Sara Salgueira
De Santa Margarida, Constância
Professora Assistente de Língua Portuguesa no Lycée Camille See, em Colmar, no Lycée Montaigne, em Mulhouse, e no Collège Kennedy, em Mulhouse.
Há 6 meses mudei-me para Colmar, na região da Alsácia, para ser Assistente de Língua Portuguesa. Há 2 semanas mudei-me para os arredores de Paris, para junto de parte da minha família e para “fugir” à solidão que me trouxe o isolamento.
Estava a lecionar numa das zonas mais afetadas pelo novo coronavírus, o Covid-19. A cidade de Mulhouse, em apenas 2 dias, ficou contaminada. Os casos começaram a surgir de uma forma tão rápida, que 5 dias depois o hospital começou a não ter mãos a medir. E hoje está com grandes dificuldades. Os doentes estão a ser transportados um pouco por toda a França, para a Alemanha, a Suíça e o Luxemburgo. Ainda assim, é bom saber que, afinal, ainda somos solidários.
Mas foi no meio desse caos que as escolas fecharam (os alunos trabalham em casa) uma semana mais cedo que no resto do país. Assim que recebi o e-mail, corri para comprar o bilhete. Sabia que, a partir daquele momento, as coisas iam ficar mais complicadas.

Já há uns dias que andava a pensar no que fazer se o vírus chegasse. Sabia que não iria aguentar ficar sozinha e isolada nos meus 10 metros quadrados, impossível. E “fugir” para juntos dos meus seria a melhor opção.
Voltar para Portugal nunca esteve em cima da mesa. Não iria arriscar levar o vírus comigo. Custa. Mas valham-nos as vídeo-chamadas.
Uma semana depois de Macron declarar que a França estava em guerra, as ruas estão cada vez mais vazias, as casas cheias e as filas de pão de perder a vista.
Há 6 meses julgava-me invencível, que o mundo era meu e que justificações só aos meus pais. Estava bem enganada… Estávamos todos. E logo nós, que sempre fomos senhores dos nossos narizes. Acabou.
Desde o dia 16 de março sair de casa sem autorização deixou de ser possível, temos que colocar a data, o nome, a morada e o que vamos fazer. Sempre com as devidas precauções. Quem diria. Sem papel há multa.

Contudo, há sempre os rebeldes que brincam no parque ou os que não gostam de dar justificações. Para esses, há multas pouco simpáticas e em casos graves podem mesmo ir passar uns meses à prisão. As pessoas não perceberam ou não querem perceber, que a situação é grave, que somos todos frágeis e que não há heróis.
A situação cresceu a olhos vistos. Ninguém estava preparado. E exemplo disso são os números e imagens que chegam de Itália, algo que me deixa muito preocupada. É assustador. Algo não está bem. Em França, os números são menores, contudo, não param de aumentar. E se os rebeldes continuarem a sair não haverá forma de baixarem.
Mas no meio de toda esta incerteza, pânico e receio há momentos de união que me deixam com fé na humanidade.
O sair à janela todas as noites às 20h00, arrepia-me. É incrível ver toda a gente a fazer barulho, a bater palmas, e aqui há quem lance petardos, os engenhos proibidos em muitos recintos desportivos – aqui são sinal de que estamos todos juntos, unidos e com os super-heróis que estão nos hospitais, a dar tudo pelas nossas vidas. É de louvar.
Espero que quando isto tudo passar não se esqueçam deles.
A vida estes dias parou. Parou. Parou para não terminar. Estou no meu décimo nono dia de quarentena, custa, mas por agora é o melhor que tenho, que temos. Da janela do meu quarto vejo o Sol e oiço a natureza. Em plena avenida principal, numa cidade a 10 minutos de Paris, voltou a ser possível. E há que aproveitar.

E apesar dos dias demorarem a passar há sempre coisas com que nos entretermos. Quem não gosta do famoso Netflix and Chill? Gostamos todos. Podemos ainda ler, escrever, pintar, pensar na vida, limpar a casa, jogar jogos de tabuleiro, e claro, passear pelas redes sociais. E sermos ainda mais felizes.
Porque acredito que nada acontece por acaso. E esta pausa da vida servirá para redefinirmos bem as nossas prioridades.
Acredito que depois deste pesadelo seremos todos mais humanos, menos egoístas e mais unidos. Porque já vimos que sozinhos não vamos a lado nenhum.
Voltar a casa ficará para daqui a uns meses. A incerteza mantém-se. Por enquanto, continuarei a fazer de França a minha casa.
