Mesa redonda "Saúde Mental, porquê sorrir e esconder se pode resolver?" Em Abrantes discutiu-se o tema. Créditos: CMA

Com a pergunta “Saúde Mental, porquê sorrir e esconder se pode resolver?”, o tema foi discutido em Abrantes. A mesa redonda contou com uma audiência jovem que ficou a conhecer o CRI do Médio Tejo; uma equipa multidisciplinar com autonomia para definir estratégias e objetivos com o propósito de levar mais e melhores cuidados de saúde às populações, potenciando a capacidade instalada preexistente nos hospitais e reduzindo, assim, as listas de espera.

A Unidade Local de Saúde (ULS) do Médio Tejo centraliza, desde 1 julho de 2024, no Hospital de Tomar uma equipa dedicada na área da saúde mental, projeto-piloto integrado nos Centros de Responsabilidade Integrados (CRI).

“Mesmo com os recursos que temos, tem sido positivo”, quer a nível organizacional, quer a nível de objetivos do CRI e de indicadores, garantiu ao mediotejo.net Tânia Felisberto, responsável pelo serviço de enfermagem do Serviço de Psiquiatria da Unidade de Saúde Local (ULS) do Médio Tejo.

E foi no âmbito do Dia Mundial da Saúde Mental que se debateu em Abrantes a temática, dando conta da “aposta na comunidade” em que assenta o CRI do Médio Tejo, apenas para adultos, e também da importância do “trabalho em rede”.

Mesa redonda “Saúde Mental, porquê sorrir e esconder se pode resolver?” Em Abrantes discutiu-se o tema. Créditos: CMA

O objetivo do CRI passa por melhorar a acessibilidade e a prestação dos cuidados quer no domínio da prevenção quer do tratamento da doença mental, ou seja dar resposta a todas as situações relativas à saúde mental nas vertentes de internamento, ambulatório, urgência e visitas domiciliárias de acordo com os cuidados preconizados pela ULS do Médio Tejo.

Este modelo de organização e financiamento dos serviços locais de saúde mental pretende promover a sua diferenciação, dotando-os de alguma autonomia e capacidades de atração e retenção dos profissionais de saúde.

Mas não fica por aqui. Segundo a responsável o objetivo passa igualmente por “sensibilizar a população e tirar um bocadinho este estigma do que é a doença mental para que seja mais acessível e que possa chegar esse direito a mais gente”.

Em carteira de serviço o CRI possui o internamento, a consulta externa em ambiente hospitalar, a equipa comunitária de saúde mental e a psiquiatria de ligação aos serviços hospitalares da ULS Médio Tejo, bem como a psicologia e a enfermagem. Têm, portanto, o hospital de dia, a urgência, as visitas domiciliárias, atividade forense e os programas de saúde mental formativas e de investigação.

Mesa redonda “Saúde Mental, porquê sorrir e esconder se pode resolver?” Em Abrantes discutiu-se o tema. Créditos: CMA

Para a enfermeira Tânia Felisberto, a maior dificuldade identificada no terreno está ligada à gestão dos recursos. “É uma equipa que está a começar e para conseguirmos alcançar mais resultados e para conseguirmos atingir mais população precisamos obviamente de ter mais recursos, para a nível interno conseguir gerir as necessidades da comunidade”.

ÁUDIO: ENFERMEIRA TÂNIA FELISBERTO

Os primeiros Centros de Responsabilidade Integrados dedicados à saúde mental arrancaram em 15 Unidades Locais de Saúde, numa primeira fase em projeto-piloto e durante 10 meses, segundo uma portaria publicada em Diário da República em 29 de fevereiro. Embora a medida nacional seja de generalização dos Centros de Responsabilidade Integrados, em todos os serviços locais de saúde.

As equipas dos CRI são multidisciplinares – com médicos, enfermeiros, administradores hospitalares, técnicos superiores de saúde, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, assistentes técnicos e técnicos auxiliares de saúde – têm autonomia para definir estratégias e objetivos com o propósito de levar mais e melhores cuidados de saúde às populações, potenciando a capacidade instalada preexistente nos hospitais e reduzindo, assim, as listas de espera.

E porque a aposta centra-se muito na comunidade, foi recordado que “está formalizada” uma equipa comunitária, em Ourém, para a população adulta que abrange mais de 44 mil habitantes, e conta com uma equipa com duas enfermeiras, dois médicos, uma psicóloga, uma terapeuta ocupacional e uma assistente social.

Ainda sem data para arrancar, existe a intenção de criar iguais equipas de Este – para abranger os concelhos de Abrantes, Mação, Sardoal – e Oeste – Torres Novas e Alcanena – bem como a equipa multidisciplinar do Centro – Tomar, Ferreira do Zêzere, Entroncamento, Vila Nova da Barquinha, Constância e Vila de Rei.

Mesa redonda “Saúde Mental, porquê sorrir e esconder se pode resolver?” Em Abrantes discutiu-se o tema. Créditos: mediotejo.net

O modelo implementado no Médio Tejo é o “terapeuta de referência”, disse a enfermeira Tânia Felisberto, explicando que “tem muitas vantagens” pelo “acompanhamento ao doente e à família na comunidade com uma participação ativa da pessoas no seu processo de saúde e doença. Tem aqui um acompanhamento muito mais intensivo, há um ênfase e um enfoque na relação terapêutica que estabelece com este terapeuta de referência ou gestor de caso que depois faz a ponte para a restante equipa multidisciplinar. Isto permite abrir um canal de trocas e responder mais assertivamente às necessidades do utente”.

Do cumprimento dos objetivos definidos por cada CRI resultarão incentivos salariais para os trabalhadores. Além da remuneração base, os incentivos podem ir até 40% da remuneração mais elevada da carreira correspondente. Segundo o Ministério da Saúde, a criação dos CRI para a saúde mental “permitirá uma melhoria da capacidade de resposta e gestão dos pedidos de consulta e acompanhamento aos hospitais já nos primeiros meses dos projetos-piloto, reforçando-se os sistemas locais de saúde mental para adultos”.

Segundo Tânia Felisberto este modelo centrado no doente/comunidade permite a desinstitucionalização, a promoção dos cuidados ao nível da saúde primária – melhor forma de integrar a pessoa na sociedade e resgatar a sua identidade social; um melhor acesso aos serviços de saúde; mais satisfação dos utentes e família; maior adesão ao tratamento; diminuição do estigma, e promoção de intervenção precoce e reabilitação psicossocial.

Esta “estreita articulação” com as estruturas da comunidade permite ainda a “integração” quer em programas de emprego, como o Emprego Protegido, como de formação profissional, atividades ocupacionais ou voluntariado.

Mesa redonda “Saúde Mental, porquê sorrir e esconder se pode resolver?” Em Abrantes discutiu-se o tema. Créditos: CMA

Apesar do CRI do Médio Tejo acompanhar apenas adultos, os jovens estiveram em destaque nesta mesa redonda. Isto porque na ULS do Médio Tejo trabalha unicamente um pedopsiquiatra, além de uma psicóloga clínica e uma assistente social, no acompanhamento da saúde mental de crianças e adolescentes. Esta escassez de recursos humanos preocupa a diretora do serviço de psiquiatria da ULS Médio Tejo, Luísa Delgado, que defende a necessidade de uma maior resposta e acompanhamento a esta faixa etária.

“Temos alguma dificuldade em responder a esta faixa etária. É fundamental esta aposta na pedopsiquiatria e temos mesmo de ter uma solução”, garantiu Luísa Delgado.

Deu conta de existir na ULS do Médio Tejo “um projeto para o desenvolvimento da pedopsiquiatria, com equipamentos, o desenvolvimento de uma infraestrutura, um espaço físico diferenciado está em curso. Mas o mais complicado é cativar recursos humanos para virem para cá. E o que se tem feito é tentar por todos os meios motivar pessoas, dar condições, para que as pessoas se sintam melhor a trabalhar aqui relativamente às outras ofertas que têm noutros sítios. Isso é difícil, temos de ser criativos”.

Quanto ao CRI explicou ser “uma estrutura que se responsabiliza por uma carteira de serviços, por prestação de cuidados, e por resultados que envolvem muito os ganhos em saúde”. Além disso sendo “uma mais valia acaba por cativar os colegas, médicos, a ficarem” no Médio Tejo, bem como outros profissionais de saúde.

“Um dos grandes problemas na área da saúde mental é que não precisamos só de médicos, só de psiquiatras ou de pedopsiquiatras. Não! Precisamos de técnicos, de enfermeiros, de terapeutas ocupacionais, dos psiconutricionistas, dos psicólogos. Sem recursos humanos não se faz”, afirma Luísa Delgado.

ÁUDIO: DIRETORA DO SERVIÇO DE PSIQUIATRIA DA ULS MÉDIO TEJO, LUÍSA DELGADO

A saúde mental foi uma das áreas escolhidas para o novo modelo de CRI, sendo também uma das prioridades de investimento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) na Saúde, que aloca 88 milhões de euros ao reforço da resposta do Serviço Nacional de Saúde nesta área.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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