticas que ele próprio, como autodidata, tem vindo a descobrir ao longo dos anos, à medida que vai trabalhando com ela.

Certo é que o gosto pelo trabalho manual sempre existiu. E, muito provavelmente, a habilidade manual também sempre lá esteve. À espera do tempo e do lugar certo.

“Sempre gostei de trabalhos manuais, e sempre tive alguma predileção e destreza. A vida profissional levou-me por outro caminho…”, conta. “O meu sonho efetivo era ser jornalista. E fui. Continuo a comunicar, e quis deixar de ser jornalista porque não estava satisfeito nem realizado com o trabalho que estava a fazer na altura”, confidencia.

Mas… Como é que a lã se cruza no caminho?

“Não foi uma casualidade. A minha mãe era professora mas tinha uma paixão: fazer tapetes de Arraiolos. Eu desde criança convivia com a lã de Arraiolos em casa. A ligação à lã era familiar”, refere.

Quando começou a criar, optou pela lã de Arraiolos por essa proximidade. Recuando aos tempos de escola, aos currículos antigos que continham a disciplina de Trabalhos Oficinais e a vertente de Educação Têxtil.

“Aprendíamos muito basicamente o que era a técnica do tear, como é que podíamos construir um tear com um simples cartão, com madeira e com pregos”, recorda, indicando que foi precisamente essa técnica do tear que agarrou na primeira peça que fez.

Tudo aconteceu há 16 anos, tinha tomado a opção de deixar o jornalismo. Começou por ser jornalista da RTP, saiu para criar o seu projeto próprio de comunicação, uma produtora de vídeo. Em 2006 abandonou esse projeto e não sabia o que fazer a seguir. E então foi buscar a lã.

“Quase por casualidade, tudo isto começou através do primeiro objeto de todos que fiz: uma cadeira velha, estragada, que um amigo me deu. Nunca na vida pensei, racionalmente, em me dedicar a este trabalho. Foi um processo”, disse. E tudo aconteceu naturalmente, em virtude de todos os elementos e momentos que o levaram até às memórias de infância.

Foi ao avaliar aquela cadeira, que pretendia restaurar e transformar, que tudo se encaixou. Porque não?

“Não tenho trabalho neste momento, porque é que não me poderei dedicar a alguma coisa que seja minha, que sou eu a fazer, que sai de mim?”, questionou-se na altura.

Em alguns meses, corria o ano 2006, fez experiências e mais experiências para perceber qual a potencialidade e viabilidade do que tinha em mãos.

Quando percebeu que tinha condições para prosseguir a sério com este projeto, decidiu oficializar as coisas. Fez uma candidatura para ser reconhecido como artesão. Depois, tendo o conceito, criou a sua primeira marca, a Água de Prata. Atualmente trabalha com o seu nome próprio, João Bruno Design.

Decidiu inverter os papéis em relação ao que estava habituado a fazer: toda a vida tinha sido jornalista, e informava as pessoas sobre o que se passava, sobre a atualidade. E, com esta mudança, mais do que querer, tinha de ser ele mesmo o foco da notícia.

“Muni-me dos meus contactos e utilizei-os, fiz todo o processo de divulgação junto dos diferentes meios de comunicação existentes, para dar visibilidade ao meu trabalho. Já passaram 16 anos…”, expira, enquanto vai trabalhando no seu tear próprio mais uma peça de arte.

Começou no Alentejo, onde trabalhava na altura, perto de Évora. Mas há dez anos as saudades das suas raízes falaram mais alto, e voltou para Tomar.

O seu regresso serviu para voltar às suas origens enquanto indivíduo, mas também procurando as suas raízes no coletivo.

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“Entendo que o trabalho manual tem algo de muito cru, que nos remete para as nossas origens enquanto espécie. É a criação de ferramentas e utensílios que está na base da nossa evolução enquanto espécie humana. O poder criar alguma coisa com as próprias mãos, a mim, remete para essas origens. E a importância que tem o poder, o saber-fazer, o trabalhar com as mãos…”, vai dizendo, expressando o seu sentir sobre a arte que o escolheu.

Num mundo intenso e cada vez mais tecnológico, João Bruno entende ser importante fazer uma chamada de atenção às gerações mais novas para a importância do saber-fazer.

“Temos que mostrar que as ferramentas mais importantes de todas são as nossas mãos e a nossa cabeça. Temos que ter ideias, ser criativos, e as mãos são o instrumento perfeito. São a ferramenta mais importante que temos”

Despertar as crianças para este lado mais criativo, despertar todo o potencial para que no futuro venha a produzir algum resultado, é esta a premissa defendida pelo artesão, que encontra nesta sua atividade uma forma de se aproximar da mãe.

“É também homenagear a minha mãe que sempre se dedicou aos tapetes de Arraiolos, agora de uma forma diferente, dar uma sequência diferente ao trabalho, a reinterpretação de um ícone da cultura portuguesa que é a lã de Arraiolos, matéria-prima de excelência”, e nisto, aponta à tapeçaria gigante que está pendurada na parede do atelier, em lugar privilegiado. O último tapete feito pela mãe, com o desenho escolhido pelo filho.

Tinha o atelier no Alentejo, em casa, e quando voltou para Tomar também o manteve em casa. Até que recebeu o convite da Câmara Municipal de Tomar para se instalar na Fábrica das Artes, onde está há cerca de 3 anos. Aceitou ser artista residente num espaço com dupla função: espaço de trabalho e exposição permanente.

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“Um lugar com história, que me permite ter um espaço de trabalho e os meus trabalhos em exposição permanente. Uma oficina e uma espécie de galeria onde as pessoas podem vir, conhecer-me, conhecer o trabalho, ver como é feito”, enumera, visivelmente agradado com este seu cantinho.

Gosta de trabalhar em silêncio, e dependendo dos trabalhos, põe música. É minucioso na produção e afirma que o trabalho exige alguma concentração, fundamental para que não haja erro.

“Todo o trabalho que é feito à mão, se não for feito com a devida atenção, tem duas opções: ou fica mal feito, ou se o erro for detetado, tem que ser emendado. Normalmente o barulho, o ruído, para mim é isso mesmo, e distrai-me do meu processo de concentração”, esclarece.

Divide os dias de trabalho entre o atelier na antiga Moagem, a sua casa e em reuniões com clientes, visitas a fornecedores de materiais, receber clientes. Até porque é já um hábito dos seus clientes visitar o atelier, sendo sempre certo o pedido para visitar o espaço.

Cada padrão, cada conjugação de cor parece um código criado por João Bruno que só ele saberá decifrar. Têm simetria, mas a sobreposição de fios facilmente nos hipnotiza.

A sua maior inspiração é a natureza. Mas reconhece também na arquitetura o poder de lhe conferir alguma inspiração. Tal como a pintura e a escultura, e “tudo o que tenha a ver com imagem”.

Os seus maiores fãs e referências eram os seus pais. A mãe, professora primária, e o pai, militar.

Prefere a luz do dia, e trabalha no atelier com luzes estrategicamente posicionadas para que não se altere a cor da lã com a luz artificial. As janelas que dão para o centro histórico deixam entrar uma luz que incide de forma especial no seu espaço, desenhando contrastes nesta oficina-galeria.

Diz que não sobra muito tempo para hobbies, mas que gosta muito de jardinagem. Gosta de estar com os amigos, viajar sempre que possível, ler… Sempre viveu no campo, mas esta vinda para Tomar marca o regresso à natureza.

“É onde melhor me sinto”, garante. Vive na Roda, a 12 km da cidade. Na terra onde os pais sempre residiram. Quando era mais novo, diz-nos, teimava em não valorizar a vida no campo e tendia a fugir dela. Na idade adulta o processo inverteu-se.

“Foi um movimento de regresso à natureza e ao campo. Mas sempre preferi viver no campo do que na cidade”, assume.

Diz que nunca pensou sair do país, e que neste momento sair de Tomar também não está nos planos. “Sinto-me muito bem aqui, estou na minha cidade. Sinto-me muito bem acolhido com o meu trabalho e acho que está na hora de dar à minha cidade, ou retribuir, aquilo que me tem dado também”, assegura.

“Sinto-me muito bem acolhido com o meu trabalho e acho que está na hora de dar à minha cidade, ou de retribuir, aquilo que me tem dado também”

Vendo João Bruno trabalhar, enquanto puxa e desenleia os novelos para poder tecer com ajuda das suas réguas de pau, questionamos a facilidade e a destreza automática com que se adianta na peça.

Conta-nos que foi um processo: à medida que foi ganhando experiência e sentindo-se mais confortável e conhecendo as caraterísticas intrínsecas à lã, lá foi começando a ter algum domínio sobre a matéria-prima e com coragem decidiu recriar a técnica clássica.

“Eu transformo as minhas próprias peças em teares, essa é a inovação”, desvenda.

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Ao fundo da sala, enquadrada numa armadura branca, está uma árvore de tom azulão. É uma escultura produzida pela mesma metodologia adaptada ao resultado final. Demorou três meses a conceber aquela obra esplêndida, e apesar de maleável, incrivelmente resistente.

E falando em resistência… logo admite que se testa frequentemente a si próprio e à resistência da lã, ao trabalhá-la e manuseá-la, ao dominar a técnica até ao resultado pretendido. “Para conseguir chegar ali tive de quebrar as minhas próprias barreiras”, refere.

Dedica cerca de 8 a 10 horas por dia ao trabalho, dependendo do tipo de peça e da exigência a nível físico pelas posições que tem de fazer para passar cada fio.

Da sua lista de materiais essenciais destaca as estruturas em madeira ou metal, as agulhas, as réguas de madeira, a tesoura, o imprescindível bloco de desenho para os rascunhos do que virá e, claro, não faltam das imediações de cada mesa ou bancada… os novelos de lã.

Prefere cores vibrantes em detrimento de cores neutras – tudo depende do trabalho, sendo que também pode utilizar cores únicas.

As crises de inspiração não lhe são familiares, até porque assume ser muito fácil visualizar o que quer fazer antes de pôr mãos à obra. Ainda que não seja inédito estar a trabalhar a lã, e no adiantar da peça, achar que não era bem assim… “Basta não estar satisfeito com o resultado, e não tenho problema nenhum em desmanchar e fazer de novo. Mas não acontece muitas vezes”, assevera.

O volume de trabalho que tem chega essencialmente por encomenda, e mais de 95% dos trabalhos são personalizados.

Cada um tem um propósito e é feito para um cliente. As cores estão escolhidas e pré-determinadas em conjunto, mas a magia fica entregue às mãos de João Bruno Videira.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

“Depois é todo um trabalho de improviso no momento em que se está a fazer. Mas há sempre uma ideia subjacente, inicial. Nos mais complexos como as árvores ou os painéis consigo mais liberdade para criar”, confessa.

Faz ensaios de cor, sem técnica ou regra, juntando novelos e percebendo como as cores jogam umas com as outras. Recusa-se a desenhar mais do que quando precisa de idealizar as próprias peças, como é exemplo a cadeira que tem no atelier, desenhada por si.

O processo de produção de um trabalho por encomenda começa com um inquérito – pensando bem, uma entrevista – que ajuda a definir o contexto e o ambiente, por forma a que a peça seja feita à medida da pessoa e se encaixe no espaço onde vai ficar. João Bruno ajuda a definir o local onde a peça ficará a matar, fazendo a sua parte em termos de design de interiores e aconselhando os compradores.

E como se avalia uma peça de arte feita de lã, produzida à mão? Os preços são fixados por si, e crê que “a valorização do trabalho manual passa pelo preço também”.

“Um trabalho manual demora tempo, estou a trabalhar fio por fio, e até completar demora muito tempo. Todo este tempo despendido tem de ter um valor associado”, argumenta.

Um painel ronda os 3.000 euros, uma banqueta cifra-se nos 1.400 euros, uma cadeira custará 700 euros. Mas varia conforme o tipo de peça e o tipo de trabalho envolvido.

Com a sua marca consolidada continua a apostar na divulgação, que passa por revistas de decoração ou design, participação em pequenas feiras. Um trabalho crescente e que vai permitindo chegar a um número cada vez maior de pessoas, a nível nacional e internacional.

E é fácil vender este tipo de arte?

João Bruno reconhece que o artesanato – onde aliás se revê desde que abraçou este seu projeto – por vezes não tem a valorização devida. “Havia uma identificação do que é artesanal como sendo popular e ser de má qualidade. Numa primeira fase debati-me com alguma dificuldade, porque o artesanato ainda tem conotação negativa, menos mas ainda tem”, lamenta.

Lá fora a ideia oposta prevalece: “tudo o que é feito à mão é pessoal, é autêntico, tem alma e é isso que é valorizado”, comenta o artista.

Desde o princípio, tive o prazer de ser contactado por clientes estrangeiros que viam no meu trabalho essa autenticidade. Cá, apesar de ser valorizada, a minha arte não era nem reconhecida, nem vendia. Em Portugal vendia muito pouco ao princípio. Hoje em dia as coisas alteraram-se bastante, felizmente”

No balanço que faz desde 16 anos, nota que a mentalidade mudou um pouco, houve “um despertar na sociedade portuguesa”. Este “acordar” para a valorização daquilo que é feito e produzido manualmente, diz, aconteceu há uns dez anos.

“A valorização passa por conhecer a história por trás, conhecer a origem desses produtos, fazer todo esse rastreamento. A preocupação com a sustentabilidade. Todo este processo começou a produzir algum efeito. As pessoas começaram a olhar para os objetos e a associá-los a uma história. Isso sim é um objeto personalizado”, afirma.

João Bruno fala com entusiasmo sobre o valor imensurável que uma peça produzida manualmente tem, uma vez que acaba por ser original, sem lugar a cópias perfeitas. “Poder ter uma peça que é única, que é feita especificamente para essa pessoa, ao invés de uma peça que é replicada 100 ou 1000 vezes, e produzida industrialmente – nada contra -, mas são coisas diferentes”, afiança.

Este novo movimento e mentalidade, diz-nos, prende-se com os novos estilos de vida, com a preocupação com a sustentabilidade. E isso é tão válido para o lado do consumo, como para o lado da produção.

“Portugal está num patamar muito elevado, mesmo quando comparando com outros mercados no que toca à quantidade de artesãos e designers que apostam na criação de novos produtos. Estamos muito bem mesmo, temos coisas fantásticas, feitas por gente muito nova que se dedica de corpo e alma e que se dedica a criar novos produtos. Isso reforça a nossa posição enquanto país, produtor de ideias e criativo, e as pessoas depois valorizam isso e existe uma procura muito grande pelo nosso saber-fazer. E isso reforça a nossa identidade”, reconhece, enquanto nos aponta as suas pedras de lã, um tipo de puffs que são sua imagem de marca. Juntamente com os painéis, as banquetas, as cadeiras.

Afinal, produzir peças de mobiliário e funcionais eram o seu modus operandi, algo que nunca põe de parte, mas é na arte que reside o núcleo da sua criação.

“Comecei por fazer peças funcionais, de mobiliário. Mantenho sempre esse lado, porque gosto de combinar a estética com a funcionalidade. Mesmo olhando para as peças meramente funcionais, não deixa de ser uma obra de arte, mas as pessoas podem utilizar e usufruir dela”, comenta.

O seu percurso foi feito de (auto)descoberta e de evolução, onde sentiu desde cedo a necessidade de ser reconhecido e certificado como artesão. Mas o percurso foi-se fazendo. “Foi muito interessante ver que, ao fim de poucos anos, as pessoas passaram a reconhecer-me como designer, mesmo não o sendo de formação, e hoje em dia veem-me como um artista. Tudo faz parte do processo”, diz.

A internacionalização é um dos seus investimentos para a promoção do trabalho além fronteiras e angariação de clientes, participando em feiras organizadas por organismos como o AICEP.

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São eventos como a reconhecida feira parisiense Maison et Objet, onde colocou em exposição, no mês de março, o biombo que produziu em cooperação com uma marca americana, que dão visibilidade às peças que produz e permitem fazer contactos que, de outra forma, provavelmente não seriam tão fáceis de fazer, ou sequer possíveis.

Integra a Rede Portugal Manual, rede de divulgação do novo artesanato português.

Faz parte do Guia Internacional HomoFaber, que se dedica à promoção da excelência e da criatividade do que se faz na Europa, o que é um “selo de reconhecimento e de qualidade”.

Quanto não está em viagem, está pela Fábrica das Artes maior parte do tempo. Local onde têm decorrido formações no âmbito da salvaguarda e revitalização das artes e ofícios ligados à Festa dos Tabuleiros, a festa-maior de Tomar.

Bruno refere que o processo de classificação como Património Nacional da Festa “cai por terra se não existir mão-de-obra capaz e habilitada para produzir o que é essencial na construção de um tabuleiro”, e desde logo enumera os ofícios necessários, desde a cestaria, a olaria, a latoaria, as flores de papel… “São artes fundamentais para preservar” a Festa dos Tabuleiros, sublinha, lamentando que sejam artes e ofícios que não tenham a quem passar o testemunho, renovando gerações e preservando os saberes para o futuro.

“Isto é um espaço que é uma antiga fábrica [A Moagem], e que se quer que continue a ser uma fábrica de ideias ligada às artes, e que seja um espaço dinâmico onde as ideias e a valorização das artes sejam um imperativo”

É neste sentido, da preservação e salvaguarda do património, das artes e saber-fazer, que defende que a Educação Têxtil ou qualquer outro ofício são fundamentais e devem fazer parte dos programas escolares.

“O ensino das artes a nível oficial, as artes e ofícios especificamente, desapareceram. Há uns anos ainda encontrávamos algumas escolas de artes e ofícios, mas isso tem vindo a desaparecer progressivamente do mapa. E quando isso acontece, significa que não estamos a dar a importância que isso tem. E é fundamental que as novas gerações sejam sensibilizadas e que lhes seja proporcionado esse ensino”, afirma.

A Fábrica das Artes, refere, pode vir a desempenhar um papel importante localmente, desde que assuma um papel ativo nessa transmissão de saber.

Segundo João Bruno, são os primeiros anos de vida e até à adolescência “onde tudo fica mais registado”, e nesse sentido, “a nossa capacidade de assimilação, e por consequência, de domínio de uma determinada faculdade ou conhecimento, torna-se muito mais acentuado nessas idades”.

Motivo pelo qual entende que é “fundamental” que se proporcione às crianças este tipo de conhecimento.

“A mim marcou-me de forma imensa. Nunca pensei fazer disto profissão, mas lembro-me perfeitamente do que fazia em Trabalhos Oficinais. Desde a educação têxtil ao trabalho com madeiras, ao trabalhar do barro, trabalho com metal…”, e os pensamentos vão voando longe, até aos tempos áureos na sala de aula, buscando memórias felizes desta altura.

O artesão defende ainda que se tem que “apostar na diversidade e apontar para um caminho distinto do da uniformização”, pois “estamos cada vez mais necessitados de pessoas que trabalhem diferentes materiais”.

Para que haja continuidade do saber-fazer e para que se dê importância aos saberes tradicionais, João Bruno Videira considera que só existirá alteração da mentalidade por via do trabalho dos próprios produtores e de outros parceiros a nível educacional, político, social.

“Pretende-se dar importância à produção manual, ao artesanato, enquanto legado e património. Mas isso exige um trabalho de formação e educação, e também passa pelas famílias”, reconhece.

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A vida mudou, os modelos sociais e económicos alteraram-se, vivemos tempos estranhos, e a escola precisa ter “papel decisivo na formação dos mais novos”, procurando fazer diferente, dando um empurrão para que possam agir fora da norma e percebam que as mãos são as suas mais importantes ferramentas.

Para o artista, todos os agentes sociais, a classe política e toda a sociedade civil têm capacidade e responsabilidade nesta matéria.

Até porque património, cultura e identidade caminham juntos. “Enquanto não percebermos que tudo o que faz parte da nossa cultura e património tem que ver com a nossa identidade… nada feito”, afirma.

Para João Bruno Videira “a maior riqueza é o que nos diferencia, e quantos mais traços dessa autenticidade nós conseguirmos mostrar para fora, mais nos estamos a valorizar. Isso é que nos vai diferenciar de todos os outros”.

“Temos de acreditar na nossa voz e não nos deixarmos influenciar. Sermos originais, porque é isso que nos vai distinguir sempre”

Acrescenta que se se continuar a caminhar “na tendência da uniformização”, porque a globalização é isto, será indiferente estar aqui ou noutro ponto do mundo, as coisas vão ser todas muito iguais.

Por isso, para quem queira enveredar pelo mundo das artes, mudando de rumo ou seguindo com o seu sonho ou intenção, o artista 3-em-1 deixa uma dica: “Acreditarmos sempre naquilo que temos cá dentro, e fazer tudo por tudo para que aquilo em que acreditamos se possa materializar. Não há nada mais importante que isso. Acreditar na nossa voz e não nos deixarmos influenciar. Sermos originais, porque é isso que nos vai distinguir sempre”.

Isso, e não desvalorizar quem somos e de onde vimos.

“Temos de deixar de pensar que o que vem de fora é que é bom. E também não precisamos de dizer o oposto. É uma questão de saber reconhecer o valor olhando para nós, para o nosso país.”

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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