O meu pensamento ao olhar para o Senhor Elísio, na foto, foi uma música de Rui Veloso.
A Gente não Lê, do álbum “Fora de Moda”, ano de 1982.
Na altura, Portugal tentava levantar-se de um obscurantismo cultural geral. A necessidade de alfabetização era evidente, mas só a partir de 1985, depois da assinatura da entrada de Portugal na CEE, é que começaram a aparecer alguns projetos co-financiados com ações de formação e programas especiais que visavam uma cultura mais assente na promoção da leitura e da nossa cultura.
No entanto, 36 anos depois desta música continuamos um bocado na mesma, com a diferença de que agora que sabemos ler, temos outras etapas para usar esse saber, ou seja, com a grande proliferação do negócio das notícias falsas e das redes sociais, temos de voltar a aprender a ler as entrelinhas e a pesquisar as fontes, já que por vezes nem a comunicação social instituída o consegue fazer bem.
Bom fim de semana e boas leituras.
(No foto, Elísio Lopes que participava num workshop de Música Tradicional com o grupo Cantares de Outrora, iniciativa integrada no Festival de Musica Tradicional Portuguesa promovido pelo INATEL, no Centro Cultural Gil Vicente.
Sardoal, novembro de 2018)
A Gente Não Lê
Carlos Tê / Rui Veloso
Aí senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão
Rogar a deus que nos guarde
Confiar-lhe o destino na mão
Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialecto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais
E do resto entender mal
Soletrar assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz
Aí senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezítia
De boca em boca passar o saber
Com os provérbios que ficam na gíria
De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira
Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem
