André Ventura, líder do partido Chega. Créditos: DR

Calha o sujeito chamar-se André Ventura, como podia dar pelo nome de Antão Vasques ou João de Monferrara (tomara ele, e ide ver quem foram estes dois). Declaro aqui (e uma vez chega) não me rever em qualquer tipo de sujeito(a) onde quadra o incitamento ao ódio, a apologia da cacetada (cabotina) e a paixão da xenofobia.

A ameaça redundante deste tipo de sujeito(s) é haver quem neles se reveja e siga de arrasto para as fileiras daquilo que vulgarmente se chama de fascismo. Ou seja, os portadores do facho da violência como método de arrumação de castas. Não é só na Índia que se dá paulada de cima abaixo, segundo o princípio de uma superioridade de (k)arma, berço (apelido) ou de puro revanchismo.

André Ventura é até certo ponto uma contradição onomástica, sendo um ventureiro diferente de um aventureiro. Faz-nos falta um Ventura venturoso que se bata e combata a acintosa desigualdade, o oportunismo do poder ou o tráfico de influências, para falar de coisa pouca. Alguém que use de um discurso-acção onde da Banca aos estádios, das empresas públicas à sociedade do espectáculo, diga-faça: “Obviamente demito-os; obviamente aperto com os juízes e Tribunais para que os processos de A., B., C… não se arrastem ou prescrevam enquanto os advogados se rabeiam na sua gíria, e não descanso enquanto não os vir bem julgados e de cana em cela comum; obviamente não importa se são ricos ou podres de ricos, pois a mim ninguém me compra o silêncio ou a inacção”.

Ou seja, uma limpeza de todos os que fazem da política e da vida uma usurpação da coisa pública, para mau nome da República. O André, acaso lhe dêem votos para ocupar um mais alto poleiro, obviamente demitirá, arreará e encanará todos os que não afinem pelo seu diapasão; dará força de expressão às polícias, incluindo as do pensamento. Entretanto, garante a sua reforma vitalícia, goza o prato da sua habilidade para as fracturas e desaparece com um rasto de sangue, pois o povo é brando até ao dia.

Dar-lhe palco e tribuna, como fez o sarreiro Araújo Pereira, não é para o satirizar ou enxamear de insultos. É para o arrumar na impostura da sua teatralidade calculista e apurar quem são os que o defendem, arrumando-os de nomes expostos no livro negro do fascismo, ossos com ossos de todos os seus abomináveis praticantes e simpatizantes, que verdade seja dita, não são piores do que os defensores do comunismo estalinista, kim-il-sunguiano, pol-potiano ou todo e qualquer método de extermínio do que é e pensa diferente.

*

Um dia calhou ir ao baeta e passar ao largo das fileiras do facho Ventura. Eram mais do que as mães, devo dizer. Iam todos, pimpões, os cheguistas, a descer a Avenida da Liberdade de braços suásticos (e sovacos suados) ao alto.

Pelos dizeres e estandartes o Chega não é um movimento neo-fascista encapotado. Ou seja, a base de jactância propaga o racismo. Ora, a dita marcha tinha como libelo o descontentamento de raça. Assim como há o paradoxo do actor, também o há na política.

À conversa com monsieur Patrick Despaud, o meu aparador de caracóis, referi o entusiasmo da comitiva e o perigo de contágio da imbecilidade. Patrick, um belga citoyen du monde, há muito habituado aos portugueses, predicou com uma tesourada de pragmatismo: “O melhor seria no lugar de líderes políticos haver CEOs, despedidos pelos accionistas consoante os seus resultados”. Acrescentei, da minha lavra: Um Estado-Empresa, cujo único dever cívico é dar emprego digno a todos os seus empregados-cidadãos e assegurar boas condições laborais.

A ver pelo cabeleireiro do Patrick, o país só teria a ganhar. Não se vêem por ali rostos bisonhos e odores empestados, por mais que a clientela do salão se faça somente de gente com pedigree. Por mim, voto no Patrick para liderar os cortes.

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Escrever (e pensar) dá trabalho. Requer mão, cabeça, coração, dedos (uma ponta e indicador que seja). Apontar (o dedo, a arma) é fácil. Reflectir sobre um assunto (post, frase, alínea, ensaio, haiku, programa partidário, intervenção, piada, crónica…) implica recuo. O que é um racista, por exemplo? E fico-me hoje por aqui. Alguém que vê noutra raça um inimigo, um alvo a bater ou abater, por regra da forma mais cabotina, fazendo-se rodear de pares encarniçados.

O racismo é uma aberração, e só um acéfalo, psicopata, sociopata, agitopata, proclama a sua raça como superior. Só existe uma raça: a humana. O resto são variações coloridas e pequenas diferenças de ADN (sendo os de raça dita negra os mais evoluídos e antigos à face da Terra, peritos no que toca a resistir e sobreviver).

As discussões recentes (de sempre) à volta do crime do polícia americano, das governações fascizóides de um Bolsonaro ou dos perigos arrivistas do aventureiro Ventura vão todas dar ao mesmo que é o calcanhar de Aquiles da Humanidade chamado dicotomia, e os seus líderes não fazem mais do que manipular as frustrações das massas incautas. Ou se é fascista ou comunista. Ou pró ou contra. Os argumentos civilizados, onde se pressupõe uma leitura séria dos acontecimentos e dos protagonistas, não imperam, fazendo de todos cúmplices do populismo.

Numa hora-época agitada como esta, a resvalar mansamente para o perigo do canibalismo, talvez fosse mais interessante assistir a uma Manifestação sobre como matar a fome aos esfomeados. Basta dar um giro para se ver como o número de pedintes da bucha supera em larga escala as vítimas da covid-19. Quanto aos números da estupidez humana não há como quantificá-los.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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