O caminho faz-se pela floresta da Altri mas começa no Centro de Ciência Viva de Constância. São cerca de três quilómetros e quatro painéis, duplos, com informação e fotografias sobre plantas, borboletas, libélulas, gafanhotos, mamíferos ou aves possíveis de observar naquele espaço florestal.
Os Biospots do Centro de Ciência Viva de Constância, inaugurados em março, estão integrados num percurso pedestre curto, com cerca de três quilómetros, sinalizado com quatro painéis – que na verdade são oito – de informação sobre a biodiversidade local. Em cada painel, com bonitas fotos e pouco texto, destacam-se as espécies mais abundantes, identifica-se o seu nome científico, explica-se sobre a sua biologia ou ecologia, e determina-se a época do ano em que são predominantes ou estão presentes no local.
Trata-se de uma área de especial interesse para a observação da biodiversidade, sinalizada com esse tal painel informativo, com a particularidade de cada visita, a cada estação do ano, ser diferente, precisamente devido à diversidade. Por exemplo, durante esta reportagem não conseguimos ver a águia cobreira, migrou para temperaturas mais amenas, mas estará de volta na primavera.
Na biodiversidade “um dos projetos que acarinhamos mais é este das Estações da Biodiversidade e Biospots”, começou por dizer Pedro Serafim, engenheiro na Altri Florestal, uma empresa do Grupo Altri, dedicada à gestão florestal do património do Grupo, sendo a sua área a de certificação florestal e biodiversidade.

Explica que os Biospots “pretendem mostrar a paisagem circundante. Ou seja, o que o cidadão comum, que não é biólogo nem especialista, consegue ver à sua volta, as espécies”. A ideia original surgiu do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal, uma associação sem fins lucrativos com estatuto de Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) e de Utilidade Pública, e “com mais de 40 Biospots espalhados pelo País”, com a qual a Altri Florestal estabeleceu uma parceria.
Os objetivos deste projeto passam por contribuir para a valorização do património natural, e especialmente, mostrar a fauna e floras existente às comunidades locais bem como promover a participação dos cidadãos na preservação e até na inventariação da fauna, flora e habitats.
O Tagis conta com um grupo de especialistas, o cE3c, “quase todos provenientes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, biólogos que estudam esta fauna”, explica o engenheiro. E contam com outros parceiros, nomeadamente de comunicação como a revista Wilder, a Sociedade Portuguesa Botânica e o BioDiversity4All, um projeto de ciência cidadã.

O que pode ser visto no CCVC obrigou a um trabalho prévio dessa equipa de biólogos “que trabalha ao longo do ano e utiliza estes espaços como locais de monitorização constante, uma função mais científica. No fundo, escolhem estes espaços em conjunto com os parceiros, como locais de referência e vão avaliando como se encontram as populações dos insetos ao longo dos anos”, em todo o País onde se encontram estas Estações, particularmente na primavera e no verão quando os insetos estão mais presentes. A partir dessa monitorização percebem se as espécies estão a regredir ou a aumentar, explica.
Em todo o Portugal Continental, dos estudos de inventariação já realizados, foram registadas mais de 5000 observações, que correspondem a cerca de 750 espécies de invertebrados (a maioria são insetos), 100 vertebrados e 750 plantas. Foi igualmente construída uma base de imagem com mais de 20 000 fotografias.





De acordo com Pedro Serafim “este trabalho dos Biospots e das Estações da Biodiversidade está muito focado nos insetos, que dependem quase todos das plantas e têm a flora sempre agregada”. Na primeira parte do percurso, dentro do Centro de Ciência Viva, os dois primeiros painéis sinalizam “uma área muito soalheira, com uma diversidade muito grande de insetos”.
O conselho lê-se logo no primeiro painel: num local de observação do céu, “desta vez olhe para baixo para ver as estrelas dos caminhos”, até porque não há borboletas sem plantas hospedeiras. A reprodução das borboletas escolhidas pelos biólogos – foram eleitas cerca de 50 espécies de animais e plantas numa lista superior a 100 – é ali possível devido à presença das plantas das quais as lagartas se alimentam. Em destaque o insólito gafanhoto-narigudo, a borboleta-zebra, a cauda-de-andorinha, a borboleta-carnaval e depois o pilriteiro, o funcho e a aristolóquia.
A Altri, que possui 94 mil hectares de área florestal em Portugal, conta com sete estações e biospots – Estação da Biodiversidade da Ribeira da Foz, na freguesia da Carregueira (Chamusca), Quinta do Furador em Óbidos, Centro de Interpretação em Malpica do Tejo, Estação da Biodiversidade de Cabeço do Santo em Águeda, Estação da Biodiversidade do Alegrete em Portalegre, Biospot no CCVC e outro em Vila Velha de Rodão, o Biospot Biotec. Pretende instalar até 2030, 15 Estações da Biodiversidade e Biospots.
“Com o apoio desta equipa ir percebendo as dinâmicas das espécies” nas suas propriedades. Em 2024, a empresa conta inaugurar dois; um em Lamego e outro em Monchique.

Em visita, além das famílias e visitantes singulares que queiram descobrir a fauna e a flora daquela área de Constância, também grupos de alunos são levados a fazer o percurso dos Biospots. Sobre a curiosidade dos jovens, o mentor do Centro de Ciência Viva e atual diretor, o astrónomo Máximo Ferreira, diz que “vão encantados. Mas alguns vão também frustrados porque este estudo foi feito em ocasiões diferentes e por isso há animais e plantas que veem nos Biospots e não veem na natureza mas depois há a dificuldade em tirá-los de cá porque partem à procura. Além de estarem aqui ao ar livre em plena floresta. É de facto uma experiência extraordinária!”.
Apesar dos Biospots estarem instalados num Parque de Astronomia, permitem uma visão mais terrena. “Este local começou por chamar-se Observatório Astronómico e da Natureza, depois surgiu a ideia da Câmara Municipal de criar a parte da natureza no Parque Ambiental de Santa Margarida e aqui a parte de observação da natureza desapareceu. O que fazemos com a Astronomia e com os grupos de estudantes que vêm cá, é utilizar a Astronomia para depois sensibilizar as pessoas para todas as áreas do conhecimento e naturalmente que as coisas que existem aqui dependem do clima, o clima depende do sol, o sol é Astronomia. Portanto, dizemos que a Astronomia é uma veículo privilegiado para estabelecer esta ligação entre as diversas áreas do saber”, afirmou Máximo Ferreira.
Depois seguimos para junto do charco onde podemos encontrar várias espécies de libélulas, como as três espécies comuns e inconfundíveis ou outras de diferentes portes e tamanhos mas pertencendo ao mesmo género. Sendo que na margem da charca encontramos plantas cujas flores alimentam muitos polinizadores, desde logo o salgueiro-branco, a salicária, as orquídeas nas bermas dos caminhos, que só florescem entre março e junho, e mesmo a extremamente tóxica embude.

Pudemos perceber, já nos terrenos da Altri, que nas zonas abertas abundam os polinizadores como as abelhas, designadamente a abelha-mineira-de-colar e as respetivas flores que as alimentam como a erva-das-sete-sangrias. Assim, no terceiro Biospot encontramos polinizadores, mostrando que muitos outros insetos também polinizam as flores, nomeadamente as moscas como a varejeira-dos-gafanhotos. E por fim, os arbustos dominantes e os predadores como a águia-cobreira, o bútio-vespeiro, o percevejo-assassino ou a raposa, que pode ser observada todo o ano, embora tenha hábitos noturnos e crepusculares.
O que não é impedimento, porque no CCVC, embora o visitante possa pedir para realizar o percurso individualmente, “das atividades programadas cerca de metade são à noite porque as pessoas a meio do percurso deparam com uma clareira com um telescópio apontado para a lua (em quarto crescente) e mais um ponteiro laser com o qual apontamos algumas constelações e depois em função do tempo e da disponibilidade das pessoas vamos, neste ambiente magnífico, olhando o céu e contando histórias, em particular, da mitologia grega e romana que são coisas interessantes de ouvir e de contar”, diz Máximo Ferreira.
Antes deste projeto que levou à instalação do Biospot no Parque de Astronomia, a equipa do CCVC já havia pensado num outro percurso, mais longo, com o objetivo de descobrir a natureza e a biodiversidade, igualmente pelo meio da floresta, com passagem junto ao charco, que levaria ao rio Zêzere, desce-lo de canoa até à vila e depois voltar ao Centro de Ciência Viva. Mas os 10 quilómetros de percurso e a exigência de alguma logística acabou por deixar o projeto na gaveta.

Este projeto com parceiros está em curso, na medida em que “é para continuar, enquanto existirem pessoas interessadas em participar nos percursos” pela floresta, embora em termos de instalação esteja terminado, acrescenta o diretor.
Para percorrer esses três quilómetros, basta contactar o Centro de Ciência Viva de Constância. Se optar pela visita em grupo será integrado no próximo grupo agendado, se quiser fazer a visita de forma individual, pode caminhar com calma pelas margens do charco, depois entrar na floresta, ler a descrição dos Biospots, com leitura simples e acessível, ou levar um livro para ler, com a possibilidade de comprar pequenas publicações sobre fauna e flora, à venda no CCVC.
