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Sou membro da grande família dos ingénuos, daqueles parvos que acredita na Justiça como força suprema da evolução. Se não for a dos Homens, no coro dos tribunais, que seja a Divina a exercer a punição através dos tempos.

Outra minha faceta é preferir os factos às fantasias, embora viva do ofício de escrever ficção. Talvez isto explique o meu gosto por histórias baseadas em acontecimentos reais. Tudo isto que vou contar passou-se comigo e tal e qual assim, verídico e veredicto.

A minha primeira ida a um Tribunal nasceu de um processo de Direito do Trabalho. Era trabalhador-estudante e aos 19 anos fui dispensado do meu cargo de jornalista do 1º grau do jornal Semanário sem aquilo que se chama no Direito de justa causa. Tinha requerido dias para os exames finais da Universidade e ao voltar ao meu posto na redacção dei com a surpresa deste ter sido ocupado por um novel estagiário. O motivo da minha dispensa era a extinção do posto de trabalho.

Ia nos meus oito meses de trabalho, tendo já assinado um par de manchetes e recebido elogiosas críticas dos meus pares e leitores. Chocou-me, pois, nem me chegar às mãos de véspera uma cartinha ou ser confrontado diante de todos com o vexame.

Era sindicalizado, por isso logo fiz o caminho para a Rua dos Duques de Bragança, expondo a situação. O causídico deu o caso como ganho, sem contar com a vileza que viria suceder. Ora, as chefias vieram à barra dizer que eu era um avençado, colaborador-avulso, e na minha ausência prolongada (de 15 dias e justificada como assalariado contratado) entenderam dispensar-me. A falta de aviso prévio era apenas um lapso. O causídico ainda fez por provar que havia folhas de salários, mas o contrato de que nunca me havia sido dado cópia, estranhamente, sumira dos arquivos. O juiz cedeu ao patronato e fiquei a ver navios.

Nos meus tempos de jornalista fui assíduo de tribunais, quer como arguido e protagonista de acusações de abuso de liberdade de Imprensa, quer como redactor de grandes e pequenos processos. Enquanto arguido nunca fui condenado, e tomei as sentenças por justas e próprias de um estado democrático.

Num dos processos que me moveram uns angolanos poderosos implicados num crime de sangue e violação em Luanda, cuja história contei ao detalhe com um testemunho ocular e o depoimento do viúvo desolado, vi-me alvo de agressões à porta de casa por um trio de negros não identificados que pretendiam silenciar-me, e vi o processo ser levado até ao Supremo, obrigado a mudar de penteado e morada. Fui ilibado e os criminosos mantiveram-se à solta. Ainda hoje sou persona non grata em Angola. 

Há dois anos voltei a ir a um Tribunal, acusado de difamação, injúria e calúnia por um polícia zeloso do seu nome, mas de honra da farda conspurcada. A escrita de uma crónica, onde contei o relato cru da sua infame actuação abusiva de autoridade e racismo, levou o agente a procurar a sua justiça particular.

A Sra. Dra. Juíza leu as partes mortíferas da crónica em voz alta sem conseguir evitar o sorriso e mandou-me prestar serviço social. Uma sentença de doze horas de trabalhos forçados a ensinar as artes da escrita à população.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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