Zé Paveia. Foto: mediotejo.net

Existe uma casa na vila de Constância em que a fachada representa pedaços de vida do homem que a habita. Zé Paveia não se chama assim, mas é por este nome que o conhecem e, além dos dados biográficos, e decidiu partilhar as reflexões geradas pelos “anos de solidão” em azulejos. Uma vez transposta a ombreira da porta de entrada revela-se um novo mundo de paredes cheias, desta vez de molduras, provando que o exterior da casa reflete o interior do homem e o exterior do homem é retratado no interior da casa.

Zé Paveia destaca-se pela longa barba branca que foi deixando crescer ao longo dos anos que tem registados nos azulejos da fachada da sua casa na zona alta de Constância e aos quais é impossível ficar indiferente quando se passa na Rua da Escola. Não foi, todavia, aquele bairro que conheceu primeiro. Nasceu na vila, em 1950, mais próximo da margem do rio Tejo, a zona dos “olivais”, em frente ao “primeiro posto da guarda”.

A família sustentada pelo pai, serralheiro mecânico no Polígono de Tancos, ali estava enquanto tirou a “quarta classe”, a formação em eletricidade e começou a trabalhar aos 11 numa serração com o salário de “sete escudos e mais dois tostões”, valor que subiu para “16 escudos por dia” quando o pai o tirou da serração e passou a ter como local de trabalho a “pista de aviões da Força Aérea” na altura em que esta estava a ser “remendada”.

Da pista passou para a construção da “porta de armas”, da “casa da guarda” e das duas primeiras casernas para sargentos “do campo de futebol” e chegou a “dar serventia” em Abrantes, mas não se adaptou. Quando fez os 14 anos, idade “legal” para se começar a trabalhar na altura, passou a usar a bicicleta oferecida pelo pai para assegurar o sustento como como servente “nos paraquedistas”, seguindo daí para a limpeza das caldeiras na CAIMA, onde o salário de “24 escudos” nem sempre compensava a dureza da função que fazia “cuspir pó em vez de saliva”.

Fotos: mediotejo.net

Já se tinha tornado pintor na empresa sediada na freguesia de Santa Margarida da Coutada quando ouviu falar “das obras na base militar” e o pai aproveitou os almoços com o eletricista do local para assegurar o regresso ao Polígono de Tancos. O salário sofreu um corte para “quinze escudos” e viria a descer para “dez” na passagem pelo Tramagal, já como eletricista, quando “meteram a luz no Crucifixo”. Altura em que a bicicleta percorreu muitos quilómetros entre os dois concelhos e, mais tarde, o acompanhava no desvio entre trabalho e casa nos dois anos em que estudou à noite.

A ambição levou-o a faltar ao trabalho e foi ao Entroncamento procurar melhores condições, que encontrou com os “15 escudos” que ganhava na construção “dos primeiros prédios da Zona Verde com terceiro andar”. A falência do construtor ditou a mudança um ano depois para perto da Praça de Touros de Vila Nova da Barquinha, em que juntou cinco escudos ao salário e despediu-se uma semana depois para regressar Tramagal, na altura em que a nova fundição Metalúrgica Duarte Ferreira (MDF) estava em obras.

O valor da CAIMA foi igualado, preparando-o para os três meses de desemprego que se seguiram ao final da obra. Novo emprego em Vila Nova da Barquinha como eletricista e a ganhar mais um escudo por dia. Os anos passaram, a jorna foi aumentando até atingir os “85 escudos”, assim como a lista de locais da região por onde foi passando, que inclui uma passagem por Espinho com 20 anos, com estudos incluídos. Seguiu então para Lisboa para descobrir que a antiga escola industrial Afonso Domingues, no Beato, tinha devolvido o pedido de transferência por “falta de vagas”.

Manteve-se pela zona da capital, enquanto a família apreciava os primeiros anos na nova casa de terceiro andar, até ao momento em que iniciou os três meses de recruta em Castelo Branco, seguida dos seis na especialidade de radiotelegrafista no Regimento de Transmissões do Porto e a escolha para ser colocado na Escola Prática de Engenharia de Tancos. Em plena época de Guerra Colonial ainda chegou a ter esperança de não ser mobilizado, mas recorda o dia em que a lavagem da roupa na casa de Constância foi interrompida pelo anúncio de que iria partir.

Fotos: mediotejo.net

Os primeiros anos dos vintes foram passados em Moçambique e regressou em 1974, depois do internamento num hospital motivado, diz, por perturbações do sono. Quando regressou, o país tinha mudado e a família também. O primeiro celebrava a chegada da democracia, a segunda estava de luto pela morte da sua mãe. Se a paisagem da confluência dos rios Tejo e Zêzere inspirou as primeiras fotografias, a savana africana motivou os primeiros textos, entretanto interrompidos e apenas retomados na casa onde fizemos a entrevista, para a qual se mudou pouco depois dos 40.

Trabalhou cinco anos em Lisboa e a nova falência da empresa empregadora trouxe-o de regresso à Vila Poema, em 1979, ano em que se fartou de ser solteiro e escreveu o anúncio emoldurado intitulado “idade ideal”, que publicou na revista “Crónica Feminina” aos 29 anos. Na altura, o stress pós-traumático e as saudades da mãe levaram-no para o internamento do Hospital Júlio de Matos (Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa – CHPL), mas não o impediu de tentar responder às dezenas de cartas das leitoras da publicação semanal lançada em 1956 por Aguiar e Dias.

Nem todas correspondiam aos critérios indicados para a desejada esposa que lhe daria um filho, entre eles a idade entre os 24 e os 28 anos, mas já tinha respondido a mais de 20 quando uma inundação provou que a casa não tinha condições para se estabelecer e lhe afogou parte da esperança. Aos 52 anos fez nova tentativa no “Jornal de Tomar”, em que se apresentava como um solteiro “que não fuma e de poucas bebidas”e a exigência de idades passou a abranger “entre os 35 e os 38”.

Fotos: mediotejo.net

Desta vez, as respostas foram desviadas porque as “candidatas” recorreram à lista telefónica e em vez de telefonarem para José António Dias Pereira, optaram pelo número do vizinho do “Bairro Chão da Feira”, cujo nome apenas se diferenciava no primeiro apelido. Três acabaram por lhe escrever, mas nenhuma correspondeu às expetativas. Outras cartas poderão ter-se perdido pelo caminho uma vez que as trocas por parte dos correios também eram constantes.

Dois motivos cruciais que o levaram a querer diferenciar a casa com o primeiro azulejo “Vivenda Narcisa Paveia”, em homenagem aos pais, da autoria da fadista local Tina Jofre. Pouco tempo depois, a fachada recebeu o painel de azulejos em tons de azul com um peixe. Nunca casou e o revestimento peculiar que a destaca foi surgindo com o toque “do Paulo”, restaurador de móveis antigos do concelho que se dedica à arte destas peças de cerâmica.

Quando passamos a ombreira da porta percebemos que existem dois mundos completamente diferentes. No exterior revela-se o poeta dos azulejos, no interior encontra-se o homem. Um “homem solitário”, como se descreve, cujo estado de espírito resultou nas mensagens escritas e nas imagens capturadas pela máquina fotográfica. É pouca a parede que se encontra despida e apesar de não ter noção do número total de molduras, aponta para “umas 250 no corredor”, intercaladas por zonas em branco com pequenos papéis manuscritos em que deixa indicações a si mesmo.

Através deles ficamos a saber que algumas fotografias serão mudadas, outras receberão novas molduras e um espaço específico passará a ter uma imagem relacionada com o Eusébio. Não muito longe do “Quarto das Santas”, que está a ser preparado para receber os calendários pornográficos que um barbeiro octogenário da Praia do Ribatejo lhe vendeu, cuja porta se encontra entre o terço pendurado e o quarto do morador com imagens de santos penduradas e alguns da “mais de uma centena” de quadros bordados por uma senhora de Abrantes com frases suas.

Fotos: mediotejo.net

Fotos e cartazes. Pormenores e mais pormenores emoldurados que perpetuam momentos seus, da família, da vila e da Barragem de Cahora Bassa no rio Zambeze, cuja construção na década de 70 foi registando, entre muitos outros. O exterior da casa reflete o interior do homem e o exterior do homem surge nas imagens que também já ocuparam a cozinha e o escritório.

Dentro ou fora, os mundos do poeta popular e do homem da fotografia têm Zé Paveia como ponto comum, revelando um misto de sagrado e profano, harmonia e desconforto, esperança e desalento… Tudo aquilo que faz parte da existência e cujas percentagens nos aproximam ou distinguem em termos de personalidade. Tudo o que nos torna humanos e este pretende partilhar com a transformação da moradia num museu para o qual já tem o painel de azulejos. As fotografias, essas, chegarão mais tarde, depois da inauguração.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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