Em 31 de agosto de 2016, a jornalista e escritora apagou as velas dos seus 105 anos em Lisboa. Foto: DR

Manuela de Azevedo, a primeira jornalista mulher a ter carteira profissional em Portugal e fundadora da Associação Casa-Memória de Camões, em Constância, morreu hoje pelas 12:00, no Hospital de S. José, em Lisboa, aos 105 anos, informou a direção do Museu Nacional da Imprensa.

Manuela de Azevedo tinha sido internada na unidade hospitalar na terça-feira, acrescentou a nota do museu, que tinha editado os seus últimos livros. Depois da morte de Clare Hollingworth, há um mês, em Hong Kong, Manuela de Azevedo era a repórter mais antiga do mundo, que trabalhava atualmente num livro com cerca de 200 cartas, segundo a informação divulgada pela direção do Museu Nacional da Imprensa.

A centenária foi romancista, ensaísta, poeta e contista, tendo escrito também peças de teatro, uma delas censurada pelo regime de Salazar, tendo ainda enfrentado a censura num artigo que escreveu em 1935 sobre a eutanásia. Na nota divulgada, o Museu Nacional da Imprensa lembrou como a jornalista conseguiu a primeira entrevista do ex-rei Humberto I de Itália, que se exilara em Lisboa, após a implantação da República. Manuela de Azevedo fez-se passar por criada para conseguir a entrevista, que foi publicada no Diário de Lisboa, em junho de 1946.

Além da obra literária e jornalística, Manuela de Azevedo deixa a sua marca na Casa-Memória de Camões, em Constância, projeto que fundou e em que trabalhou durante 40 anos, sendo sócia nº1 e presidente honorária.

“É com profunda tristeza que a Direção da Associação Casa-Memória de Camões em Constância informa do falecimento, esta manhã, da sua Fundadora e Presidente Honorária Manuela de Azevedo”, disse, por sua vez, o presidente da direção da associação, António Matias Coelho.

“Manuela de Azevedo dedicou o melhor da sua vida a Camões e a Constância e deixa-nos uma obra verdadeiramente notável. Vamos procurar ser dignos do seu legado e prosseguir os objetivos que nortearam a sua paixão por Camões e pela nossa terra”, afirmou, tendo feito notar que, “se Constância tem hoje esta relação com Camões, se temos a Casa Memória, o Jardim Horto-Camoniano, e se todo o país associa a vila ao nosso maior poeta, deve-se, em grande medida, ao trabalho e paixão que Manuela de Azevedo nutria por Camões e por Constância”.

Em 31 de agosto de 2016, a jornalista e escritora apagou as velas dos seus 105 anos. Foto: DR

“Hoje é uma luz que se apaga, um dia muito triste, mas Manuela de Azevedo será sempre o nosso farol para nos empurrar para o futuro. A lei da vida é assim, mas Manuela de Azevedo legou-nos uma obra notável que agora nos compete prosseguir, respeitar a sua memória, e sermos dignos da sua obra, acrescentando trabalho e valor. A nossa missão é dar continuidade à sua obra e essa é a melhor forma de a homenagear”, defendeu.

Também a presidente da Câmara de Constância, Júlia Amorim, lamentou a morte de Manuela de Azevedo, tendo destacado a importância que Manuela de Azevedo teve na valorização de Camões e de Constância. “Era uma mulher determinada e um exemplo para todos”, referiu, em declarações ao mediotejo.net.

Poesia, dramaturgia, ficção, ensaio e jornalismo foram alguns dos muitos ofícios de Manuela de Azevedo ao longo da vida, tendo editado o seu primeiro livro, “Claridade”, em 1935, com prefácio de Aquilino Ribeiro, sendo de destacar ainda o seu trabalho sobre a obra de Luís de Camões. Ela foi uma das responsáveis pela construção da Casa Memória de Camões, em Constância, além de coordenadora da obra “A Camões”, uma coletânea de estudos comemorativa da abertura da Casa Memória de Camões de Constância.

Manuela de Azevedo foi uma das responsáveis pela construção da Casa Memória de Camões, em Constância, além de coordenadora da obra “A Camões”, uma coletânea de estudos comemorativa da abertura da Casa Memória de Camões de Constância. Foto: DR

Em 31 de agosto de 2016, a jornalista e escritora apagou as velas dos seus 105 anos colocadas num bolo em forma de máquina de escrever e perante um coro, que incluiu a voz do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com quem trabalhou.

Na altura, a jornalista, entre os episódios que contou, recordou as viagens que fez com Marcelo Rebelo de Sousa quando os dois partilhavam o ofício.

“Fizemos algumas viagens juntos. Sempre nos demos muito bem e há uma ‘gaffe’ que eu cometi, numa viagem de avião para o Norte da Europa. Ele ia com o Adelino [Cardoso, do Diário Popular] e eu que não sabia do passado de ambos [tinham trabalhado juntos em Moçambique] disse que os extremos tocam-se, porque o Adelino era da extrema-esquerda e o outro da direita e eles não gostaram”, contou.

Na ocasião, o Presidente da República condecorou a jornalista com a Ordem da Instrução Pública, já que antes tinha recebido outras condecorações pelo Mérito, Liberdade e Luta pela Liberdade em 1995 e 2014.

O funeral de Manuela de Azevedo vai decorrer no domingo, em Lisboa.

C/LUSA

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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