Exercício militar ORION 22 decorre de 2 a 13 de maio. Foto arquivo: Jorge Santiago/mediotejo.net

O jornal mediotejo.net foi convidado pela Brigada Mecanizada para participar num dos momentos que integram o exercício ORION18, a decorrer no Campo Militar de Santa Margarida desde o final de abril. Na sexta-feira, dia 4, passámos de jornalistas de proximidade no Médio Tejo a repórteres de guerra no cenário fictício do país de Arnland num dia que começou com a travessia do rio Tejo entre viaturas militares e terminou com uma conferência de imprensa a anunciar o fim do conflito.

A manhã começou como tantas outras. As rotinas do costume até ao beijo de despedida que antecede a saída de casa. Trabalhar num jornal regional leva-nos a vários locais ao longo da semana (ou do dia) e, por vezes, surge a pergunta: “Vais para onde?”. A resposta de hoje surpreende: “Vou para Arnland”. “Para onde?”, voltam a perguntar. “Vou para a guerra…”.

Sim, hoje é dia de ir para a guerra. A Brigada Mecanizada (BigMec), sediada no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), convidou-nos para acompanhar e participar no ORION18, exercício militar multinacional que se encontra a decorrer no Campo Militar de Santa Margarida, Viseu, Beja, Açores e Madeira desde o final de abril.

Alguns concelhos do Médio Tejo transformaram-se em Jonkoping, uma região do país de Arnland criado para testar as capacidades da Componente Operacional do Sistema de Forças do Exército e no qual a BrigMec assegura o Comando das operações. Neste cenário fictício, as Forças Armadas do país vizinho, Torrike, invadiram Arnland em janeiro de 2017 durante o exercício militar “Zeus”.

Passámos de jornalistas de proximidade no Médio Tejo a repórteres de guerra em Arnland. Foto: mediotejo.net

A declaração do estado de emergência, no mês seguinte, confirmou os rumores das atrocidades cometidas contra a população por parte dos militares e das milícias, dando início a uma fuga em massa da população e uma crise humanitária. Em novembro desse ano, a ONU criava uma Joint Multi National Task Force (JMNTF) e o Comando das operações foi entregue à Brigada Mecanizada.

A destruição das forças Torrikianas em Jonkoping e a neutralização das milícias foram assumidos como passos necessários para o restabelecimento da fronteira entre os dois países e do sentimento de segurança dos “torrikianos”, permitindo a entrada da ajuda humanitária. Passamos de jornalistas de proximidade a repórteres de guerra quando chegamos a Tancos, concelho de Vila Nova da Barquinha.

No cais junto ao anfiteatro ribeirinho, encontram-se alguns militares que participam na operação de transposição de curso de água com viaturas militares entre aquela margem e a do Arripiado, na Chamusca. Também já lá está a ponte flutuante Ribbon, do Regimento de Engenharia n.º 1, sediado em Tancos, que transportará viaturas militares M11 Panhard, VBTP M13 portuguesas e espanholas, Pandur e uma peça de artilharia espanhola.

Operação de transposição de curso de água com viaturas militares entre as margens de Tancos e Arripiado. Foto: Jorge Santiago

Foi entre dois blindados Pandur que atravessámos o rio Tejo, acompanhando as manobras dos barcos e as indicações trocadas entre os militares. Os gestos são universais e as palavras em português, mas poderiam ser noutro idioma uma vez que, segundo dados atualizados, mais de 2300 militares portugueses, espanhóis e lituanos e a Cruz Vermelha participam neste exercício militar que resultará na certificação na condução de operações reais no quadro da NATO ou da União Europeia.

As Forças do Exército Espanhol participam com meios pesados numa organização com a mesma tipologia, mas com maior dimensão, da que tem projetada na Letónia no âmbito das “enhanced Forward Presence” (eFP). As Forças do Exército Lituano estão pela primeira vez em Portugal, tendo realizado treinos conjuntos com o Exército Português, naquele país, integrados nas “Assurance Measures”.

No concelho de Constância estão cerca de 1200 militares, 250 dos quais estrangeiros, aos quais se têm juntado delegações de observadores do Brasil, Espanha, Estados Unidos da América, França, Lituânia e Roménia. Foi para lá que rumámos depois do High Visibility Event (HVE), gratos por não nos cruzarmos com elementos das forças militares e das milícias Torrikianas.

Vídeo do direto realizado pelo mediotejo.net durante a travessia do rio Tejo

Iríamos perceber porquê durante a conferência de imprensa simulada, em inglês, no Campo Militar de Santa Margarida em que participámos com o Comandante da BrigMec, Brigadeiro-General Eduardo Mendes Ferrão, acompanhado pelo Chefe do Estado-Maior da BrigMec, Tenente-Coronel de Infantaria Luís Afonso Calmeiro, e o Oficial de Relações Públicas da BrigMec, Major João Silva Tavares.

O último comunicou que a missão da BrigMec foi cumprida, marcando a data de 4 de maio como o dia em que o último foco de resistência foi eliminado e o fim do conflito bélico entre Torrike e Arnland se tornou realidade. O Comando das Forças Terrestres assistiu por videoconferência ao anúncio de que os líderes inimigos foram presos e armas apreendidas, assim como a transposição do rio daquela manhã, perto da fronteira, consolidou o regresso do ambiente de segurança e a entrada da ajuda humanitária.

Seguiram-se as perguntas dos jornalistas, nós e alguns militares que participaram como figurantes, e o mediotejo.net foi o primeiro meio de comunicação social a questionar o Brigadeiro-General Eduardo Mendes Ferrão. A informação sobre a existência de vítimas mortais, nomeadamente militares portugueses, foi confirmada sem serem avançados números oficiais com a justificação de que os mesmo chegariam depois de terminados os procedimentos de aviso às famílias.

Conferência de imprensa no Campo Militar de Santa Margarida. Foto: mediotejo.net

Igualmente confirmada, ao “Arnland News”, foi a continuidade da JMNTF em Arnland uma vez que as milícias não estão controladas em todo o território, implicando a presença reforçada na margem norte do rio Tejo (junto da fronteira com Torrike). Tal como, ao “Correio da Tarde” o reforço do apoio no âmbito da ajuda humanitária e de ações para identificar elementos que possam estar a contribuir para o crescente sentimento anti-NATO detetado.

As notícias apontadas pelo “Evening Post” sobre possíveis interesses económicos da NATO nesta missão que poderão interferir na independência e liberdade de ação do Governo de Arnland foram desmentidas. O “Associated Press” ficou sem resposta sobre a existência de vítimas mortais civis no ataque inimigo a uma escola em Coruja e o “The Times” recebeu uma afirmativa à pergunta sobre a tentativa de violação, tendo o Comandante da BrigMec esclarecido que o militar português já foi identificado e será julgado pelas autoridades portuguesas.

Conferência de imprensa terminada e regressámos a casa preparados para escrever com a responsabilidade de informar um lado do mundo sobre o que se passa no outro. A guerra não termina quando se acaba de ler um artigo ou desliga a televisão, tornando fundamental mostrar o que se passa para não deixar cair no esquecimento quem procura a paz. Não o fazer quase equivale a um ataque inimigo.

O mediotejo.net agradece o convite da Brigada Mecanizada para participar no exercício militar ORION18.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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