Para cumprir novamente a romaria da Nossa Senhora da Boa Viagem, Miguel Moita voltou a subir o rio Tejo vindo de Alpiarça. Uma tradição com “muitos anos”, tantos que a Festa encontra-se inscrita no plano de atividades do Grupo Etnográfico Danças e Cantares de Alpiarça.
“Faz parte do nosso ano: virmos à Festa, com a recriação etnográfica. Este ano por causa da chuva optamos por não vir”, mas nem as condições atmosféricas adversas a aventuras navegantes impediram que o grupo subir o rio.
Recebidas com salva de foguetes e saudação musical pela Banda da Associação Filarmónica Montalvense 24 de Janeiro, as embarcações são representativas de muitos municípios ribeirinhos do Tejo, bem como de alguns particulares do vale do Zêzere.





Os barcos participam num grandioso cortejo fluvial nos rios Tejo e Zêzere para receberem as Bênçãos de Nossa Senhora da Boa Viagem que, em terra, percorre as ruas da vila, em Procissão, com envolvimento religioso ou até menos crente, que não é necessário ter fé para acompanhar os santos, que além da Nossa Senhora, são igualmente transportadas até às margens do rio as imagens.
Como é tradição, as tripulações das embarcações trajaram ao modo de épocas passadas, lembrando os tempos em que os rios eram estradas e deles vinha o ganha-pão de grande parte da população.

Miguel é um jovem de 34 anos mas manifesta grande interesse pela etnografia. “Cada vez mais devemos valorizar o passado, para conseguirmos valorizar o presente e o futuro”, defende.
Não sendo filho de pescadores, nem tendo nascido numa família com qualquer ligação ao Tejo, gosta de usar os trajes tradicionais dos marítimos. Interessou-se pela tradição “através do folclore. Depois começamos a receber estes convites. E também porque no nosso rancho temos muitos pescadores de Vieira de Leiria e vão-nos passando as suas tradições, a sua vontade e curiosidade”.
Subir o rio é porém “uma aventura muito grande porque às vezes apanhamos pouca água no Tejo. Este ano tivemos muita água graças a Deus, mas chegámos debaixo da ponte e as correntes são fortes. Acaba por haver algum perigo”, conta. Desta vez, um elemento do Grupo, estreante nas agitações do rio, “entrou em pânico” quando o barco fez uma volta de 360º. Todos sabem nadar mas para as correntes fortes do Tejo “não é suficiente esse saber”, assegura Miguel.
Além do colorido das embarcações engalanadas e do farnel para o habitual piquenique, os marítimos trazem também alegria em participar nesta procissão em honra da Nossa Senhora da Boa Viagem, a padroeira local. “Levamos o São Pedro. O padre Nuno já nos considera da Festa e telefona sempre para nos convidar a levar o andor do São Pedro e nós em boa hora aceitamos”.
Como referido, a devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem em Constância está associada ao intenso tráfego fluvial de mercadorias que se fez durante séculos entre o porto desta vila e a capital do País.
Dos perigos da navegação nasceu o apego dos marítimos à Mãe de Deus e a confiança na sua protetora intervenção. A Festa e a bênção dos barcos, em segunda-feira de Páscoa, são os momentos culminantes de uma devoção pelo menos bicentenária.
Até aos meados do século XX, apesar de algumas vicissitudes da vida e do mundo, a Festa manteve a sua grandiosidade de sempre, refletindo a prosperidade económica da vila que vinha da relação com os rios, de onde tirava o seu sustento e o sentido da sua existência.







Passado o tempo dos marítimos e do transporte fluvial, a Festa entrou em declínio, como as atividades que a geraram e mantiveram, e só não desapareceu porque a paróquia decidiu assumir a sua organização, substituindo os festeiros que já não havia, e porque eram muito fundas as raízes que a devoção tinha criado na cultura local.
Este ano, navegaram em Constância, pelos rios Tejo e Zêzere, 63 embarcações engalanadas provenientes de 15 municípios ribeirinhos, para a tradicional festa dos marítimos, com o pedido de proteção à Santa e recebendo a bênção dos barcos. A Festa rendeu-se também ao rei automóvel, institucionalizando, a partir dos anos 1960, a bênção das viaturas que todos os anos se faz na Praça Alexandre Herculano. A secular tradição realizou-se no âmbito das Festas do Concelho, em dia de feriado municipal, que este ano calhou a 1 de abril.



Nas margens do Tejo e do Zêzere, centenas de pessoas concentram-se para ver a chegada das embarcações e saudar a procissão que chega junto dos barcos de pesca e alguns de recreio, como as canoas que dão colorido aos rios, intensificado pela luz de um tímido sol em dia de aguaceiros e nuvens intermitentes.
O culto à padroeira dos pescadores tem pelo menos 200 anos, data dos primeiros registos desta romaria mas nas Festas de Constância há toda uma envolvência popular na parte pagã do arraial, com as ruas floridas e coloridas por flores de papel, que a chuva cancelou nesta edição das Festas, embora a vila estivesse salpicada com enfeites e flores em plástico e até em papel, numa rua junto à Praça Alexandre Herculano, tendo o criador colocado uma proteção a proteger as flores.




Isto porque nos últimos 20 anos, a Festa vive uma nova fase da sua história, iniciada quando a Câmara Municipal decidiu intervir nela com o objetivo de a revitalizar e revalorizar, associando-lhe um vasto conjunto de atividades culturais, recreativas e de lazer que constituem as Festas do Concelho de Constância.
Paralelamente decorreu a 33ª Mostra Nacional de Artesanato, onde foi possível encontrar as bonequinhas tradicionais de Constância, cerâmicas, artigos em pele/couro (calçado, cintos, carteiras, malas, etc.), bijutaria em aço, prata e ouro, costura criativa, jogos e quebra-cabeças em madeira, tapetes, passadeiras, mantas, utensílios de cozinha em madeira, bonecas/bonecos, pintura em tecido, pequeno mobiliário em madeira, velas e outros materiais diversos.
A Mostra Nacional de Artesanato conta assim com a representação da sub-região do Médio Tejo, mas também com a presença de outras regiões do País.




Paula Rodrigues e o marido, Paulo Garcia, vieram de Coimbra, pela primeira vez em Constância, mostrar a sua arte, feita com cera de soja, “vegetal, não tem petróleo. Temos de pensar um bocadinho no ambiente”, diz Paula.
Ambos com carta de artesão dedicam-se a 100% ao artesanato, ou seja às velas aromáticas, gesso perfumado e ambientadores. “Usamos pavios de madeira, mais ecológico, e de algodão. Tentamos utilizar produtos diferentes”, embora também possam usar cera de abelha, preferem a de soja, 100% vegetal, explica a artesã.
Paula não gosta de coisas doces, porém os artesãos inspiram-se nas guloseimas para o visual das suas velas e os ambientadores guardam fórmulas concebidas por ambos. “Não compramos nada! Tivemos de fazer formações, experimentações, muita tentativa e erro”.
Paula, que no passado teve a profissão de administrativa e Paulo que trabalhou como vendedor de automóveis, têm um atelier e uma loja física em Coimbra, apesar de não excluírem as novas tecnologias e tendências, vendendo os seus produtos online. Além disso, percorrem as feiras de artesanato de norte a sul do País, desde o Algarve ao Minho. Em Constância “o São Pedro não foi muito amigo”, lamentam. Quem sabe para o ano a depressão Nelson não decida “atrapalhar” as vendas.


Carlos Oliveira é ribatejano, nascido em Muge, porém a Bairrada é a sua casa para onde se mudou com dois anos de idade. À mostra de artesanato de Constância trouxe o seu trabalho em madeira, vidro e algum vime, ao qual se dedica a tempo inteiro.
“Tenho uma oficina e faço feiras” preferindo as feiras de artesanato na zona Centro do País, explicou ao nosso jornal. Carlos abraçou o artesanato após mais de 20 anos a trabalhar na indústria cerâmica, numa das maiores empresas da Europa. O artesanato surgiu “como passatempo, e para ganhar algum dinheiro até que venha a idade de reforma que permita ter uma vida mais ‘desafogada’. Até lá vou trabalhando… mas tal não é sinónimo que o artesanato dê dinheiro para sobreviver. É ganhar para poder comer e não ter prejuízo”, lastima.
Sem desistir, idealiza e cria as peças, designadamente decorativas, para receberem no seu interior caixas de vinho, as chamadas ‘bag in box’ em forma de casas, dos diferentes clubes de futebol, de castelo, de moinho e até de farol, a sua peça mais cara em exposição em Constância, custa 130 euros. Entre os materiais encontramos por exemplo pétalas de pinha e a técnica de pirografia aplicada na madeira.
Carlos Oliveira é artesão certificado pelo Cearte, onde tirou um curso que lhe permitiu ter carteira profissional, embora se afirme autodidata. “Dão-nos algumas ferramentas para melhorar nesse campo, algumas técnicas, mas temos de provar que aquele trabalho foi realizado por nós”, refere.
E é por gosto que se dedica ao artesanato. “Essa é a palavra fundamental num artesão. Se não gostar daquilo que faz, é para esquecer. Embora em todas as áreas convém gostar do que se faz, senão não sai na perfeição, mas no artesanato é essencial. Todo o tempo gasto na produção de uma peça não é pago, mas é compensatório porque uma pessoa está entretida”, refere.
Em simultâneo funcionou também a 16ª Mostra de Doces Sabores, onde foi possível encontrar muitas das maravilhas da doçaria tradicional. Queijinhos do céu (doce tradicional de Constância), tigeladas, licores artesanais, cerveja artesanal, poncha, gin, frutos secos, doces e compotas, doçaria regional e conventual, mel, bombons, pastas vegetais, bolos e granolas. No total, gastronomia e artesanato mostraram-se em cerca de 50 expositores.
Um dos pontos altos das Festas do Concelho foi o espetáculo piromusical que encerrou a edição de 2024. Para o ano, com a Páscoa, voltam as celebrações.
Fotos do fogo de artifício de Ricardo Escada:
























