João Florêncio
Natural de Abrantes
Professor Associado (“Senior Lecturer”) de História da Arte e Cultura Visual Moderna e Contemporânea, Universidade de Exeter, Reino Unido
Esta crónica é escrita a partir de Berlim, onde me encontro de momento, naquilo que seria um período de dois meses de trabalho de investigação. Quando deixei o Reino Unido no início de Março, a infecção pelo SARS-CoV-2 na Europa ainda não tinha assumido as suas proporções actuais e medidas de restrição de movimento e auto-isolamento ainda não tinham sido implementadas quer no Reino Unido, quer na Alemanha. A situação era já preocupante na Itália, mas o resto da Europa parecia-me viver ainda na normalidade.
Passadas três semanas, tudo mudou drasticamente na país em que me encontro, no país onde vivo, e também naquele onde nasci. Já há duas semanas, quando tive de tornar brevemente ao Reino Unido para uma reunião de trabalho, se conseguia perceber que algo estava a mudar. Tanto o aeroporto de Schönefeld em Berlin como o aeroporto de Bristol em Inglaterra me pareciam já estar a meio gás: salas com poucos passageiros, ausência de filas para os balcões de check-in, nenhum tempo de espera para os controlos de segurança. Dessa mesma opinião fora o taxista que me levou do aeroporto de Bristol até ao local da minha reunião, queixando-se que não haveria trabalho quase nenhum já por aqueles dias, e dando-me conselhos sobre como evitar “apanhar” o virus, conselhos esses completamente errados.
Ainda assim, Bristol, nesse dia 11 de Março, pareceu-me viver mais um dia como os outros: lojas, restaurantes, pubs, escolas e universidades de portas abertas, apesar do aumento de notícias acerca da pandemia, e da informação que continuava a receber de amigos em Berlim a alertarem-me que a situação deveria mudar rapidamente, e que medidas drásticas começariam a ser implementadas nos dias seguintes.
Desde que voltei para Berlim no dia 12, a sequência de eventos, notícias, contagem de novas infecções, e medidas postas em prática para conter a infecção adquiriu uma velocidade vertiginosa. Primeiro o cancelamento obrigatório de grandes eventos, depois o fecho de escolas, universidades, bares, restaurants, ginásios, e dos famosos clubs da cidade, ao mesmo tempo que o governo federal recomendava que a população mantivesse distâncias de segurança.

A chanceler Angela Merkel, famosa, entre muitas outras coisas, por não dar diretos para as televisões, começou a aparecer todos os dias nos canais de TV, em diretos oficiais com conselhos ao público e actualizações dos dados da infecção no estado federal.
Em comparação, o governo do Reino Unido foi muito mais lento a tomar decisões, em grande parte devido à intenção inicial do primeiro-ministro Boris Johnson de manter a economia a funcionar a todo o custo, defendendo, num gesto reminescente da criação das ciências eugénicas no Reino Unido no século XIX, que deveríamos apenas aguardar que a população adquirisse imunidade de forma natural, ignorando todas as mortes que aconteceriam durante esse processo.
Digamos o que dissermos da Merkel (e muito há a dizer, nem sempre o melhor), o facto é que o seu pragmatismo, aversão ao risco, e background científico levou-a a implementar medidas de contenção da pandemia muito mais cedo do que Johnson, que só esta semana decidiu finalmente fechar pubs, ginásios, restaurantes, universidades e escolas.
É por essas razões que, parece-me, o dia-a-dia na Alemanha e no Reino Unido se vive actualmente de forma muito diferente. Enquanto que a população do Reino Unido correu para os supermercados em pânico para se abastecer com tudo e mais alguma coisa enquanto o governo hesitava em tomar decisões, levando muitos supermercados a ficarem completamente deprivados de bens essenciais, os supermercados em Berlim não mudaram assim tanto. Claro que massas, leguminosas secas e enlatadas, bem como comidas congeladas estão a desaparecer muito mais rapidamente das prateleiras, mas as pessoas parecem-me mais calmas e, ao contrário do Reino Unido, os supermercados não tiveram (ainda?) de criar horas especiais para atendimento exclusivo dos mais idosos e dos mais vulneráveis.
Armado com o meu desinfectante de mãos, continuo a sair de casa diariamente para comprar fruta, legumes, pão e café, bem como um ou outro ingrediente que entretanto acabei. E continuo, por enquanto, a sair para um passeio pelo parque de Tempelhof, onde os Berlinenses se mantêm cada vez mais à distância uns dos outros.
Ruas e transportes públicos encontram-se quase desertos apesar do sol que começou a brilhar sobre a cidade, e máscaras e luvas tornaram-se acessório comum.

Para além disso, mantenho-me ao máximo dentro de casa, tendo ajustado o meu plano de trabalho para evitar entrevistas presenciais com participantes no meu projecto, e tendo reduzido ao máximo a minha vida social (à parte de um ou dois amigos que com quem ainda janto ou jogo jogos de tabuleiro periodicamente, uma vez que vivem perto do meu apartamento em Berlim).
A Chanceler Merkel anunciou ontem que novas medidas poderão ser anunciadas nos próximos dias se a infecção se continuar a propagar. Espero que não seja necessário, pois parece-me melhor que as pessoas fiquem em casa de sua livre vontade em fez de terem de ser obrigadas a fazê-lo pela polícia ou os militares.
Entretanto vou ficando por Berlim – qualquer sítio me parece melhor de momento do que voltar ao Reino Unido, onde o governo de direita do Johnson continua a privilegiar a economia e a ignorar as necessidades básicas dos cidadãos e os alertas dos médicos e enfermeiros de um sistema nacional de saúde que, apesar de ser completamente gratuito, sofre com anos consecutivos de cortes orçamentais às mãos de governos neoliberais empenhados em destruir o Estado social.
Com cerca de metade da minha licença sabática de dois anos ainda pela frente, e com muitas actividades de investigação planeadas até ao início de 2021 em parceria com universidades, arquivos e museus na Alemanha e no Reino Unido, continuo a trabalhar da forma que posso, apesar de não termos ainda quaisquer certezas sobre quando regressaremos aos nossos ritmos habituais de vida. Mas lembro-me diariamente que vivemos situações tanto ou mais assustadoras no passado. Por exemplo, a epidemia da SIDA durante os anos 80 e 90 que teve, durante as suas primeiras décadas e antes da introdução de tratamentos antirretrovirais eficazes, uma taxa de mortalidade de 100%. E que muitas pessoas pelo mundo vivem ainda hoje na presença de infecções como o ébola ou a malária.
Faço o que é preciso para me entreter e não dramatizar os dias que correm mais do que necessário. Lavo as mãos várias vezes ao dia sempre que entro em casa, trabalho, faço bolos, jogo jogos de tabuleiro, leio livros, ouço música, vejo Netflix, falo com amigos no Skype, mantenho-me atento às notícias, e pergunto-me, hoje como sempre: “what would Britney do?”
