Dinis Nunes e Martinho Nunes (filho e pai), Sardoal, janeiro de 2023. Fotografia: Paulo Jorge de Sousa

É sábado à tarde e vagueio pelas ruas do Sardoal. Depois de percorrer as ruas da parte mais baixa (ruas velhas), subo para a Praça da República. Ouço música por ali. Há no ar uma melodia diferente. Isto não é música gravada, é música tocada ao vivo e aqui perto.

Sigo-a como que a imitar os desenhos animados antigos em que os gatos correm de focinho para cima e sorriso estampado no rosto, atrás do fio do cheio do bolo que a avózinha punha na janela para arrefecer.

Estou na Rua Gil Vicente. O som sai daquela janela lá no alto. Continua a ouvir-se a viola baixo bem dedilhada e uma bateria que denota já alguma segurança. Ligo à Guida e pergunto se o Diogo ainda toca bateria, ela responde que não, ali naquela rua só se for o Martinho.

Claro, o Martinho mora ali mesmo. Ligo-lhe uma, outra e outra vez. Não me atende, pudera, está embrenhado na música. Aguardo junto à porta e nas pausas toco a campainha. Uma, duas, três vezes. Finalmente a cadela Yuka Daisy, da casa, dá sinal e o Martinho pergunta quem é, pelo intercomunicador.

Confirmo. São eles, o Martinho Nunes no baixo e o seu filho Dinis na bateria. Vim atrás da música, disse-lhe, e gostava de fazer uma ou duas fotografias. Subo até ao segundo andar e encontro o quarto da música. Ensaiam com base num portátil onde passam as músicas que querem trabalhar.

Martinho comprou, há cerca de três meses, um baixo, um amplificador e uma bateria para o Dinis. Ele gosta de percussão e anda a ter aulas, quer na escola de música da Filarmónica União Sardoalense quer com um professor especializado na área. E toca bateria todos os dias.

“Pena não estar cá a Yasmine, (também filha de Martinho e Rosenir) mas anda noutras andanças musicais, anda a especializar-se em clarinete e não está no Sardoal. Um dia fazemos um trio” diz Martinho com um grande sorriso no rosto.

O Martinho tem 46 anos e o Dinis 12. Martinho pertence à Filarmónica União Sardoalense desde os seus 10 anos de idade (1986) e hoje toca Tuba. Também fez parte da OLA – Orquestra Ligeira de Abrantes, e de vários grupos de música rock do Sardoal, sempre a tocar viola baixo.

Como forma de despedida tocaram “Seven Nation Army” dos White Stripes, versão baixo e bateria ao vivo. Juro que ainda bati o pé.

Ah, e pedem para agradecer publicamente a paciência e a disponibilidade dos vizinhos de baixo, a Andreia Valente e o Marco Serras, com os quais estabelecem uma espécie de horário para poderem ensaiar mais à vontade.

Paulo Jorge de Sousa

Nasceu no Sardoal em 1964, e é licenciado em Fotografia. Fez o Curso de Fotojornalismo com Luíz Carvalho do jornal “Expresso” (Observatório de Imprensa). É formador de fotografia com Certificado de Aptidão Profissional (registado no IEFP). Faz fotografia de cena desde 1987, através do GETAS - Centro Cultural, do qual também foi dirigente e fotografou praticamente todos os espetáculos. Trabalha na Câmara Municipal de Sardoal desde 1986 e é, atualmente, Técnico Superior, editor fotográfico e fotógrafo do boletim de informação e cultura da autarquia “O Sardoal” e de toda a parte fotográfica do Município. É o fotógrafo oficial do Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal. Em 2009, foi distinguido pela rádio Antena Livre de Abrantes com o galardão “Cultura”, pelo seu percurso fotográfico. Conta com mais de meia centena de distinções nacionais e internacionais. Já participou em dezenas de exposições individuais e coletivas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *