O confinamento e a incerteza quanto ao futuro agudizaram os problemas de saúde mental. Créditos: Unsplash

Os níveis elevados e prolongados de stress a que as pessoas foram sujeitas, quer pela pandemia quer pela crise económica associada, levou ao desenvolvimento de intenso sofrimento psicológico, disse à Lusa a psiquiatra Maria João Heitor.

“Além disso, há alterações neuropsiquiátricas em pessoas infetadas ou que tenham estado infetadas decorrentes do efeito direto do vírus SARS-CoV-2 no sistema nervoso central, ou através da ativação de uma resposta imunológica intensa”, afirmou a presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.

Segundo Maria João Heitor, se a pessoa tiver uma doença psiquiátrica prévia, o risco de agravamento dessa doença ou o risco de desenvolver outra patologia é superior com a pandemia.

Esta situação é confirmada pelo psiquiatra Ciro Oliveira, do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa que assistiu, em quase dois anos de pandemia, ao aumento dos níveis de ansiedade e de depressão, muito ligados ao isolamento, nos doentes.

“O próprio medo causa essa ansiedade e estas situações também podem levar alguns doentes a ter mais uso de substâncias como álcool ou outras drogas”, disse, sublinhando que há estudos que apontam para aumentos na ordem dos 20% no consumo de bebidas alcoólicas.

Por outro lado, apontou Ciro Oliveira, alguns estudos também têm revelado algum aumento do pensamento suicida sobretudo nos doentes com patologia mental prévia.

“Tivemos doentes com tentativas de suicídio porque perderam a atividade económica na sua empresa e estavam em situação de fragilidade económica por causa da pandemia”, contou o coordenador do internamento de agudos.

Observou-se também nos idosos com quadros demenciais já instalados uma deterioração mais rápida do que aconteceria numa situação normal devido ao isolamento, ao afastamento de família, à falta de estímulo cognitivo e físico, enquanto outras pessoas anteciparam o desenvolvimento desse quadro demencial.

Já nos jovens está a assistir-se a sentimentos de “insegurança, medo, tensão, não apenas em relação à pandemia, mas também pelas crises económicas que se sucedem”, disse, por seu turno, Maria João Heitor.

“Há impacto nos estilos de vida, no bem-estar, nos sonhos, e na aspiração para o futuro. Há um ‘gap’ [intervalo]crescente entre os ricos e os pobres, e uma classe média a empobrecer com o desemprego e o lay-off. Isto é demolidor para as famílias, nas quais alguns jovens estão inseridos, e para a coesão social”, declarou.

Os psiquiatras defenderam a necessidade de medidas para mitigar as consequências da pandemia, no âmbito da promoção e proteção da saúde mental.

Para Maria João Heitor, essas medidas passam por hábitos e estilos de vida saudáveis e por haver mais informação, sensibilização e literacia em saúde mental, para que as pessoas consigam identificar quando estão em sofrimento psicológico mais prolongado e intenso e procurem ajuda médica precocemente.

Destacou a importância de uma articulação entre o Serviço Nacional de Saúde e os setores privado e social, advertindo que “a saúde sozinha é insuficiente quer na prevenção quer na prestação de cuidados e apoios”.

Maria João Heitor disse ainda ser fundamental a distribuição adequada de recursos multidisciplinares nos serviços de saúde e na comunidade e o alargamento da rede nacional de cuidados continuados integrados de saúde mental para os doentes mais graves.

“A agilização de mecanismos de financiamento e o uso de tecnologias digitais complementares às habituais modalidades nos cuidados de saúde são igualmente medidas necessárias para podermos fazer frente ao aumento da prevalência de doenças psiquiátricas, nomeadamente perturbações depressivas e perturbações da ansiedade”, defendeu.

Para Ciro Oliveira, os governos devem investir em campanhas de prevenção e em políticas que sejam “favoráveis a que as pessoas vivam mais apaziguadas, pelo menos”.

Defendeu também ações preventivas de psicoeducação para os adolescentes em que, eventualmente, se possam identificar jovens que estão em risco elevado de desenvolver uma doença mental para que possam ser acompanhados mais precocemente.

Mais de 28 mil embalagens de antidepressivos vendidas em média por dia em 2021 em Portugal

O consumo de antidepressivos em Portugal tem vindo a aumentar desde 2019, segundo dados do Infarmed, que revelam que só em 2021 se venderam, em média, mais de 28 mil embalagens por dia.

Os dados avançados à agência Lusa pela Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed) dizem respeito apenas aos primeiros nove meses do ano passado e mostram que os portugueses compraram mais de 15,7 milhões de embalagens de ansiolíticos, sedativos, hipnóticos e antidepressivos, representando um encargo para o Serviço Nacional de Saúde de 46 milhões de euros.

Comparando a evolução de vendas desde o último ano antes da pandemia – 2019 -, verifica-se que o consumo de antidepressivos esteve sempre a crescer: Em 2019 venderam-se em média 25 mil (25.667) embalagens por dia, em 2020 o valor passou os 26 mil (26.858) e, em 2021, ultrapassou as 28 mil caixas diárias (28.539), segundo contas feitas pela Lusa.

Já no que toca ao consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos houve uma diminuição entre 2019 e 2020, mas no ano passado sofreu um ligeiro aumento.

Em média venderam-se quase 28.300 mil embalagens diárias de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos em 2019, tendo o consumo descido para 28.036 embalagens no ano seguinte. Já no ano passado, a venda aponta para um valor médio diário de 29.444 embalagens diárias.

Juntando todos os medicamentos, verifica-se um aumento do consumo ao longo dos três últimos anos.

Os dados avançados à agência Lusa são relativos a medicamentos prescritos e comparticipados pelo Serviço Nacional da Saúde, dispensados nas farmácias comunitárias em Portugal continental, e foram recolhidos a partir da informação disponibilizada pelo Centro de Controlo e Monitorização do SNS, estando a mesma sujeita a atualizações.

De acordo com os dados, entre janeiro e setembro de 2021, foram vendidas 8.008.993 embalagens de medicamentos da categoria dos ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, e 7.762.694 embalagens da categoria dos antidepressivos, num total de 15.771.687 embalagens, com um encargo para o SNS de 46.057.083 euros.

Em 2019, último ano pré-pandemia, foram vendidas 10.329.106 embalagens de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, representando uma despesa para o SNS de 19.639.140 euros, e 9.368.778 embalagens de antidepressivos (36.417.184 euros).

No ano em que teve início a pandemia de covid-19 em Portugal, 2020, os portugueses compraram 10.233.236 embalagens de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, representado um encargo para o SNS de 19.932.647 euros, e 9.803.223 embalagens de antidepressivos (38.486.797 euros).

No total, foram vendidas, em 2019, 19.697.884 embalagens deste tipo de medicamentos, num total de encargos para o Serviço Nacional de Saúde de 56.056.324 euros, e no ano seguinte 20.036.459 embalagens, uma despesa de 58.419.444 euros.

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