Hoje já não é o Dia Internacional da Mulher portanto acho que posso desabafar contigo o que penso sobre estas coisas… Não é que não saibas. Falamos muito, interiormente, sobre estas coisas. Sabes bem o que penso, mas às vezes gosto de ‘falar alto’ e tu ajudas-me a fazê-lo!

Sei bem qual é o meu papel nestas conversas, faz parte desta nossa relação de intimidade profunda, que serve de contraponto ao que te parece óbvio, mas que tu mesma gostas de ver contraditado.

Nos dias que correm, esta capacidade de olharmos para o que dizemos e para o que fazemos, colocando-nos no lugar do outro, parece ser cada vez mais importante… Sobretudo, quando sabemos que o que pensamos nem sempre é fácil de entender pelos outros. E torna-se ainda mais difícil quando, olhando para os argumentos contrários, até os compreendemos.

Claro! Mas isso não te deve levar a deixar de pensar…

Nunca. Jamais deixarei de fazer. E há outra que jamais deixarei de fazer: estar disponível para mudar de ideias, de opiniões. Se me convencerem do contrário, faço-o. Também eu já alinhei em ideias formatadas por outros, apresentadas como verdades absolutas, que, com um pouco de reflexão, se revelam episódios de eficaz manipulação de mentes preguiçosas.

Então vamos lá! Queres falar sobre o Dia Internacional da Mulher, certo?

É verdade… Como sabes, tento escapar a tudo o que é celebração ou comemoração imposta. Sei que as datas servem para assinalar aspetos da nossa vida que nos parecem importantes, mas desde que vi gente sem conta a celebrar o Natal desvirtuando o verdadeiro espírito desse momento que comecei a desenvolver uma irritação especial por datas. Com a entrada do espírito comercial em todas estas celebrações de calendário, mais irritada fiquei.

Desculpa lá, mas os comerciantes e o Marketing não obrigam ninguém a comprar o que quer que seja! Se as estratégias são eficazes e se as pessoas alinham, nada contra! E não venhas com a conversa de pressão social! Todos, como raras exceções, temos cabecinha para pensar.

Tens razão… Voltemos ao Dia da Mulher. Cresci sem qualquer tipo de discriminação de género, nunca o sofri nem socialmente nem profissionalmente. É mesmo verdade! Não consigo identificar um único momento da minha vida em que tenha sido prejudicada, diminuída ou injustiçada pelo facto de ser mulher. Talvez seja uma privilegiada.

Então é por isso que achas que o Dia da Mulher não serve para nada? Lá porque não o sentiste na pele não reconheces que as diferenças entre os géneros ainda são gigantescas?

Pois aí é que entra o essencial do meu pensamento sobre o assunto. Sei bem, talvez bem demais, que a discriminação existe, em todo o tipo de situações, profissionais, sociais, económicas, familiares… Obviamente, lutarei contra estas situações de todas as formas que puder enquanto puder. Mas não o farei no Dia da Mulher!

Então?…

Então não me parece que as coisas impostas ajudem a resolver o que quer que seja… Não esqueço que o dia 8 de março está associado à luta das mulheres por condições iguais de trabalho. Não me esqueço da estória marcante da primeira mulher que votou em Portugal.

Não me esqueço de todas as mulheres que desafiaram estereótipos e que contribuíram para se irem derrubando os preconceitos que diminuem a mulher só porque sim. Muitas mostraram o melhor da sua condição feminina social, cultural, intelectual, artística, desportiva e até mesmo sexual como exemplos a seguir. Como muitos homens também o fizeram!

Sabes que quem defende a existência do Dia Internacional da Mulher o vê como um pretexto precisamente para se lembrar esses episódios, para identificar o que aconteceu nas últimas décadas, para analisar o que se conseguiu, para identificar o que falta fazer e para lutar para o conseguir?

Sei muito bem! E alinho o mais possível nessa luta! Mas isso não deveria ser feito todos os dias do ano, em pequenas coisas da nossa vida, sobretudo no contacto com os mais novos?

É como tudo… À falta de uma estratégia generalizada que produza efeitos, é preferível ter estes momentos em que o assunto é falado do que não ter.

Mas já reparaste que cada vez há mais mulheres a desvalorizarem este dia e que há cada vez mais homens a apresentarem-se como feministas? Por alguma razão será.

Isso, por si só, é um sinal de avanço. Porque as mulheres que desvalorizam este dia não desvalorizam a sua condição de mulher.

Pelo contrário! Querem ser vistas com toda a naturalidade e isto não significa que queiram ser vistas como iguais aos homens. Como os homens que se assumem como feministas não querem ser iguais às mulheres. Trata-se, simplesmente, de reconhecer o que é evidente.

Por exemplo?

Se a mulher produz o mesmo que o homem, tem que receber o mesmo! Se a mulher tem o privilégio da maternidade, não pode ter prejuízos associados! Se a mulher é perfeitamente capaz de liderar, a discussão sobre quem deve estar em cargos de chefia nem deveria existir. Se a mulher vive a sua sexualidade sem estar condicionada por ideias machistas, está a fazer qualquer coisa de perfeitamente natural. Assim como se a mulher entender abdicar da sua carreira para se dedicar à família, também está a fazer uma opção perfeitamente natural. Passemos estas mensagens, sempre que possível, e a mudança de mentalidades continuará.

Afinal, o que queres é que todos os dias sejam dias para se falar destas coisas!

Claro. Mas isso não significa que eu tenha uma opinião feminista excessivamente formatada. Na verdade, até defendo duas coisas que são socialmente muito incorretas nestas coisas de género.

Eu até sei quais são, mas aventura-te…

Tenho muita dificuldade em aceitar os sistemas de quotas para colocar mulheres em determinados lugares. Percebo que, se assim não for, nunca mais estamos em situação de paridade em sítios específicos, nomeadamente de responsabilidades políticas e empresariais, mas faz-me muita comichão saber que determinadas pessoas estão em certos lugares só porque são mulheres, quando a pessoa seguinte da lista era um homem, eventualmente com mais mérito do que elas.

Tens que reconhecer que isso, dito por uma mulher que rejeita qualquer tipo de discriminação, é estranho. Se um dia a tua filha for preterida num emprego pelo facto de ser mulher talvez mudes de opinião. Mas diz lá qual é a outra coisa!

É ainda mais estranha, sobretudo vinda de mim, mas não o escondo de ninguém… Parece-me uma evidência que as mulheres, em geral, têm menos jeito para conduzir do que os homens.

Comentário machista!!

Seja, sempre tive um certo lado de gajo (risos). Será que me passo assumir como hominista?

Humor parvo!!

Como o do anúncio das mulheres que não sabem estacionar? Talvez… Mas eu até acho que não conduzo nada mal e, mesmo com sensores, amassei o carro a fazer marcha atrás!

 

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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