Outro dia uma mãe ficou muito admirada por eu lhe dizer que não se pode bater nas crianças. “Nem quando ela faz asneira? Não lhe posso dar uma palmada para a reprender?”, perguntou-me. Não me surpreendeu a admiração da senhora, até porque há hábitos culturais muito enraizados na nossa sociedade, e este é um deles.

Ainda sou do tempo em que a minha professora primária nos dava reguadas e “carolos” quando não fazíamos bem uma tarefa ou quando nos portávamos menos bem. Os tempos mudaram. Hoje em dia, nem a professora, nem os pais podem “educar” com palmadas ou carolos.

No meu círculo de amigos e familiar, este assunto vem muitas vezes a discussão. Porque todos nós levámos uns “açoites” e estamos cá. “Não vejo que tenha resultado para toda a gente”, costumo brincar… Mas no fundo é mesmo isso.

O que costumo pedir às pessoas (adultas) é que se coloquem no papel dos mais pequenos. Se eu estou a aprender a viver em sociedade, a relacionar-me com os outros, a cumprir regras e a saber os meus limites, baterem-me vai ajudar em quê? Se eu bater no meu filho ou na minha filha porque ele ou ela não estão a fazer o que quero ou o que eu lhes disse para fazer, que mensagem lhe estou a passar? Se alguém chegar ao pé de mim no trabalho, e por não concordar com o que eu penso ou faço, me bater o que vou sentir? É simples. Basta fazer este exercício.

É bem verdade que as crianças são desafiadoras, que testam limites até não poderem mais, que os pais e as mães andam cansados, stressados e quando chegam a casa tudo o que não querem é ter mais um desafio pela frente. “Não quero a sopa” e espalha tudo pelo chão, ou “não quero tomar banho” e foge pela casa meio despido(a), ou ainda faz uma cena no supermercado. Há ainda os desafios dos pré adolescentes/ adolescentes como faltar às aulas, esconder uma negativa num teste, dizer palavrões na sala de aula, fumar ou consumir álcool às escondidas. Façamos o exercício que costumo propor. Pare para pensar e acalmar-se. Respire fundo e depois pergunte a si mesmo(a): Bater vai resolver o quê?

Quando batemos numa criança o que lhe estamos a transmitir é que não a respeitamos acima de tudo. Por outro lado estamos a ensinar-lhe que quando o outro não faz o que queremos ou dizemos podemos bater-lhe. O que vamos ganhar com isso? Adultos que vão replicar estes comportamentos e que vão lidar com a frustração com agressividade.

Até ao seculo XVIII as crianças eram vistas como “adultos em miniatura” e eram exploradas a todos os níveis. Só há relativamente pouco tempo, nomeadamente a década de 80 as coisas começaram a mudar em Portugal. A criança já é vista como um sujeito de direito e tem de ser respeitada. Vejamos que só há muitos poucos anos se começou a chamar às próprias comissões de proteção dos direitos das crianças, comissão de proteção de crianças e jovens.

Até 1999 existiam as Comissões de Proteção de Menores. Eram tratadas as crianças como seres “menores”. Hoje os profissionais da área têm o cuidado de corrigir o termo e de respeitar as crianças e os jovens. Até há pouco tempo, também era legítimo o marido bater na mulher. Hoje isso já não é assim (ou não deveria ser). Pelo menos existe legislação que protege quem seja agredido(a). Com as crianças é igual. Desde 2007 numa revisão do Código Penal Português, bater nas crianças passou a ser crime.

“Então como fazemos?”, perguntam-me. As crianças precisam de regras, limites e amor. Muito amor, afeto e atenção. Se tiverem tudo isto, não precisarão de lhes bater para que elas saibam o que é certo ou não fazerem. Expliquem às vossas crianças o que é correto ser feito e quais as consequências se elas não cumprirem. Seja firme e cumpra o que combinaram. Mas seja claro. Combinem regras e consequências que sejam compreendidas pela criança. Tenha atenção à sua idade e desenvolvimento. Aplique o que acordaram e não ceda. Vai custar nas primeiras vezes. Podem chorar, espernear, mas vai resultar. As vezes seguintes já vai perceber que o que a mãe ou o pai dizem é para valer. Ah, e não vale o pai dizer uma coisa e a mãe permitir o contrário, ou vice-versa. Conversem os dois e sejam firmes em conjunto. Neste aspeto não seja condescendente. Seja firme. Isto serve também para os avós.

Outra coisa que temos muito o hábito de fazer é dizer às nossas crianças é o fantástico “porta-te bem”. Mas o que é isso? Temos de explicar o que queremos dizer com isto. Só assim elas compreenderão o comportamento que é esperado delas. Mas também não esqueça, quando a criança cumprir o que combinaram, não julgue “só fez o que era sua obrigação”. Recompense-a, elogie o seu comportamento. Mas seja claro(a). Explique o que fez bem.

É ainda muito importante que se retenha um aspeto fundamental: não existe uma igualdade entre pais e filhos, e por isso não os devemos tratar como iguais. É mau para ambas as partes. A hierarquia pais/mães-filhos(as) deve estar bem estabelecida, não pela questão da afirmação do poder para nós, mas antes por causa deles – esta definição de hierarquia dá-lhes segurança.

Aceita este desafio? Experimente fazer isto e depois partilhe comigo se resultou.

 

 

 

Vânia Grácio

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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