O maior espaçamento de mesas no Restaurante O Bonito by Trincanela foi implementado poucas horas depois do anúncio do Conselho de Ministros mas, na sexta-feira à noite, este era o aspeto da sala. Foto: DR

O Conselho de Ministros extraordinário da passada quinta-feira aprovou novas regras para a área da restauração devido ao surto de Covid-19, reduzindo em um terço a lotação máxima de cada estabelecimento de restauração. Na região do Médio Tejo, restaurantes como os da cadeia Trincanela, que possui 13 espaços nas cidades de Torres Novas, Tomar, Abrantes, Castelo Branco e Entroncamento, mudaram logo na sexta-feira a disposição das salas e reforçaram as medidas de higienização, mas poucos foram os que puderam ver essas alterações. “Não há clientes”, queixam-se de forma generalizada os proprietários de restaurantes ouvidos pelo mediotejo.net.

Além da falta de clientes, há também falta de pessoal. Com as escolas encerradas, centenas de funcionários terão de ficar em casa com os filhos menores de 12 anos, pelo menos nas próximas duas semanas. Muitos restaurantes estão a optar pura e simplesmente por fechar as portas. O desânimo é geral, temendo-se uma crise prolongada e sem paralelo neste setor.

No Bonito, no Entroncamento, há já duas mesas para duas pessoas, em vez de uma, aumentando o espaço entre os clientes
Créditos: DR

“Tudo o que eram jantares de grupo marcados para os próximos dois meses já foram desmarcados”, confidencia um empresário da restauração, que possui um espaço que subsiste sobretudo com esses grandes jantares de fim de semana. “Nestes casos, compreende-se”, diz, “mas os casais também deixaram de vir, e não há motivos para isso”, lamenta.

As indicações das autoridades podem por vezes parecer contraditórias, pedindo para que as pessoas fiquem em casa o mais possível, mas a verdade é que em Portugal foi determinado apenas o encerramento de discotecas e a limitação do horário dos bares, não de restaurantes. Se as medidas de higiene e a distância de segurança entre pessoas forem respeitadas, os portugueses poderão continuar a fazer a sua vida normal (dentro da anormalidade de tudo o que estamos a viver neste momento).

Nos estabelecimentos da região há casos como o São Lourenço by Trincanela, em Abrantes, que se mantêm a funcionar com várias adaptações e reforços de medidas de higienização, e outros, como o Restaurante VAL, na mesma cidade, que anunciou o encerramento até ao final do mês. Este novo espaço de refeições saudáveis no centro histórico pretende assim contribuir para a contenção da propagação do vírus, apelando também ao recolhimento voluntário dos seus clientes.

Também o Luna Hotel anunciou esta sexta-feira que deixa de servir refeições ao público, por tempo indeterminado.

Ainda em Abrantes, mantém-se a funcionar o Restaurante Casa Chef Vitor, com todos os reforços de higienização, bem como os restaurantes Cascata, que anunciaram a abertura de uma nova sala para o funcionamento das refeições diárias, em Alferrarede, além da “disponibilização de álcool gel para desinfecção de mãos à entrada dos restaurantes e desinfecção permanente de mesas, cadeiras, wc’s e todos os objectos que possam ser eventuais focos de contaminação”.

A gerência dos restaurantes Cascata publicou ainda um apelo especial: “Se viajou para alguma das áreas afectadas, se esteve em contacto com possíveis pessoas afectadas nos últimos 15 dias ou têm sintomas clínicos, por favor, seja prudente e por motivos óbvios adie a sua visite aos nossos espaços. Agradecemos que tenham consciência que estamos a ultrapassar uma fase difícil e que como tal, são as atitudes de cada um de nós que permitem minimizar esta ameaça de saúde pública.”

À semelhança do que sucede no São Lourenço by Trincanela, em Abrantes, também o Bonito by Trincanela, no Entroncamento, continua a servir refeições com todos os reforços de higiene e medidas de segurança implementados, mas o grupo hoteleiro optou por deixar de servir refeições no Face, por exemplo, a partir da próxima terça-feira. Vai manter-se apenas o serviço de take away, por questões “quase de ordem social”, como desabafou o proprietário Luís Correia Pires ao nosso jornal, uma vez que muitos idosos do Entroncamento ali se habituaram a ir buscar as suas refeições.

“As medidas que tomámos foram para além das decididas pelo governo, com a responsabilidade de zelar pela saúde dos nossos colaboradores e clientes”, diz Luís Correia Pires, que teme, contudo, o impacto que  esta pandemia terá inevitavelmente no setor. “Já sentimos bastante a quebra”, explica, confirmando que locais habitualmente muito concorridos, como o Bonito do Entroncamento, estava nesta sexta-feira vazio de clientes.

O restaurante Zaboeira, de Vila de Rei, mantém-se aberto, com o devido espaçamento entre mesas e clientes, tal como o Restaurante Dom Vinho, no Sardoal, que anunciou “reforços constantes de desinfectantes álcool gel no espaço, bem como a limpeza e desinfecção de objectos de foco de contágio”. Pedindo a compreensão dos clientes, publicou uma nota no Facebook dizendo: “Estamos todos juntos. Todos por todos. Respeitem-se, vamos superar isto e no final fazer um brinde à Vida.”

Outros restaurantes estão a tentar adaptar-se, seguindo a máxima de Maomé: se os clientes não vão ao restaurante, o restaurante vai a casa dos clientes. É o caso do Abrigo da Alma, em Tomar, que alargou a parceria que já tinha com a empresa Recadex, entregando refeições ao domicílio de forma gratuita quando a encomenda for superior a 20€ (as de valor inferior têm um custo de 1.50€), bem como do restaurante vegetariano Kansha, em Fátima, que disponibiliza entregas diárias ou semanais (congeladas). “Face à situação, pensamos ser esta a melhor solução para poderem continuar a usufruir da nossa comida evitando contactos desnecessários e cumprindo as recomendações da DGS e das instituições que as têm emitido”, anunciaram.

Também o Restaurante O Barraqueiro, em Tramagal (Abrantes), mantém o seu espaço aberto com todas as medidas de segurança implementadas, reforçando o serviço de take away e disponibilizando um serviço de entrega ao domicílio de refeições. 

Em Tomar, o restaurante O Tabuleiro optou por fechar portas, “aguardando a estabilização da situação em que todos nos encontramos”. Encerraram também espaços como O Tabuinhas e O Alentejano, ambos em Fátima, e o restaurante O Malho, em Malhou (Alcanena), distinguido com um Bib Gourmand pelo Guia Michelin, decidiu encerrar “considerando os interesses superiores de saúde pública e tendo em conta o bem estar de todos”. A reabertura, dizem, “ficará dependente da reavaliação e acompanhamento permanente da evolução da pandemia”.

O apelo dramático do chef Ljubomir Stanisic: “Estamos em agonia!”

O problema está a afetar todos os restaurantes, nas vilas e nas cidades, sejam grandes ou pequenos. Na sexta-feira, o mediático chef Ljubomir Stanisic fez um apelo às “entidades competentes” através do Instagram:

“Uso esta arma da visibilidade, para pedir em meu nome, em nome da minha empresa, dos meus empregados, da minha família, mas também em nome de todos os chefes de cozinha e empresários de hotelaria que estão a sofrer como nunca antes sofreram. 
Estamos em agonia!”

“Mesmo tendo instaurado (ainda mais) rigorosas medidas de higiene e segurança no trabalho, sucedem-se as demarcações, os cancelamentos.
 Todas as horas são críticas e, a cada hora que passa, se torna mais difícil gerir o desespero – das equipas, o nosso, do sector. 
Estamos impotentes. Não há nada mais que possamos fazer sozinhos. Precisamos da vossa ajuda, precisamos de uma atitude firme e peremptória, rápida, urgente! Não exijo, antes peço com toda a humildade, e em nome de todos, uma solução.”

Também o chef Rui Paula, da ‘Casa de Chá da Boa Nova’, em Matosinhos, que detém duas estrelas Michelin, desabafou através das redes sociais: “Nunca pensei que esta pandemia viesse afetar os nossos negócios de uma maneira tão rápida e incisiva.” O chef fala de uma quebra de 60% na faturação e teme que os clientes não voltem até junho. Rui Paula pede uma união de “chefs, restauradores e hoteleiros” para fazer pressão junto do governo, reclamando “medidas drásticas e de rápida implementação”.

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