Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem e Dia do Concelho de Constância. Créditos: mediotejo.net

O barrete preto e o brilho do encarnado, juntamente com o Grupo Etnográfico de Danças e Cantares – Albandeio, vieram novamente de Alpiarça até Constância para levar aos ombros o andor de S. Pedro durante a procissão, o pescador, a quem Jesus terá decidiu mudar o nome, simbolizando firmeza, estabilidade e força. É nessa simbologia de solidez e fé que, mais uma vez, nesta segunda-feira de Páscoa, pescadores e marítimos voltaram a honrar a Nossa Senhora da Boa Viagem, não deixando cair a tradição.

Carregam o pescador mas, desta vez, não deitam as redes à água. Subir o Tejo, de Tancos até Constância, “é um passeio giro. Dá uma certa adrenalina em certos locais do rio onde a corrente é mais forte. Recomendo a quem tenha oportunidade de subir, porque é mesmo interessante”, começa por dizer Miguel Moita, um jovem de 35 anos que preside à direção do Grupo.

Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem e Dia do Concelho de Constância. Créditos: mediotejo.net

A devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem em Constância está associada ao intenso tráfego fluvial de mercadorias que se fez durante séculos entre o porto desta vila e a capital do país. Dos perigos da navegação nasceu o apego dos marítimos à Mãe de Deus e a confiança na sua protetora intervenção. A Festa e a bênção dos barcos, em segunda-feira de Páscoa, são os momentos culminantes de uma devoção que será pelo menos bicentenária.

Até aos meados do século XX, apesar de algumas vicissitudes da vida e do mundo, a Festa manteve a sua grandiosidade de sempre, refletindo a prosperidade económica da vila, que vinha da relação com os rios, de onde tirava o seu sustento e o sentido da sua existência.

Passado o tempo dos marítimos e do transporte fluvial, a Festa entrou em declínio, como as atividades que a geraram e mantiveram, e só não desapareceu porque a paróquia decidiu assumir a sua organização, substituindo os festeiros que já não havia, e porque eram muito fundas as raízes que a devoção tinha criado na cultura local.

Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem e Dia do Concelho de Constância. Créditos: mediotejo.net

Portanto, nestas questões de fé, religiosidade e tradição cumpre-se também os usos e costumes das gentes que no passado viveram do rio Tejo. “Fazemos isto desde a estreia do Grupo. Participamos com um barco e com estas vivências do Tejo; os pescadores e a meia laranja”, refere Miguel, explicando que, em Alpiarça, davam o nome de “meia laranja” ao local onde os trabalhadores do campo comiam. “Uma zona no meio do campo onde se fazia o comer, onde ficava guardado o farnel” até à hora de almoço.

É isso que o Grupo Etnográfico tenta reproduzir, na segunda-feira de Páscoa, na Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem, em Constância. Todos os anos, faça chuva ou faça sol, são presença assídua na romaria, que integra o plano de atividades do Grupo Etnográfico de Alpiarça.

E se este ano a chuva não deu tréguas, após subir o rio de barco, a festa fez-se na mesma, com uma pequena mostra das “vivências do Tejo e do campo”, nomeadamente os instrumentos de pesca, como as redes, os utensílios das lavadeiras para pôr a roupa do rancho a corar, depois de molhada nas águas frias do rio, ensaboadas com sabão azul e branco, e estendidas ao sol, o lume feito na areia para cozinhar o almoço, onde não faltou o acordeão e quem o soubesse tocar, no caso outro Miguel, igualmente jovem.

AÚDIO | GRUPO ETNOGRÁFICO DE DANÇAS E CANTARES DE ALPIARÇA – ALBANDEIO

Anabela Simões trata, então, do almoço composto pelas tradicionais migas fervidas de couve com feijão e carnes grelhadas. “A tradicional açorda de Alpiarça”, esclarece.

Sem ligações familiares ao Tejo, Anabela já perdeu a conta aos anos que marca presença em Constância por ocasião da Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem. “Gostamos mesmo muito destas tradições ribeirinhas. No ano passado subi com o Grupo no barco. Este ano decidi ficar na parte da meia laranja, uma tradição do campo mas que também se fazia junto ao rio. Era ao ar livre que se cozinhava” quando do rio pescadores e as suas famílias dele tiravam o sustento.

Este ano, as embarcações engalanadas voltaram a navegar em Constância, pelos rios Tejo e Zêzere, provenientes de municípios ribeirinhos para a tradicional festa dos marítimos, com o pedido de proteção à Santa e recebendo a bênção dos barcos.

A aguardar esse momento encontrámos Guilhermina Pisco, de 66 anos, uma estreante na romaria. Natural de Almeirim, dança no rancho folclórico de Alpiarça há três anos e também no Rancho Folclórico da Casa do Povo de Almeirim, secção da Velha Guarda, há mais de 50 anos. “Estas tradições não deviam de acabar e fiz questão de vir. A dança para mim é vida. Vivo a dança” desde 1973, conta ao nosso jornal reconhecendo no Grupo Etnográfico de Danças e Cantares de Alpiarça – Albandeio “uma família”.

À Festa rendeu-se também o automóvel, institucionalizando, a partir dos anos 1960, a bênção das viaturas que todos os anos se faz na Praça Alexandre Herculano. A secular tradição realizou-se no âmbito das Festas do Concelho, em dia de feriado municipal.

Como referido, o culto à padroeira dos pescadores tem pelo menos dois séculos, data dos primeiros registos desta romaria. Mas nas Festas de Constância há toda uma envolvência popular na parte pagã do arraial, com as ruas coloridas com flores de papel, com temas alusivos aos rios, à pesca ou à coletividade responsável pela decoração da rua.  Juntam-se ainda as tasquinhas e a gastronomia típica, dinamizadas por associações concelhias, o desporto, os concertos e o folclore.

Nos últimos 20 anos, a Festa vive uma nova fase da sua história, iniciada quando a Câmara Municipal decidiu intervir com o objetivo de a revitalizar e revalorizar, associando-lhe um vasto conjunto de atividades culturais, recreativas e de lazer que constituem as Festas do Concelho de Constância.

As bênçãos nos rios são três. Uma primeira no Zêzere, onde o padre que preside a cerimónia religiosa entra numa embarcação acompanhado pelo presidente da Câmara; outra bênção no Tejo, na confluência dos dois rios, ou seja, na foz do Zêzere; e uma terceira no cais de Constância, um pouco abaixo da Casa-Memória de Camões. O povo acumula-se, distribuído, ao longo das margens dos dois rios para ver a procissão passar em terra e as embarcações a navegarem, fazendo o mesmo trajeto na água.

Seis bombeiros e três funcionários municipais agraciados com medalhas

As cerimónias do Dia do Concelho arrancaram pela manhã de segunda-feira de Páscoa com o hastear das bandeiras no exterior do edifício da Câmara Municipal de Constância, ao som da Banda Filarmónica Montalvense e com os bombeiros de Constância em desfile.

As comemorações incluíram a distinção de bombeiros e de trabalhadores municipais, sendo a cerimónia presidida pelo presidente da Câmara Municipal, Sérgio Oliveira, e pelo presidente da Assembleia Municipal, António Luís Mendes. Os funcionários municipais agraciados foram – por 10 anos de serviço – Anabela Azevedo Alves e Nuno Alves Ruivo; e – por 20 anos de serviço – Amélia Lopes Campos.

Este ano, no qual os Bombeiros de Constância celebram 100 anos, seis bombeiros, que em 2025 completam 25 anos de serviço, receberam a medalha do concelho de Constância. Foram eles: Miriam Raquel Barroso, Ricardo Jorge Mendes, Carla Patrícia Venâncio, José Eufrates Filipe, José Manuel Viana e Pedro Manuel da Costa.

No seu discurso oficial, Sérgio Oliveira começou por notar “ os desafios presentes e futuros” devido àquilo que classificou de “profunda instabilidade internacional que afeta diretamente as nossas vidas”.

Referiu o Plano de Recuperação e Resiliência como tendo surgido com “elevada expectativa e esperança” para “resolver o problema da habitação” em Portugal e também no concelho de Constância. Porém, as regras que classificou de “monstro burocrático” atrasaram o processo “mais de um ano”.

E essas regras juntou ainda “a falta de resposta na área da construção civil” dando conta de um concurso público que já ficou deserto três vezes, estando por aprovar pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana “três fogos”. A essa problemática, segundo Sérgio Oliveira, acrescentou-se ainda a queda do governo. Porém, deu conta da existência de “uma esperança” na linha de crédito prometida pelo executivo.

Referiu outras obras em curso, como a Loja do Cidadão, e outras concluídas, como a reabilitação do centro histórico que, de acordo com o autarca, “deixou de ser uma preocupação”. No entanto, a nova travessia sobre o rio Tejo continua por ser uma realidade o que Sérgio Oliveira considera uma “grande injustiça” que “não é de Constância, é da região”.

Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem e Dia do Concelho de Constância. Créditos: mediotejo.net

Referiu ainda a questão da construção de um novo açude no Tejo, que, a ser realizado, fará desaparecer a praia fluvial de Constância, bem como a zona baixa até ao Lago Neptuno, lembrando “o muito investimento público” realizado nas margens dos rios com fundos comunitários.

“O açude prejudica-nos e não podemos aceitar”, advertiu, tendo feito notar que, a ser uma realidade para construir a nova ponte, “estamos disponíveis para aceitar”, mas com uma condição: “construa-se primeiro a ponte e depois falamos no açude”, disse o presidente da Câmara.

A área da Saúde também não ficou esquecida no seu discurso, considerando a falta de médicos de família um “flagelo” ao qual se exige “respostas nacionais”.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE CONSTÂNCIA, SÉRGIO OLIVEIRA

As cerimónias oficiais do Dia do Concelho contaram com vários convidados, nomeadamente o secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, Miguel Pombeiro, os ex-presidentes da Câmara Municipal de Constância, Fernando Morgado, António Mendes, Máximo Ferreira e Júlia Amorim, e o presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Constância, Adelino Gomes.

Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem e Dia do Concelho de Constância. Créditos: mediotejo.net

Esta segunda-feira de Páscoa é o último dia para apreciar a 17ª Mostra de Doces Sabores, onde é possível encontrar muitas das maravilhas da doçaria tradicional. Queijinhos do céu (doce tradicional de Constância), tigeladas, licores artesanais, cerveja artesanal, poncha, gin, frutos secos, doces e compotas, doçaria regional e conventual, mel, bombons, pastas vegetais, bolos e granolas. No total, gastronomia e artesanato mostraram-se em cerca de 50 expositores.

Um dos pontos altos das Festas do Concelho será, ao encerramento, o espetáculo piromusical. Para o ano, com a Páscoa, voltam as celebrações.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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