Início de uma noite normal numa normal estação de transportes públicos da região. O comboio chegaria pelas dezoito e picos e traria talvez meia dúzia de pessoas para aquela estação. Entrei e olhei para o painel informativo. Não trazia atrasos de registo.
Naquele deserto aparente, um casal de idade jovem brincava com a sua criança, confortavelmente sentada no seu carrinho. A noite ia chegando e trazia o escuro cerrado de um lado da linha, e o escuro urbano do outro lado, onde três ou quatro luzes se iam revelando timidamente na paisagem.
Negro de um lado, escuro do outro.
Ali, apenas o brilho de umas poucas lâmpadas que iam cumprindo a sua função, sinalizando que ali era um local que o comboio iria parar.
Contei todos os candeeiros de iluminação pública naquela estação. Eram muitos. Bastantes para iluminar a minha memória de ali passar em tempos e sentir vida, ver a bilheteira aberta, o chefe da estação, o guarda com a bandeirinha na mão e o apito na ponta dos lábios, os taxistas cá fora à espera a olharem de lado a quem lá ia buscar um familiar. Ah, e os sanitários públicos abertos.
Nessa altura havia luz, havia magia, havia gente. Os candeeiros, esses ainda lá estão. Apagados.
(Estação de Alferrarede, novembro de 2018)
