Conhecer profundamente a América implica uma roadtrip (viagem de estrada). A literatura e o cinema norte-americanos assim o garantem, embora a liberdade sem regras de Jack Kerouac não faça parte dos planos. Um país tão grande, tão diverso, não cabe na superficialidade do turismo massificado de fim de semana. Mas como são apenas cinco dias e o jet lag torna as noites ainda mais curtas vamos ter que nos ajustar. O jazz vai ter que ser substituído pela música popular portuguesa. O interior profundo dos EUA não irá muito além de Pittstown, Nova Jérsia, a cerca de 20 minutos do Estado de Pensilvânia. E teremos que aproveitar ao máximo os breves encontros, as pequenas conversas, e a Estátua da Liberdade de costas para tirar uma selfie.
Na primeira década do século XXI, os alunos de inglês do ensino secundário liam um texto em que se distinguiam dois conceitos da sociedade norte-americana: o melting pot (pote de mel) e a salad blow (taça de salada). A ideia geral da aula assentava na premissa de que, não obstante a diversidade inerente à cultura dos EUA, os elementos societários tendiam apenas a conviver, não se misturando profundamente uns com os outros.
Ao segundo dia de viagem seria abusivo afirmar que o texto estava correto, quase duas décadas passadas da sua leitura, até porque são muitos os exemplos que o grupo da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ourém vai encontrando de cruzamentos culturais e uma integração pacífica do american way of life. Mas ao fim do dia, visitando o Sport Clube Português de Newark, a aula de inglês com 17 anos passa vertiginosa pela memória, sobretudo quando esbarramos com Tino de Rans a conviver com os emigrantes portugueses e a promover o seu livro, num pequeno arraial com sabor a sardinha assada e a farturas.
Oito anos de estudo de inglês e uma costela de cinefilia norte-americana alimentada durante três décadas também ainda serviram para pouco.

A breve entrevista com Jack Costa, vice-presidente da Assembleia-geral do Sport Clube, dá-nos porém uma outra perspetiva, eminentemente necessária a quem tem o olhar condicionado pelo preconceito. Sem estes pequenos momentos de salad bowl, talvez não fosse possível qualquer imagem de um verdadeiro melting pot. As raízes culturais dos jovens perder-se-iam e a diversidade tão marcante da história norte-americana, inerente à sua própria fundação como país, tornariam eventualmente a realidade bem diferente.
Mas queríamos usar a metáfora de Kerouac, porque foi ela que nos acompanhou no decorrer da sexta-feira, 7 de junho, desde uma primeira paragem no quartel central dos Bombeiros de Elizabeth ao Sport Clube Português de Newark. Para a cerca de meia centena de bombeiros que realizam esta aventura, conhecer o quartel, os carros de combate e respetivos equipamentos foi o momento alto do dia, quem sabe da semana. Ficamos a saber que a corporação ouriense até se encontra bastante bem equipada, com muito do mesmo material que os colegas americanos, embora em número e financiamento muito mais reduzido.
Nesta região as casas são em madeira desde a estrutura. Um pequeno fósforo fora do sítio, um aquecedor deixado ligado no inverno, e as pequenas casas pitorescas ardem com bastante facilidade. A construção em alvenaria só é mais comum na Florida, explicam-nos. Daí que, mesmo não havendo floresta, a estrutura profissional de 260 bombeiros de Elizabeth, Estado de Nova Jérsia, dispersa por vários pequenos quartéis ao longo da cidade, tem trabalho o ano todo, 24 horas por dia, sendo várias as saídas de emergência que a comitiva de bombeiros assiste nas cerca de duas horas que passa no local.
O socorro geral prestado por estes bombeiros americanos também é algo diferente do português, destacando-se realidades difíceis de serem comparáveis.
A visita tem ainda um momento caro a estas bombeiros. No 2º andar do quartel central de Elizabeth, vista-se um pequeno Museu onde existe um memorial aos homens que combateram nos atentados do 11 de setembro de 2001. Nenhum dos bombeiros de Elizabeth morreu, mas a corporação foi a primeira a chegar ao local depois do desabamento das Torres Gémeas.
Destas restam dois pilares de ferro para memória neste quartel e várias fotografias do dia, onde o pó se mistura com o sangue e o pânico, assim como o rosto exausto dos heróis da fatídica data.

Havendo relativa proximidade a Nova Iorque, encontraremos mais monumentos ao 11 de setembro ao longo do dia. Em Jersey City, no “Liberty State Park”, a marginal sobre o rio Hudson, com a sua encantadora panorâmica à Woody Allen sobre Manhattan, possui duas colunatas que lembram os nomes dos que morreram naquele dia. As colunatas parecem confluir o olhar sobre o local onde as Torres Gémeas se avistariam, mas não chegamos a confirmar o conceito arquitetónico.
Chama-nos a paisagem, que é ela própria histórica, percorrendo o circuito de chegada dos navios carregados de imigrantes nos séculos XIX e XX – braços e mentes da revolução industrial americana conforme admitem os painéis informativos espalhados pela marginal – desde a passagem quase “inaugural” pela Estátua da Liberdade, passando depois pelo antigo centro de inspeção de imigração da ilha de Ellis, atualmente um Museu, até à característica estação de comboios de do parque de Jersey City (CRRNJ Terminal), desativada, que levava os imigrantes para os seus destinos, em busca do sonho americano do Novo Mundo. Cerca de 12 milhões de pessoas terão feito este percurso, referem os painéis.
Esta paragem ante um memorial à história da imigração norte-americana é quase simbólica nesta viagem pelas comunidade portuguesas, com especial enfoque nas ourienses, que vivem nos EUA. O país, não obstante os problemas que hoje enfrenta nesta temática, sabe recordar os que o ajudaram a crescer e contribuíram para a sua edificação.

Seguimos em frente na descoberta, percorrendo cerca de hora e meia de via rápida para chegar a Pittstown, até à quinta de um emigrante ouriense, natural de Casal dos Bernardos, onde a Fanfarra termina a tarde a celebrar os seus 40 anos de reativação.
A paisagem começa a mudar gradualmente assim que se entra pelo interior da América. O congestionamento das grandes cidades dá lugar aos espaços abertos, as pequenas casas são substituídas por propriedades de encher o olho, rodeadas de um verde estonteante e extremamente bem tratado. São sobretudo casas de veraneio, é-nos explicado, ou onde quem vive mais perto de Nova Iorque possui alguma agricultura e pecuária, como cavalos e ovelhas. Pelas planícies saltitam veados. É o início de uma outra América, um pouco diferente da de Newark, mais isolada, mais rústica, com características próprias, mas que não teremos oportunidade de aprofundar.
Todos os passos dos Bombeiros nesta jornada são no sentido de agradecer o apoio da comunidade luso-descendente e emigrante, em especial a ouriense, pelo apoio que foram dando nos últimos anos na aquisição de três viaturas para a corporação. A cada chegada há um pequeno momento simbólico, uma entrega de emblemas, algumas breves palavras de reconhecimento.
A conversa à mesa, instantes depois, flui. Fala-se das dificuldades atuais de conseguir a legalização – a maioria dos portugueses que por aqui se estabeleceram vieram ilegais, mas os processos de regularização eram então muito mais simples, mediante se conseguisse arranjar emprego, o que por norma sucedia com facilidade – fala-se de Donald Trump e das possibilidades de reeleição, fala-se de construção civil, área de trabalho de boa parte dos homens, e do mundo particular do serviço doméstico de limpeza, trabalho da maioria das mulheres. Ou pelo menos são estes os interesses da jornalista que por aqui ciranda a tentar conhecer melhor quem por aqui ficou e fez vida, sem grandes ideias de regressar se não em férias.

Portugal, que todos adoram, é um destino de férias. Fátima, um marco de passagem quase sempre firme no roteiro. Mas esta emigração, conforme é notado em conversa, é algo diferente de alguma emigração francesa. Houve também esforço, sacrifício, distância, perda. Mas a qualidade de vida dos que por aqui ficaram é diferente, mesmo que os empregos sejam, aparentemente, da mesma natureza. Há espaço para o chamado tempo livre, para a sociabilidade, para o relaxamento, o que se traduz numa qualidade de vida que confere um sentido de recompensa que não necessita de ser mostrado em Portugal para ser vivido.
A findar um dia extenuante, que começou pelas 06h30 e se estende até depois da meia-noite, é a vez de agradecer aos emigrantes e luso-descendentes de Newark, a partir do Sport Clube Português. Entretanto chegou o presidente da Assembleia Municipal de Ourém, João Moura, que tem a oportunidade de assinar o Livro de Honra da instituição.
Por aqui já passaram presidentes da República, Primeiros Ministros e outras figuras da sociedade portuguesa, como Amália Rodrigues, num edifício de 1940 com um interior extremamente elegante, com algumas características de Arte Nova, em plena Ferry Streat, no Ironbound, a zona tradicionalmente portuguesa de Newark.
Na rua vive-se um ambiente de arraial, comendo-se uma sardinha assada e saboreando-se uma fartura ao sabor de uma Super Bock. Cerca da meia-noite a rua ainda fervilha de movimento, com um calor húmido a convidar ao convívio noite dentro. A Ferry Streat adornou-se para receber o grande desfile de domingo, 9 de junho, onde a Fanfarra dos Bombeiros também vai tocar, com emissão da SIC. Tino de Rans junta-se à comitiva de Bombeiros numa visita rápida ao Museu do Sport Club e aceita tirar umas fotografias.


Preferimos a metáfora de Kerouac. A América conhece-se pela estrada fora. É onde a salada se transforma em mel, que tudo aglutina e em que todos os sabores dos séculos cabem, criando o cenário de sucesso que difunde e continuando a captar os sonhos de realização pessoal de um mundo globalizado.
O programa deste sábado inclui a atuação da fanfarra nas celebrações do Dia de Portugal em Yonkers, Estado de Nova Iorque, um convívio no Portuguese American Community Center, em Yonkers e uma visita noturna a Times Square, cidade de Nova Iorque.
