Foto: DR

Era uma manhã normal numa tasca da cidade de Abrantes. Os clientes habituais iam chegando cumprindo rigorosamente o seu horário. Às onze e meia já todos se encontravam ao balcão com o “copito” de vinho meio cheio para uns e meio vazio para outros.

Quem os servia era o dono da Tasca, o Senhor Manuel, Manel para os amigos. Com ele estava o Sr. Joaquim e o Sr. António, que juntos a mais uns quatro enchiam o seu exíguo espaço no centro da cidade. Era um espaço sujo, velho e escuro, onde a luz entrava pelo mesmo lugar e onde as pessoas ali iam apenas para beber um copo de vinho e conversar com o Sr. Manel. O Sr. Manel era um homem desleixado, mas dado à localização do seu espaço estava sempre muito bem informado, o que o motivava na sua luta constante contra o desconhecimento e os boatos.

A sua pequena tasca estava cheia, contrastando com a cidade, talvez por esta ser demasiado grande para tão pouca gente. Mas mesmo com pouca gente parece uma urbe internacional onde o fosso entre uns e os outros é bem visível. Os dois clientes que estavam ao balcão conversavam com o Sr. Manel sobre a sua cidade:

António: Atão vocês já ouviram aquela história do mercado antigo?
Manel: Sim, querem mandar aquilo abaixo
Joaquim: Esta gente quer acabar com a nossa cidade toda
Manel: Nada disso, vejam bem, aquilo não tem condições nenhumas.
António: Em vez de terem feito aquele mercado novo podia ter arranjado o antigo.
Manel: Mas a cidade ficou mais moderna com o Mercado Novo e o mercado antigo já não tem arranjo possível
Joaquim: A minha neta vai lá às festas que os miúdos lá fazem e diz que qualquer dia aquilo vai abaixo.
António: Pois, se aquilo fosse arranjado ficava melhor, além do mais é a história da nossa cidade.
Manel: Os senhores vejam bem a funcionalidade, Abrantes precisa de um Pavilhão Multiusos, o mercado antigo tem servido para colmatar essa falta mas a verdade é que a nossa cidade não tem mais espaço para ter um espaço desses, talvez a ser construído um novo tenha de ser no Rossio que faz parte da cidade. No sítio do mercado a estrada pode ser alargada, tornar o local mais funcional.
Joaquim: Eu acho que faz parte da história da nossa cidade, não o deviam demolir.
Manel: Parte da história faz o Convento de São Domingos que está a ser arranjado
António: Para fazer um museu… Quem é que lá vai?
Joaquim: Os turistas, olha-os aí tantos, mais que nós!
António: Onde? Não vejo ninguém…
Joaquim: Isso mesmo, nenhuns.
Manuel: Vocês não os vêm mas olhem que existem, agora que vem o verão e tudo. Dizem que o Hotel Turismo está muitas vezes cheio de gente.
António: Isso é que foi uma grande empreitada, arranjar o que já havia.
Joaquim: Deviam era trazer de volta as flores, mataram a Cidade Florida!
Manel: Quem é que matou a Cidade Florida? Que mania de atribuir aos outros a culpa de tudo o que acontece de mal. Que eu saiba as flores que faziam de Abrantes a Cidade Florida estavam nas casas das pessoas, não era a Câmara que as plantava. Enfim, em Abrantes… tudo como d’antes!

Nasceu no ano de 2000 na cidade de Abrantes. Arreigado, com muito orgulho, em Rossio ao Sul do Tejo, mas com uma enorme vontade de conhecer o Mundo. Estuda Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade da Beira Interior e ainda não sabe bem o que quer fazer da vida. Inspira-se muito na célebre frase de Sócrates (o filósofo), “Só sei que nada sei”, como mote para aprender sempre mais.

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