ACES Médio Tejo chega aos 881 infetados, 23 óbitos e tem 637 pessoas recuperadas da doença. Foto: DR

Nos últimos dias, os meios de comunicação social têm-se referido, com grande destaque, às dificuldades que a pandemia por Coronavírus tem criado aos hospitais, nomeadamente no que se refere à disponibilidade de equipamentos necessários aos doentes e aos próprios profissionais de saúde. Claro que é preciso estarmos muito atentos a estas chamadas de atenção. Precisamos de bons hospitais, de respostas clínicas de qualidade, para a preservação da vida dos doentes, da nossa vida.

Acontece porém que, na presente situação, o possível excesso de procura de cuidados hospitalares pode provocar o caos. E adivinha-se que essa possibilidade é real, que está presente nas preocupações dos nossos dirigentes.

Sabendo-se que cerca de 20% dos infectados vão necessitar de internamento, é desejável a adopção de estratégias que contribuam para aliviar a pressão que está a ser exercida sobre essas instituições.

A generalização de comportamentos adequados na comunidade, conhecidos de todos, asseguram a interrupção da cadeia de transmissão do vírus e diminuem o número de novos casos.

Sabemos hoje, neste contexto, que o maior risco de complicações graves e de vida é directamente proporcional à idade das pessoas, atingindo em especial as que também são portadoras de doença(s) crónica(s). É por isso expectável que sejam os idosos os principais utilizadores de cuidados hospitalares e, se nada for feito, quem os poderá “entupir”.

Para prevenir a doença com eficácia, a maioria dos idosos não institucionalizados está em quarentena voluntária no próprio domicílio. Mas muitos não estão em condições de compreender a necessidade das medidas que lhes estamos a aconselhar. Estes são os que mais vezes precisam de ser auxiliados por um cuidador dedicado, frequentemente o seu único contacto com o mundo exterior.

É preciso ter presente que estes cuidadores, quer sejam familiares do idoso ou não, no exercício das suas funções de suporte da vida diária ou da logística, poderão contactar com o agente infeccioso. E em consequência serem infectados, havendo a possibilidade de se manterem assintomáticos e alguns, passarem a transmissores.

Mas será que não existem factores de protecção adicionais que possamos utilizar? Claro que sim. Pelo que foi dito, percebe-se que a manutenção da saúde destes idosos pode depender de cuidados direccionados não só para si, mas também para os seus cuidadores. Estamos certos que uma máscara ou o uso frequente de uma solução alcoólica, poderão fazer toda a diferença.

É público que o país está a efectuar diligências para disponibilizar às instituições e aos cidadãos, muito em breve, quantidades apreciáveis de máscaras e soluções alcoólicas.

Mesmo assim, nunca serão suficientes para a totalidade da população. Estamos certos que as autoridades, as lideranças, irão decidir que a distribuição desse material se fará com base em critérios de eficiência.

Considerar os idosos não institucionalizados e os seus cuidadores um destino prioritário de máscaras e solução alcoólica, criará condições favoráveis à manutenção da saúde no grupo populacional mais vulnerável ao Coronavírus. E contribuirá, seguramente, para a diminuição da procura de cuidados hospitalares, condição indispensável a uma prestação de elevada qualidade, em benefício dos que se virem obrigados a recorrer a esses serviços.

No devido respeito pelos que mais precisam de se proteger, neste caso, os próprios profissionais de saúde.

Rui Calado é médico epidemiologista e especialista em Saúde Pública. Foi coordenador da USP (Unidade de Saúde Pública) do ACES Zêzere e do Médio Tejo.

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