Estávamos em vésperas do Novo Ano. Preparei os plásticos e os vidros e fui ao ecoponto mais próximo. Lá chegado, entrei numa espiral de interrogações sobre um objeto que estava entre os contentores. Será que, com o covid-19 e a necessidade de arejar os espaços, alguém se lembrou de ir ali instalar uma pequena casa de banho, vulgo wc ou, em linguagem moderna, um eco-sanitário?
Não, talvez não, pensei eu. Se assim fosse teriam deixado um rolito de papel higiénico e como também não tinha qualquer letreiro a dizer “traga o seu próprio papel” acabei por descartar essa possibilidade.
Então o que poderá significar aquele objeto ali? Ah, já sei, foi alguém que recebeu como prenda de natal um livro sobre Arte e estava lá uma referência a Duchamp. Alguém que ficou influenciado com a ideia de poder retirar os objetos do seu uso comum e dar-lhe outro sentido quando fora do seu contexto, nomeadamente em espaço público.
E fiquei com esta última possibilidade como sendo a certa. Aquele objeto, ali, só poderia ter sido colocado por um verdadeiro “artista”.
PS – Ontem, dia 9 de janeiro, o objeto ainda se encontrava em exposição, embora já vandalizado por alguém que lhe levou a tampa, em jeito de recordação, claro. Já não há respeito pela arte em espaço público…
Fotografia: Sardoal, 29 de dezembro de 2020, Sardoal.
