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Então, mais um caso de alegada corrupção?… Mais gente constituída arguida. Mais suspeitas de acesso a informação que deveria estar protegida. Mais casos de ofertas supostamente feitas a troco de documentos em segredo de justiça.

É verdade! Quando a notícia foi lançada, fiquei novamente com a sensação de que a investigação criminal está cada vez mais a funcionar.

Não sei se é exatamente bom sinal ouvirmos falar cada vez mais de situações de esquemas, fraudes, desvios, ilegalidades, privilégios e corrupções que são investigados e levados à justiça. É bom porque finalmente sentimos que os autores destas práticas já não vivem um final feliz, mas pode ser mau porque nos mostra o estado a que chegámos.

Não há nada de mau nisso. Só pode haver algo de bom. Eu acredito que as investigações sempre tenham existido. O que o senso comum me diz é que, em determinado momento, acabariam por esbarrar em obstáculos intransponíveis, do género ‘é melhor ficarmos por aqui…’ A diferença é que agora a fraude e a corrupção têm muitas faces visíveis, talvez seja mais difícil escondê-las da opinião pública. Portanto, a investigação ganha força e chega a um ponto que não pode ser barrada. Isto só pode ser bom, não há nada de mau, a não ser para quem é apanhado.

Tens razão, mas o que eu queria dizer quando admitia que a divulgação destes caso pode ter um lado negativo é que nos mostra o que certas pessoas são capazes de fazer para atingirem os seus objetivos. Sobretudo, o que me parece incrivelmente assustador é a leveza com que muitas das pessoas envolvidas em esquemas ilegais fizeram o que fizeram, certamente convencidas de que nada aconteceria. Agora que as coisas começam a acontecer, o panorama deste país que se vai traçando, da economia à política, passando pelo futebol e sabe-se lá mais por onde, é verdadeiramente lamentável.

Tocaste num ponto que me parece crucial, que é a crença que as pessoas que se envolvem neste tipo de situações certamente tinham de que nunca seriam apanhados. Porque essa era a estória normal. Alguém pede favores a troco de alguma coisa e, porque tem amigos bem colocados, imagina que nunca se saberá. Mesmo assim, ainda se tinham alguns, chamemos-lhes assim, ‘cuidados’… quem recebe o ‘pagamento’ não é quem faz o favor, mas o sobrinho ou o melhor amigo. Era tudo supostamente tão simples, que resistir parecia obra de burro.

Como em tudo na vida, há sempre uma dose de risco em tudo o que fazemos. E a verdade é que o caso do futebol é relativamente recente. Os envolvidos até já sabiam que estavam a ser investigados. Ironia das ironias, queriam saber o que se passava com os seus processos e foi precisamente aí que foram apanhados. Parece uma coisa de anjinhos… Admitir a possibilidade de não serem descobertos, numa era em que as polícias têm meios e formação para detetar estas situações, parece uma brincadeira de meninos, que se escondem debaixo da mesa com o pé de fora.

Sim, tudo nesta estória é estranho. Um funcionário judicial enviar mails com documentos que não eram da sua secção para um responsável de um clube de futebol, pedindo-lhe ‘discrição’ parece demasiado ingénuo…

Sobretudo quando já se sabia que todos os holofotes estavam virados para os clubes de futebol e para os emails dos seus responsáveis. É difícil acreditar na ligeireza com que tudo parece ter sido feito. Até um miúdo consegue passar informação supostamente confidencial de forma mais invisível!

Mas o mais incrível desta estória toda é mesmo o tipo de contrapartidas que eram dadas às supostas toupeiras que passavam informação dos tribunais para o clube de futebol… Viagens para ir assistir aos jogos? Bilhetes para a bola? Camisolas e fatos de treino? Sinceramente, até dá vontade de rir!

Eu tenho uma explicação para isso: uma camisola assinada pelos jogadores é uma espécie de conta-poupança para os filhos. Daqui a uns anos vai valer muito dinheiro!!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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