Martin Luther King. Créditos: Pixabay

Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado:
“O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade”.

– “Eu Tenho um Sonho”, Martin Luther King

Na verdade, quando alguma coisa me encanita, vou mais pelo amor, com amor se paga, a lei de Talião. Mas, à custa de muito labor budista, meditações transcendentais, pivetes de incenso e leituras avisadas (“Em Busca do Grande Peixe”, David Linch, “A Vida Compassiva”, de Dalai Lama, o sonho de Martin Luther King… todas as palestras de Jiddu Krishnamurti), dou por mim a imaginar o que seria o mundo (Portugal, apenas) movido pela energia do amor incondicional.

Por exemplo, se os políticos se amassem maduramente uns aos outros e honrassem os seus adversários de hemiciclo com amáveis, justas e esclarecidas palavras, livres de uma verve jocosa, sarcástica e ofensiva, cooperando para o bem comum?

Citando o sonho de Martin de que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.

Se os empresários milionários (além do exemplar Rui Nabeiro) repartissem as suas fortunas (sem interesses de reduções fiscais) por um rol de lusitanos aflitos, empregando-os com salários dignos e fomentando a sua felicidade, sem se digladiarem na conquista do ceptro de homem mais rico?

Se os senhorios reduzissem as rendas até ao limite do possível, no lugar de praticarem a ganância? Se os Bancos prolongassem as moratórias em tempos agrestes como estes que vivemos, ou abdicassem de boa parte dos seus usurários juros, minguando as benesses dos accionistas?

Se a EDP ou a EPAL (e as suas congéneres de outros distritos) abdicassem de metade que fosse dos seus chorudos lucros para aliviar os encargos de uma população à míngua?

Se os Pingos Doces e Continentes da vida doassem as sobras de comida ou reduzissem as suas margens de lucro ao mínimo dos mínimos, que não lhes prejudicasse os volumes de receita? Se o Governo colocasse em cada casa necessitada um computador e manuais de estudo gratuitos?

Se no lugar de oferecer pancada ao condutor distraído, o agressor lhe perguntasse como vai a vida e lhe oferecesse um café, vindo talvez a descobrir dos seus padecimentos que o levaram à distração?

Se o casal em guerra aberta recorresse a uma mediação de conflito, porventura acabando uma relação estafada, no lugar de perpetuar o ódio até à separação pela morte?

Se os lagartos, lampiões e tripeiros dessem lugar a uma irmandade desportiva de leões, águias e dragões, onde ganhasse o mais hábil e dotado e não o clube mais matreiro?

Se o dinheiro gasto com armas e políticas de defesa revertesse para a construção de mais bibliotecas, jardins e escolas de estudos de religiões comparadas, frequentadas por gentes de todas as raças e condições sociais?

Atenção, nada disto são ideias cínicas. É apenas o território do poder da mente pícara, onde se pode imaginar um mundo melhor e menos desigual, como em muitas histórias de amor.

Noutra crónica falei de um fenómeno agitador, o André Ventura. Dei por mim, dias depois, a pensar no que será o íntimo deste aparente neo-nazi, a ajuizar pelos seus discursos, provocações e propostas de lei bélicos, zombeteiros e caceteiros. Que tipo de amor lhe correrá nas veias, além do propalado amor à Pátria e à Justiça de tipo trombeteiro e trauliteiro, herdeiro de Salazar, Benito e Franco?

Não posso dizer que lhe tenho amor, mas desejo-lhe apenas que seja levado a cair na sua própria armadilha, enquanto houver democracia e haja gente capaz de lhe desmontar o discurso, demonstrando a crueldade das suas propostas odiosas.

O que levou Hitler ao poder foi o ressentimento de uma Nação derrotada e humilhada. É daqui que nasce o ódio, do medo, por oposto ao amor, que frutifica de geração espontânea. Quem diz Ventura, diz Rui Rio ou António Costa e outros diabos a 7, apenas ocupados do seu amor-próprio.

Pina Bausch dizia ao seus bailarinos que o mais importante era o que os movia e não como se moviam. Este princípio aplica-se a tudo e todos na vida, em qualquer arte e ofício.

Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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1 Comentário

  1. Grande texto, és o maior, tens razão, o amor pelo amor!
    As pessoas podem ser controversas, mas o amor assistilas e ofereceram amor a outros valormes diferentes uns dos outrosl Somos diferentes uns dos outros, mais mais iguais do que pensamos.
    Pelo AMOR UNIVERSAL!!!!

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