Salomé Fernandes, 25 anos, é de Ourém. Mudou-se para Macau em 2017 por motivos profissionais. É jornalista. Conta ao mediotejo.net como tem encarado os tempos de pandemia global, a mais de 10 mil quilómetros da família. Foto: DR

Salomé Fernandes
De Ourém.
Jornalista no jornal Hoje Macau.

A calçada portuguesa que preenche os passeios de Macau costumava estar oculta, tapada e desgastada pelos pés de residentes e a enchente de turistas que visita o território. Mas desde o Ano Novo Chinês que o cenário se transformou. A existência de casos confirmados na cidade trouxe com ela o receio do invisível. Talvez por causa da SARS em 2002, e de habitualmente já haver o cuidado de as pessoas usarem máscaras quando estão doentes com algo tão comum quanto uma constipação para não transmitirem nada aos outros, a sociedade ficou de imediato sensibilizada e alerta para a necessidade de mais cuidados.

A resposta do Governo também se fez sentir rapidamente. As escolas fecharam, os serviços da função pública foram reduzidos, e chegaram a ser tomadas medidas históricas, com o fecho dos casinos por duas semanas, em fevereiro. Os tons vibrantes dos néons dos casinos apagaram-se, e com eles o sector à volta do qual roda a economia de Macau. Cinemas, jardins, bares, tudo isso seguiu o mesmo destino. Nunca tinha visto as ruas tão despidas de pessoas senão em fotografias de décadas atrás, e sentia que em parte tinha entrado numa viagem ao passado.

Mas com as medidas de controlo para evitar a propagação do novo tipo de coronavírus, a situação acalmou e não excedeu nessa primeira fase os dez casos. Estavam as coisas já mais calmas, com pessoas a receber alta por estarem curadas, quando fui a Portugal de férias, porque ia mudar de trabalho e não sabia quando voltava a ter a oportunidade, e regressei para o meu novo desafio quando os primeiros casos começaram a aparecer aí. Tive nas duas viagens uma sorte imensa no “timing”, embora a seriedade das circunstâncias me tenham levado a viajar de máscara e a lavar regularmente as mãos, para me proteger tanto a mim como aos outros, já que aeroportos e aviões estão longe de ser os sítios mais seguros numa crise de saúde destas.

Macau chegou a ser apontado como um excelente exemplo no combate ao Covid-19, tendo conseguido travar a propagação do vírus e encerrando rapidamente fronteiras, entre outras medidas restritivas. Agora, Salomé refere que o combate ao vírus é “uma montanha russa” com novos casos importados a surgir. Macau chegou a estar 40 dias consecutivos sem registo de novos casos confirmados de infeção por Covid-19. Foto: Salomé Fernandes.

Macau chegou a estar cerca de 40 dias sem registo de casos novos. A tensão foi-se dissipando no dia a dia, embora muitas medidas se mantivessem, como o fecho das escolas, que permanece. Enquanto jornalista, nunca parei de trabalhar, a minha rotina não se alterou senão nos cuidados de lavar as mãos com mais frequência, e evitar concentrações de pessoas e usar máscara (que é obrigatória para andar em autocarros, táxis e entrar nalguns edifícios – algo que só foi possível implementar porque o Governo assegura que, a cada dez dias, cada pessoa que vive cá tem direito a comprar 10 máscaras, pelo equivalente a cerca de 1 euro).

Mas o combate a este vírus parece uma montanha russa, nem sempre se sabe o que vem a seguir. E eis que voltaram a surgir mais casos. Felizmente, até ao momento são todos importados e mostraram que as medidas de controlo na fronteira estão a resultar, com casos a serem detectados nos postos fronteiriços através da medição de temperatura, ou em quem fica em quarentena. Por isso apesar de ainda ser preciso perceber como as coisas vão evoluir, sinto-me tranquila.

Mais do que mudanças de rotina ou insegurança, o impacto que mais sinto deste contexto é um certo sentimento de clausura. Agora, se quiser ir para Hong Kong, por exemplo, preciso de fazer uma quarentena de 14 dias à chegada. E apesar de saber que com o contexto actual não me arriscaria a viajar, as restrições fronteiriças têm esse impacto mental – agravado pela distância de cerca de dez mil quilómetros da família.

Aqui a situação nunca chegou a ser remotamente parecida ao que vemos noutros sítios do mundo – um misto de sorte pelo tamanho e funcionamento de Macau, com boa gestão e liderança. Nunca faltou comida, ainda que as prateleiras de noodles tenham estado vazias por uns tempos. Nem papel higiénico. Mas bastou para ser óbvia a fragilidade do ser humano.

Em alturas destas, há um sentimento colectivo de perda, porque a responsabilidade também é geral. É a ideia de que um estranho com quem nos cruzamos pode mudar a nossa vida, e nós a dele. A forma como isso acontece depende de como escolhemos agir e das medidas que seguimos.

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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