Depois do interregno decidido, e bem, pelo mediotejo.net durante o período eleitoral, nesta que é a minha primeira crónica depois das eleições, impõe-se um comentário aos resultados.

É indiscutível a enorme subida do PS, quer a nível nacional, mas também a nível regional. Foi, por isso, uma grande vitória.

Por outro lado, o grande perdedor foi, para muitos, o PSD. Mas aqui, tenho as minhas dúvidas. Não que o PSD não tenha perdido muito, que perdeu, mas porque PS e PSD não são os únicos partidos do espectro político e porque há outros factores também muito relevantes.

É um facto que PS e PSD são os dois partidos com maior representação nacional e local, e que, por isso, uma quebra significativa de um dos partidos, como aconteceu com o PSD nestas eleições, leve a afirmar que um ou outro são os grandes derrotados. No entanto, ao analisar os dados relativos ao número de câmaras e ao número de mandatos, pessoalmente tenho uma opinião bem diferente.

O PSD, onde concorreu sozinho, perdeu 7 câmaras e 38 mandatos, uma descida de 8% em número de presidências e de 7% em número de mandatos.

O que aconteceu então à CDU? Ah… a CDU perdeu mais presidências de câmara (9) e mais mandatos (39), num universo muito menor, o que corresponde a 27% das câmaras e quase 19% dos mandatos. Julgo que é então possível afirmar que o grande perdedor destas eleições autárquicas foi a CDU, com menos um quarto das suas presidências de câmara (quase todas para o PS).

É costume dizer-se (quando convém) que as eleições autárquicas são locais e que não se pode por isso delas fazer leituras nacionais (que, no final, todos acabamos por fazer). Mas há aqui um factor que não podemos ignorar. Se há força política para quem esta correlação faz mais sentido, essa força é a CDU. Como partido centralista que é, para o PCP os candidatos são apenas meros executores das políticas e orientações emanadas do comité central. Por isso, mais do que nunca se justifica uma leitura nacional dos resultados do PCP nestas eleições autárquicas. E o PCP (a CDU) não perdeu quaisquer 9 presidências de câmara! Não, a CDU perdeu câmaras que eram seus bastiões há mais de 30 ou até há 40 anos, como Constância, no nosso distrito, ou Almada. A CDU perdeu ainda câmaras no Alentejo, o bastião comunista, como Beja ou Castro Verde.

Não há ‘almoços grátis’ e também não é fácil conseguir o melhor de dois mundos (excepção feita ao PS, apesar de não sabermos quem, como e qual o preço a pagar no futuro). A geringonça tem servido para manter o PS a governar e isso tem sabido muito bem às esquerdas unidas, mas resta saber se o PCP não perdeu parte da sua identidade com a tão proclamada ‘paz social’ que o país atravessa e se essa paz não se vai converter em guerra já durante a discussão do Orçamento de Estado para 2018. Aguardemos.

O Bloco de Esquerda sai também derrotado, no distrito. Mantém a vereadora em Torres Novas, mas não consegue a tão desejada vitória, e tem uma estrondosa derrota em Salvaterra de Magos onde esperava que a popularidade de ‘Anita’ se mantivesse ao fim de 4 anos de interregno e onde o PSD e o CDS em coligação ganharam uma junta de freguesia com maioria (Muge).

Last but not the least, uma nota sobre o CDS, que também sai vencedor destas eleições. Uma grande vitória em Lisboa, com um resultado histórico alcançado por Assunção Cristas, mas também mais câmaras e mandatos a nível nacional (no distrito também), cumprindo assim os objectivos a que se propôs, contrariando muitos ‘velhos do restelo’ e afirmando o CDS como uma verdadeira alternativa às esquerdas unidas.

Mais uma vez, a abstenção foi muito elevada. A redução ligeira é enganadora porque, na prática, o distrito perdeu mais de 13.000 eleitores e votaram menos cerca de 2.000 pessoas, o que mostra o preocupante distanciamento que os cidadãos têm da política.

Esta é uma reflexão que devemos todos fazer no sentido de perceber o que deve mudar na forma de fazer política para que mais pessoas se interessem de facto pelos destinos dos seus territórios e participem mais activamente.

Patrícia Fonseca

Foi deputada à Assembleia da República pelo CDS-PP pelo círculo eleitoral de Santarém, cidade onde reside. Integra a Comissão de Agricultura e Mar, da qual é coordenadora, a Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação e é ainda suplente na Comissão de Saúde.
Engenheira Agrónoma de profissão, iniciou a sua carreira profissional na Agroges - Sociedade de Estudos e Projectos, foi Secretária Geral da Associação dos Agricultores do Ribatejo, docente convidada na Escola Superior Agrária de Santarém nas áreas de economia agrícola e adjunta do Gabinete de Assunção Cristas quando era Ministra da Agricultura e Mar.
A vida política surgiu naturalmente pelo seu percurso profissional nos domínios da política agrícola nacional e comunitária aliado ao valor que o CDS sempre deu à agricultura e à importância deste sector da economia na nossa região.

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