O objetivo passa por trabalhar a Dança, a Música e o Teatro, para que a disciplina culmine com um espetáculo final de ano trabalhado e pensado com os alunos da USM. Esta parece ser mais uma experiência cativante para os seniores maçaenses que não se fizeram rogados e algumas dezenas manifestarem intenção de aderir à proposta da professora.
Este é um desafio que nasce pela mão da professora Maria João Rodrigues, conhecida no mundo do espetáculo como Maria João Raushummann. Do seu percurso enquanto bailarina profissional, com 50 anos de carreira a serem comemorados em 2023, constam outras atividades no currículo enquanto coreógrafa, figurinista, produtora de espetáculos, colaboradora da RTP1 e da RTP2, professora de dança e empresária.

Começou a aula com a projeção de um dos seus espetáculos de dança clássica, no Auditório do Centro Cultural Elvino Pereira, em Mação. Cativou a atenção de dezenas de alunos presentes, que ali estavam para perceber o enquadramento da nova disciplina e assim conseguir deduzir se estariam ou não interessados em inscrever-se.
Maria João Raushummann referiu que pretende “proporcionar a cada aluno e ao grupo – como um todo -, uma experiência única”, sendo sua intenção marcar o final das aulas da disciplina de Introdução às Artes do Espetáculo com uma exibição, com um espetáculo profissional que decorrerá na vila, aberto ao público.
As áreas do espetáculo abrangidas são o Teatro, a Música e a Dança, sendo que a disciplina “foi especialmente concebida por mim e destina-se a alunos que vivem fora dos grandes centros urbanos: foi, portanto, imaginado para ser dado na província e vai arrancar aqui e agora, em Mação”, vincou Maria João Rodrigues, dando conta que serão usadas “técnicas profissionais adequadas ao aperfeiçoamento do canto ensaiando a cantiga popular portuguesa”, na área da Música.

Também será aperfeiçoada a dicção, entoação, inflexão de voz, postura, com base na leitura e interpretação dramatizada de vários textos de autores portugueses, de uma seleção de 28 autores entre a prosa e poesia, onde caberão textos de Bocage, a Fernando Pessoa, a Vinicius de Moraes, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner, António Aleixo, e tantos outros.
Na Dança, a professora optou por escolher a valsa, que será coreografada por si usando técnicas profissionais e fazendo-se valer dos “50 anos ao serviço da Pedagogia e Artes de Espetáculo, com competência profissional reconhecida”.
Maria João Rodrigues notou verter nesta disciplina a sua “visão de cidadania cultural para o concelho de Mação”, mostrando ter ideias e conhecimento técnico para retribuir ao concelho de Mação em termos culturais, e esta disciplina, confessa, é o primeiro passo nesse sentido.
A professora demonstrou levar muito a sério a Universidade Sénior de Mação, entendendo dever ser respeitada como outra instituição de ensino, e como tal, pretende manter uma visão profissional e fazer uso das competências técnicas para transmitir ensinamentos aos inscritos.
Munida de materiais, sempre muito competente e eficaz durante a apresentação, foi guiando a sessão consultando regularmente o relógio de caixa preta que pousou na secretária, em cima do palco.
Nas folhas, os apontamentos e o alinhamento da primeira aula, a de primeiro contacto com os seus potenciais alunos. Recordou iniciativas, recuou no tempo e lembrou a ligação a Mação, onde tem as suas raízes familiares. Lembrou que a família paterna se integrava profissionalmente na área da Justiça e polícia, enquanto a família materna era feita de artistas, tendo no avô uma referência.
Entre os presentes, a mãe de Maria João Raushummann, atenta à prestação da filha, neste que é o seu novo bailado, possivelmente o mais desafiante dos últimos anos.
Logo exemplificou e foi tirando a curiosidade aos presentes, especificando conceitos como o papel do figurinista ou do coreógrafo, e em cima do palco exemplificava um, dois, três passos. E de cor consegue trautear os tempos do Concerto nº1 de Tchaikovski a partir da qual coreografou o seu primeiro solo de bailado clássico, apresentando nas Festas de Santa Maria, em Mação. E alguns dos presentes na sala recordaram o momento, nos anos 80.
Questionando um a um a sua identidade, qual tinha sido a sua profissão e se tinham gosto pessoal por alguma das áreas, entre a música, o canto, o teatro e a leitura, ou a dança, foi dialogando e conhecendo os seus alunos.
Na primeira aula, avançou-se para uma breve interpretação e dramatização de texto, a partir da leitura de quadras de um autor do Penhascoso, Cremilde Tomás. Leu ainda excerto do poema “O Assalto”, da chamada poesia branca/livre, sem pontuação, e pelo meio da interpretação e dramatização conseguiu captar a atenção da plateia.

A professora foi dando assim a sua visão de como as aulas devem decorrer, enaltecendo o papel da Universidade Sénior e das disciplinas lecionadas.
No final, o balanço foi positivo, com a adesão a superar as expetativas. A partir da aula nº1 iniciará a preparação do espetáculo final, onde ser profissional, comprometido e contribuir para a coesão do grupo serão palavras de ordem.
“Pareceu-me o momento ideal para reiniciar a minha atividade”, notou, referindo-se ao facto de completar 50 anos de carreira e por entender fazer sentido dar o seu contributo em nome da Cultura de Mação.
“Reentro em cena, esperando poder contribuir dentro das minhas competências para alargar os horizontes da Pedagogia e da Cultura em Mação, fazer evoluir as mentalidades e proporcionar alguns momentos de felicidade às pessoas”, disse, em jeito de compromisso neste seu novo desafio, após ter sido convidada a certa altura pela coordenadora da USM, Vanda Serra, para dar aulas na área das Línguas e Literatura Moderna.
“Afinal, Políticos e Artistas sérios têm um denominador comum: convém que ambos conheçam a realidade, para depois a poder transformar, para melhor, sempre em prol da comunidade”, notou, lembrando que desde 2012 que começou a estar mais presente no concelho, ali passando férias regularmente, mas tendo vindo a residir a partir de 2017 a tempo inteiro em Mação, mais propriamente após o falecimento do pai, José Carlos Rodrigues, em 2021. Agora, ciente do ritmo da vila, está pronta a marcar o compasso numa nova dinâmica sociocultural.
O mais recente bailado de Maria João Raushummann por terras maçaenses

Maria João Rodrigues tem 64 anos, dos quais 50 são dedicados à dança. Com o sobrenome artístico Raushummann, pisou palcos de diversa ordem, dançou para praticamente todos os Presidentes da República à exceção de Marcelo Rebelo de Sousa, mas, divertida e determinada, não descarta que ainda vá a tempo de o fazer. Até porque continua a dançar até hoje.
Começou a aprender a dançar em 1962. Ingressa no Conservatório Nacional de onde sai diplomada em 1973 com o Curso de Dança e Bailarinos. Entra na Escola de Dança da Fundação Calouste Gulbenkian.
“Em 1978 fiz a primeira abordagem à coreografia. Criei um solo de Bailado Clássico, dançado em sapatilhas de ponta, com a música do concerto nº1 de Tchaikovski. O local que escolhi para o estrear foi, contra tudo e contra todos, as Festas de Santa Maria de Mação”, contou, referindo que Mação “viu pela primeira vez Bailado Clássico pelo meu pé e pela minha mão”.
Enquanto coreógrafa, conta mais de duzentos bailados “testados, produzidos, realizados e vistos pelo público português e estrangeiro”.
Além de bailarina e coreógrafa, acumulou ao longo da vida as funções de figurinista, com desenho de guarda-roupa, adereços, maquilhagem, penteados e palcos.
“Em 1981 abri o meu primeiro Estúdio de Dança, em Lisboa, e nessa altura dei início, também, àquele que viria a ser um modo de vida durante 35 anos. Tornei-me professora de Dança”, deu a conhecer, referindo que ao mesmo tempo frequentou o curso de Línguas e Literaturas Modernas, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Chegou, por convite, a dar cursos de Português a estrangeiros durante o
verão.
Entrou no mundo empresarial em 1988, quando fundou a sua primeira Escola de Ballet, em parceria com
Fernando Schaller. Chegou a ter cinco secções abertas em Lisboa, Póvoa de Santa Iria, Amadora e Alfragide.
“Aliás, devo dizer que a ideia foi dele. Ao Fernando cabiam,essencialmente, a contabilidade, informática, área administrativa e contacto com fornecedores e pais de alunos; já eu acumulei as funções de diretora pedagógica, professora da Escola, conceção e produção de espetáculos, direção artística e negociação com as entidades que nos encomendavam espetáculos”, enumerou.
A Escola por si fundada esteve aberta durante 24 anos, tendo sido reconhecida como uma das maiores escolas privadas de dança do país.
Maria João Rodrigues protagonizou ainda alguns momentos importates em prol do reconhecimento da Dança e dos bailarinos profissionais em Portugal, tendo sido chamada em 1994 à Assembleia da República “para debater o Projeto-Lei sobre a Reforma dos Bailarinos em Portugal, juntamente com a Fundação Calouste Gulbenkian, Companhia Nacional de Bailado, Conservatório Nacional, a Professora Anna Mascolo e a Coreógrafa Olga Roriz”. Em 1995 voltou à Assembleia da República para debater a situação da Dança em Portugal.
Entre a organização de estágios de Dança internacionais, frequentou ainda diversos cursos na área das Artes do Espetáculo, mas sempre com a dança no horizonte. Desde o curso de Expressão Dramática e Afro-Cubano com Eva Winkler, na Fundação Calouste Gulbenkian, a um Estágio Internacional de Dança,
dirigido pelo Mestre Gelu Barbu, com a colaboração de Galina Radomskaia, da Academia Vaganova, de São Petersburgo, na Rússia.
Corria o ano de 1996 quando se dedicou ao lançamento de um novo projeto: o Maria João Raushummann – Projecto de Dança (MJR-P.D.). “Era um grupo constituído por 12 bailarinas, vindas das fileiras das Escola de Ballet e dois bailarinos profissionais, que eram ex-Ballet Bolshoi, na Rússia”.

“Esperei 30 anos para dançar com um Bailarino do Theatre-Ballet Bolshoi e um deles foi meu partenaire durante 15 anos! Valeu a pena esperar!”, notou, de forma efusiva, recordando o seu percurso e os momentos felizes e de conquista que o marcaram.
“Também tive o privilégio de trabalhar, durante 4 anos, com a Professora Pavlovsky, da Roménia e relembro, particularmente, com saudade a Mestra Professora Irina Stoupina, da Rússia, com quem tive a distinção de trabalhar durante 10 anos. Ela era Medalha Diaghilev, que é a mais Alta Condecoração atribuída pelo Estado Russo a um artista”, notou.
Com o grupo Maria João Raushummann – Projecto de Dança dedicou-se a produzir espetáculos profissionais de Dança, dirigidos para grandes eventos com entidades oficiais, em hotéis 5 Estrelas, banquetes, congressos, Agências de Viagem, Teatros e Televisão.
“Os bailados do grupo MJR – Projeto de Dança divulgavam as caraterísticas de Portugal e do Povo Português, nos seus aspetos mais nobres: a época áurea dos Descobrimentos, a Poesia, o som único da Guitarra Portuguesa, o destino sofrido do Fado e as fortíssimas ligações do Povo ao Mar e à Terra”, recordou.
Em 2009 deu por encerrada a sua carreira como Bailarina profissional, tinha 50 anos de idade. Afirma que “com a mesma convicção com que entrei, saí de cena”.
Em 2012, com o falecimento do parceiro e companheiro encerrou também todos os projetos, desde a Escola de Ballet ao Projecto de Dança. Foi a partir daqui que Mação começou a estar nos planos.
Este ano, completa 50 anos “ao serviço da Dança em Portugal”. E diz que não podia ter escolhido melhor forma de os celebrar, começando com este primeiro passo, da disciplina de Introdução às Artes do Espetáculo para os seniores de Mação.

“Como saímos todos de uma pandemia, achei muito mais interessante, e fazendo 50 anos de carreira, fazia mais sentido promover algo mais lúdico para as pessoas. Lembrei-me de criar um pequeno curso multidisciplinar, como um artista deve ser também”, indagou.
Maria João Rodrigues entende que “as mentalidades têm que abrir, inclusivamente e sobretudo a nível político”, referiu, indicando que “os políticos do poder central não fazem ideia de como se constrói um espetáculo, qual a ética que técnicos têm entre si, como se negoceiam orçamentos”.
“Não fazem ideia como se concebe um espetáculo e qual a logística que envolve. E o que nós precisamos é que os políticos locais que têm visão – como o presidente de Câmara de Mação, que acho que tem visão estratégica para o concelho – ouçam as ideias e as debatam com os criativos, é importante debater e estabelecer diálogo”, defendeu.
“Eu aposto sempre para as estrelas. Mas sempre com reserva de que tenho que vir a baixar o escalão, porque tenho que estar inserida nesta realidade. E vou tirar o melhor de cada uma destas pessoas em cada uma das áreas de espetáculo da disciplina, não tenho dúvidas disso. Mas aquilo que mais interessa é o coletivo, o grupo que se vai formar”, acrescenta, determinada.
Esta é a visão de uma profissional da área, que tem por missão permitir que “cada um pelo menos uma vez na vida participe num espetáculo profissional, com técnicas profissionais”, com “toda a disciplina ajustada à realidade e ao contexto”.

“Tenho a obrigação moral de me adaptar. E se não for pela direita, vai pela esquerda. É a velha frase de ‘quem não tem cão, caça com gato'”, conclui.
Questionada sobre se este espetáculo final promovido por si serve para comemorar o cinquentenário de bailarina profissional, referiu que aguarda “que alguém no poder político me convide para comemorar os 50 anos de carreira em Mação”, notou, deixando a dica à autarquia local.
“Só posso comemorar aqui, dado que é aqui que eu vivo e é aqui que eu voto”, afirmou, convicta, lembrando que viveu em treze sítios diferentes e estudou no estrangeiro, considerando que adaptação em termos de oferta cultural tem sido difícil, em comparação com a vida que tinha na capital.
Com este reinício de atividade, a sua primeira iniciativa passa por dar alguma coisa à comunidade de que agora faz parte. “Tenho a obrigação, dado que tive condições de vida para poder evoluir, e sinto-me no dever de devolver à comunidade onde finalmente estou inserida alguma coisa que acrescente. Venho de um meio privilegiado, com muita oferta cultural, e agora preciso que me ajudem a situar e canalizar as minhas ideias; as que são melhores são aproveitadas, as outras ficam na gaveta”.








