Caro leitor, mais uma vez aqui te encontro, onde as palavras que escrevo invadem o teu pensamento, estabelecendo entre nós uma ligação. A ti que apenas consomes aquilo que eu escrevo e passas à frente convido-te a ler até ao fim e a refletir bem naquilo que estás prestes a apreender.
Estabeleço esta proximidade contigo pois aquilo que trago hoje é um assunto difícil para mim e para ti. Sei que estamos em abril e poderia falar da liberdade mas não, vou falar do fim da vida, da morte. Não costumo falar abertamente sobre a morte pois sempre que o tema vem à tona muitas pessoas fogem dele e evitam ao máximo aquela que é a única certeza que temos na vida.
Fomos este domingo, dia 8 de abril chocados com a morte de um jovem, da minha idade com um futuro pela frente, depois de vir daquela que terá sido certamente uma das melhores experiências da sua vida. É ingrato ver uma pessoa tão nova partir assim. Esse jovem que perdeu a vida tinha amigos, família, um mundo para conhecer e um caminho a seguir que acabou ali, naquela estrada dentro daquele autocarro. Nestes momentos julgamos tudo e todos. Por mais mortes que enfrentemos nunca estamos prontos para dizer adeus.
Nesta relação que crio contigo partilho a minha história com o fim da vida. Aos sete anos vim a conhecer o que era a morte, no fim de agosto, na manhã de dia 31 desci à cozinha cá de casa e vi a minha mãe a chorar, não gostava nada de a ver assim, perguntei o que se tinha passado e ela explicou-me o então que o avô não estava mais cá para brincar comigo, que estava lá em cima a olhar para mim, fiquei muito triste pois não sabia ainda como era não o ter lá. No dia seguinte morreu a minha avó e aí tive coragem para lhe ir dizer adeus. Contactei com o primeiro corpo morto, ainda me lembro de beijar a testa gelada daquela mulher que olhava sempre por mim, estava ali agora a “dormir para sempre”. Aos sete anos à porta da capela chorei porque nunca mais iria ter a minha avó comigo.
Nesse ano foi diagnosticado um cancro à minha mãe. Aquela mulher tinha uma força incrível, lutou até mais não puder. Desde os sete até aos nove anos fui assistindo à lenta e ingrata morte da mulher que me trouxe aqui. Ia falecendo sempre com um sorriso na cara. No meio do sofrimento e da agonia, no meio dos cabelos que perdia e da comida que não comia havia sempre, no final um sorriso e palavras de paz para o pequenote que não percebia nada do que se passava e por muito que dissessem o contrário, acreditava que a mãe ia ficar melhor. Era o único… No dia que a minha mãe desapareceu chorei, chorei porque por fim aquela luta, que era também minha, estava perdida. Olhando para trás penso que nenhum puto de nove anos deve passar por isso, ver a pessoa que mais o ama, a pessoa que tem tanto a ensinar, que tem tudo para lhe dar, partir. Nenhum puto merece ver a sua mãe dentro de um caixão rodeada de flores e de choros e guardar essa imagem na memória, nenhum puto deve crescer sem aquela pessoa que julgava eterna. Por muito que se possa pensar nunca se está pronto para dizer adeus muito menos a uma mãe. Aquela que me ensinou o que era a morte estava agora lá em cima a olhar por mim. Mas não é lá que ela deveria estar, era aqui comigo, deveria estar a ralhar comigo porque não estudo, deveria estar aqui para me dar aqueles beijos e fazer aquela comida especial, deveria estar aqui para me ver crescer.
