A Casa-Memória de Camões em Constância promoveu mais uma conferência dedicada à temática camoniana com o objetivo de dinamizar a associação e projetar a Vila-Poema e a sua ligação ao poeta maior da literatura portuguesa.
No dia 24 de fevereiro, José Manuel Sobral, investigador principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, esteve no auditório da Casa-Memória para falar do tema “Camões e o Nacionalismo Português”.
Apesar de não haver qualquer documento que ateste a presença de Camões em Constância, esse facto vem da tradição oral e tem-se consolidado ao longo do tempo.
A propósito, António Matias Coelho, Presidente da Direção, relatou que, quando o questionam sobre se é verdade que Camões esteve em Constância, responde “Camões está em Constância”.
No final da preleção, o dirigente aproveitou a oportunidade para realçar as comemorações que se realizaram em Constância em 1880, ano do 3° centenário da morte de Camões, conforme registos nos arquivos camarários. Nesse ano foi atribuído o nome do poeta a uma rua que na altura era a principal artéria da vila e cujo toponímia ainda hoje se mantém.
Depois de um apontamento musical relativo ao poeta pelos alunos do 7° ano da escola Luís de Camões, orientados pela professora Ana Coelho, José Manuel Sobral anunciou que pretendia fazer uma palestra “que não fosse académica, mas que fosse rigorosa”.

Começou por abordar as diferentes teorias, modernistas e não modernistas, do nacionalismo ao longo da história, realçando a conotação negativa que o termo ganhou no século XX sobretudo com o processo do colonialismo e depois da 2ª Grande Guerra.
O orador identificou Camões como um autor nacionalista não fosse ele um poeta que exaltou de forma exacerbada a história, a identidade e cultura portuguesas.
Depois de distinguir os conceitos de Estado e Nação, sublinhou o facto de em Portugal não se reconhecerem diferentes etnias e de o nosso país ser um caso raro na Europa de um “Estado-Nação”.
O conceito de nacionalismo ganha mais força a partir do séc. XVIII, seja como teoria política ou como sentimento político. Neste contexto, recordou a célebre frase de Oliveira Salazar “Tudo pela Nação, nada contra a Nação” ou “a bem da Nação”.

Ao longo da sua intervenção, foi citando excertos d’Os Lusíadas para demonstrar como são inúmeros os tópicos do nacionalismo presentes na obra.
Tais elementos definidores da existência de uma identidade nacional passam pelo “mito étnico”, a “realeza sagrada”, a noção de “povo eleito” e a exaltação dos portugueses em contraponto com “os outros (castelhanos e sobretudo mouros), a exaltação da língua portuguesa, o enaltecimento do território, a glorificação da história de Portugal, entre outros.
Apesar de serem recorrentes nas narrativas de outros povos europeus, as expressões do nacionalismo, n’Os Lusíadas ganham maior dimensão, que chegam a ser “fatigantes” como escreveu Luís Albuquerque.
E depois, José Manuel Sobral explica ponto por ponto cada um destes aspetos sempre recorrendo a citações da obra maior do poeta.
A ideia dos portugueses como “povo eleito” está presente noutros povos como os Visigodos ou os Lombardos. O “mito étnico” tem como referencial a Bíblia em que os povos são vistos como “uma extensa família” numa lógica de “genealogia prestigiante”.
Para José Manuel Sobral a ideia de “povo eleito” está associada a uma conceção providencialista do papel dos portugueses. N’os Lusíadas os portugueses são apresentados como Lusitanos, prestigiados pela resistência oferecida aos Romanos numa terra designada por Lusitânia.

À ideia do “povo eleito” junta-se a de “realeza sagrada” ligada, segundo o orador, ao “mito de Ourique”, um milagre, uma intervenção divina que se repete na história.
Na obra de Camões os portugueses são norteados pela fé e o Império, aliás, todo o texto é uma exaltação dos portugueses tendo como base “o amor pela Pátria”. O que prevalece é “a fortaleza dos portugueses”. Sucedem-se as autoimagens exaltantes do português que constituem o chamado “caráter nacional”. “Eis aqui a ditosa Pátria minha amada” é um exemplo da glorificação da terra portuguesa e da sua história.
Essa exaltação passa também pela própria língua, pela sua expansão e o papel que teve, por exemplo, na propagação da fé.
Considerado o texto mais importante na construção do império português, Os Lusíadas tiveram grande impacto no país ao ponto de serem feitas 11 edições entre 1580 e 1640, conforme realçou o orador.

Para José Manuel Sobral, o impacto dessa epopeia explica a monumentalização do poeta em 1880 no Chiado numa altura em que se celebrou o terceiro centenário da sua morte, comemorado num contexto fortemente nacionalista.
Aliás, apesar da mudança dos regimes políticos ao longo da história, a figura simbólica do poeta sempre foi celebrada, seja pela expansão do Império, seja, já no século XX, pela diáspora. Ou seja com a emigração passamos a ter uma expressão da identidade nacional portuguesa “à distância”. Daí a comemoração no dia 10 de junho do “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.
