Natural do Pego, Luísa Rosária sobreviveu à covid-19, aos 87 anos. Créditos: DR

Luísa Rosária, de 87 anos, é uma das sobreviventes do surto que atingiu o Centro Social do Pego, e que infetou 87 pessoas e causou 11 mortes. Mal deu pela doença mas todos os dias sente falta das visitas, suspensas há já um ano.

Otimista, bem disposta, pegacha de gema, Luísa Rosária resistiu ao SARS-CoV-2 durante o surto que atingiu o lar do Centro Social do Pego, no concelho de Abrantes, entre 29 de outubro e 11 de dezembro de 2020. Com 65 utentes e 71 funcionários, a instituição registou 87 pessoas infetadas e 11 óbitos neste período.

Luísa testou positivo para a covid-19 e de imediato foi colocada em confinamento juntamente com outra idosa com quem partilha o quarto. Foi dada como recuperada, superando a doença praticamente sem sintomas, acusando apenas “enjoos” durante dois dias – o que pensou estar relacionado com um antibiótico que tomava para outra maleita. “Nem me doía a cabeça, nem as pernas, nada, passei bem”, diz.

Sobre o isolamento nos dias de quarentena, não lhe atribui grande importância. “Não me importei muito. Estava todo o dia no quarto com a minha colega, estivemos sempre bem. Quando fizemos o segundo teste já não tínhamos o vírus. Foi uma coisa que passou de leve.”

As suas rotinas praticamente não se alteraram e depressa voltou ao jardim para arrancar as ervas nos alegretes. “Gosto de estar sempre a mexer, a fazer qualquer coisa”, diz.

Reside no Centro Social há um ano, data em que ficou viúva. “Gosto de viver aqui, convivemos todos bem, sempre vamos conversando… faço malha e renda e estando ocupada com alguma coisa o tempo custa muito menos a passar.”

Durante o ano que passou garante que nunca teve medo do vírus, embora tenha ficado preocupada com a saúde de alguns moradores no lar, que “estiveram muito mal”.  Contudo, “ainda hoje não tenho medo da covid. Será o que for!”, afirma.

Os idosos do Pego não têm visitas há um ano, e essa é a parte que mais lhe tem custado. “Falamos pelo telefone, mas não é a mesma coisa que estar a ver as pessoas, é diferente. Tenho muitas saudades de ter visitas, de sentir os meus. Mas sendo a situação assim, temos de tolerar”, refere, conformada. Conta que no Natal passado sentiu particular falta “daqueles que já cá não estão”, como o marido, que morreu em junho, e o filho, que morreu em agosto de 2019.

Natural do Pego, onde cresceu e casou, Luísa Rosária trabalhou no campo e também como empregada doméstica. Teve dois filhos e tem duas netas. Uma permanece em Abrantes e outra vive em Inglaterra. O seu maior desejo é poder voltar a vê-las – não pelo telefone, mas ao vivo, à distância de um abraço.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.