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Ao longo de um dia de trabalhos, o congresso promoveu reflexões sobre temas como a transição digital nos territórios, a proteção contra ciberameaças, os riscos éticos da inteligência artificial e a construção de comunidades digitais seguras.

Susana Silva, da organização do congresso “Segurança & Integridade Digital”, sublinhou que “a integridade digital não se herda, constrói-se e começa hoje, com todos nós”. A responsável abriu o evento destacando a importância de promover uma cultura digital assente na educação, na regulação inteligente e na tecnologia com propósito.

“Vivemos numa era onde os dados são muito valiosos, onde a conectividade não conhece fronteiras e onde cada clique pode ter consequências reais no mundo físico”, alertou. Para Susana Silva, a digitalização trouxe progresso, mas também novos riscos, como ciberataques, violação de dados pessoais e manipulação de informação, ameaçando a confiança nas instituições.

Defendeu ainda que a segurança digital já não é apenas uma questão técnica. “É um tema político, económico, ético e social.” Nesse sentido, apelou à colaboração entre estados, empresas, universidades e cidadãos, afirmando que “mais do que debater tecnologia, este Congresso vai debater o futuro”.

ÁUDIO | Susana Silva, da organização do congresso “Segurança & Integridade Digital”

Destacando o simbolismo de o congresso ter lugar em Abrantes, afirmou ser “essencial que a discussão comece aqui”, numa região que representa muitos territórios esquecidos na transição digital.

“A descentralização também tem que ser digital. A segurança digital não é um luxo, é uma necessidade básica de qualquer comunidade que queira crescer com confiança.”

O presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, por sua vez, destacou a urgência de garantir uma transição digital “com segurança, com equidade, com integridade e com sentido humano”.

Para o autarca, “a transição digital já não é um desígnio longínquo, é uma realidade que está a transformar profundamente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos”.

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Valamatos sublinhou o papel das autarquias neste processo, defendendo que “não podemos deixar ninguém para trás” e que a tecnologia deve estar ao serviço da cidadania, da eficiência e da proximidade. Enfatizou ainda que nos territórios do interior, como Abrantes, “a transição digital não se pode resumir à modernização tecnológica”, exigindo uma visão estratégica sobre o futuro das comunidades.

ÁUDIO | Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes

Apontou exemplos locais dessa estratégia, como o Bairro Comercial Digital, os balcões SNS 24 em parceria com a Junta de Freguesia, o projeto “Abrantes Digital” que aproxima os serviços municipais às populações, a aposta em videovigilância inteligente articulada com as forças de segurança, e a digitalização de serviços públicos com foco na acessibilidade universal.

Para o autarca, o mais importante “não é a tecnologia, mas o propósito com que a usamos”, tendo alertado para os riscos crescentes de ataques informáticos, manipulação de dados e desinformação, considerando que “proteger os cidadãos no espaço digital é hoje tão urgente como garantir a segurança nas ruas”.

O primeiro painel da tarde foi dedicado ao “Futuro do Desenvolvimento do Território”. Pedro Costa, comentador da CNN Portugal, defendeu que os fundos comunitários, nomeadamente os destinados aos bairros digitais, representam uma “extraordinária oportunidade” para alavancar o crescimento económico, mas alertou que o foco deve estar em “gastar bem”, e não apenas em gastar muito.

“O objetivo dos governos e das autarquias deve ser gastar bem os fundos comunitários e não montar estruturas para gastar muito dinheiro”, afirmou, apontando críticas à atual orgânica governamental que, na sua opinião, parece seguir uma lógica inversa.

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Referindo-se aos bairros digitais, elogiou a abrangência territorial do projeto, que chegou a zonas de baixa densidade populacional. “A disseminação dessa resposta permite-nos aproveitar duas circunstâncias históricas: nunca estivemos tão bem preparados para explorar uma revolução industrial como agora, e nunca a infraestrutura digital esteve tão disseminada pelo território.”

Pedro Costa destacou ainda a nova realidade do mercado de trabalho, em que “qualquer pessoa com ligação à internet pode trabalhar para qualquer parte do mundo”, e frisou que esta transformação traz consigo desafios que o país ainda não está preparado para enfrentar, nomeadamente no impacto sobre o mercado da habitação.

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Para o comentador, a descentralização deve ser entendida como uma forma de melhorar os serviços públicos, e não apenas de poupar dinheiro.

“É na resposta em proximidade que conseguimos melhorar o apoio à economia e à qualidade dos serviços. Os autarcas conhecem o território, sabem como montar redes e coordenar esforços entre municípios.”

Pedro Costa concluiu reforçando que o modelo dos bairros digitais, ao ser aplicado localmente e com autonomia, “é uma linha certa” e deve continuar a ser um exemplo de como aplicar fundos com visão e impacto real.

Nobre Francisco, inspetor da Polícia Judiciária, traçou um retrato da cibersegurança em Portugal, sublinhando o seu impacto direto no desenvolvimento territorial. Durante a sua intervenção frisou que “toda a nossa sociedade em geral e as empresas em particular assentam em cima da informática”. O risco? “Se a estrutura informática falhar, pura e simplesmente ficamos paralisados”.

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Segundo o inspetor da PJ, sistemas informáticos atualizados e seguros são condição essencial para que as empresas sejam competitivas e o território se desenvolva.

“Quanto mais fortes, mais robustas, mais modernas forem as nossas infraestruturas, maior o contributo direto para o desenvolvimento do nosso território”. Uma empresa sem presença digital “fica-se pela parte regional”, disse, alertando para a exclusão que isso gera.

Mas esse progresso exige um investimento sério em segurança. Com base na sua experiência no DIC de Leiria, onde diariamente recebe queixas de cibercrime, aponta um erro comum. “Está a funcionar bem? Então não se mexe. Isto é um erro crasso”, tendo considerado que sistemas sem atualizações constantes se tornam vulneráveis e muitas PME ignoram esse risco até ser tarde demais.

Nobre Francisco revelou que o crime informático já ultrapassou, em 2017, os lucros do tráfico de droga. “Há traficantes que se estão a reciclar em criminosos informáticos. Porquê? Porque dá mais lucro, expõem-se menos”, disse, sublinhando que “é um crime quase perfeito.”

De acordo com o orador, o email continua a ser a principal vulnerabilidade das empresas. “É a forma mais insegura de comunicar pela net”. “Quando enviamos uma mensagem, usamos tecnologia de 1971. Em informática, 50 anos é a era jurássica.” Tendo por base a sua atividade diária, explicou que há registo frequente de burlas com faturas falsas e IBANs alterados, resultando em prejuízos de milhares de euros.

Mesmo existindo soluções seguras, como encriptação de ponta-a-ponta, “ninguém se quer dar esse trabalho”. E ainda que um dos lados do email esteja blindado, “o emissor e o recetor têm que ter o mesmo software de encriptação”.

Foto: CMA

“É uma guerra de máquinas. A segurança tem que funcionar todos os dias, e o criminoso só precisa de acertar uma vez.” Por isso, defende formação contínua para todos os utilizadores, “não só os inexperientes, mas também os mais experientes cometem erros”.

A concluir, reforçou a ideia de que o investimento na segurança digital deve ser tão ou mais prioritário do que o investimento físico. “Não podemos deixar a porta digital aberta. É por ali que qualquer indivíduo entra e pode destruir o nosso modelo de negócio.”

Rui Gomes da Silva, antigo ministro dos Assuntos Parlamentares, abordou os desafios da globalização, da tecnologia e da própria estrutura do poder democrático. “Todos os dias lido com isto”, começou por dizer, referindo-se à pressão constante da vida digital. “Mensagens, WhatsApp, respostas imediatas. Hoje ninguém foge ao seu destino. É aquilo que temos.”

Segundo o antigo dirigente social-democrata, a sociedade atual vive “sem tempo e sem espaço”. A ideia de distância e de pausa desapareceu. “Posso estar na China, na Rússia ou na faixa de Gaza. Se não ligar, perguntam logo o que se passou (…) Hoje há uma cobrança permanente.”

Um dos pontos centrais da sua intervenção foi a forma como a sociedade mede hoje a influência e o conhecimento. “Antigamente, os líderes de opinião eram pessoas preparadas, estudadas. Hoje, são quem tem mais gostos no Instagram, mais visualizações no TikTok ou no X.” Para Rui Gomes da Silva, isto é revelador de uma inversão de valores e de critérios de autoridade e conhecimento.

Perante um cenário de constante mutação, o ex-ministro questionou: “Que mundo estamos a preparar? O que será o mundo da política, das cidades, do desenvolvimento daqui a cinco anos?” E acrescenta: “Daqui a dez anos, a inteligência artificial que hoje conhecemos já estará ultrapassada.”

Este processo, defende, exigirá uma adaptação darwiniana: “Temos de resistir à mudança e, ao mesmo tempo, adaptar-nos a ela. Quem não o fizer, será ultrapassado.”

Foto: CMA

“O maior choque que tive na vida foi perceber o paradoxo do poder sem poder. Quando se é eleito, pensa-se que se tem poder. Mas ele não está lá.” Rui Gomes da Silva acrescenta que “votamos na mudança de políticas, mas só conseguimos mudar os políticos”.

A terminar, Rui Gomes da Silva – que abandonou o PSD recentemente após 48 anos de militância – questiona-se: “O que é que falhámos como geração?”. Apesar da desilusão, acredita “que é possível mudar o mundo com determinação. Não acredito na bondade humana – essa é a diferença entre esquerda e direita -, mas acredito na mudança.”

“Um dia, haverá uma geração capaz de mudar o mundo. Esse é o verdadeiro desafio”, concluiu.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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