Fernando Correia. Foto: mediotejo.net

O jornalista e comentador da TVI Fernando Correia esteve em Constância este sábado, dia 13, para apresentar o livro “E se eu fosse Deus?”. A nova obra envolve os leitores numa viagem guiada por Henrique, um sem-abrigo cuja vida se faz diariamente no submundo lisboeta que muitos ignoram e do qual outros desviam o olhar. As histórias por detrás da história foram partilhadas na Casa-Memória de Camões na companhia da jornalista Patrícia Matos, mostrando que o autor conhecido pelo seu timbre vocal assume como missão de vida dar voz e ajudar quem mais precisa.

A apresentação de “E se eu fosse Deus?” encheu o auditório que recebeu como primeiras palavras as de Sérgio Oliveira, presidente da Câmara Municipal de Constância. O autarca destacou a importância de se enfrentarem os problemas sociais com que a comunidade se depara e apostar na sua resolução em vez de “colocar a cabeça na areia”. Como exemplo de sucesso, apontou a recente resolução da situação do sem-abrigo do concelho vizinho de Vila Nova da Barquinha.

Ao seu lado esteve Patrícia Matos, nascida no concelho de Constância antes de se mudar para o de Abrantes e que atualmente partilha os estúdios da TVI com o jornalista. A cumplicidade entre ambos foi evidente e a antiga colega de escola do autarca referiu como o “amigo” Fernando Correia lhe ensinou “o futebol além do jogo jogado”. O lado humano do autor de “E se eu fosse Deus?” mereceu destaque na sua intervenção sobre a obra literária.

Fernando Correia apresentou o novo livro na companhia de Sérgio Oliveira e Patrícia Matos. Fotos: mediotejo.net

O 36º livro do jornalista que partilhou na apresentação ter entrado na área desportiva devido ao despedimento da Emissora Nacional na altura do 25 de Abril pelas reportagens sobre as ex-colónias, foi referido por Patrícia Matos como o trabalho de “um jornalista verdadeiro”, de uma pessoa “boa” que “consegue testemunhar e sentir”. As palavras de Fernando Correia que se seguiram comprovaram que, de facto, sentiu cada capítulo da obra lançada em setembro de 2017 com a chancela da editora Guerra & Paz.

A viagem pelo submundo lisboeta dos sem-abrigo começou no banco de jardim num bairro de Alcântara, onde conheceu Henrique. O indigente todos os dias ali se sentava a ler o jornal diário e uma dessas leituras foi interrompida pelo comentador de rádio e televisão que pretendia contar a sua história. A pergunta “costuma falar com Deus?” apanhou Fernando Correia de surpresa que respondeu “e se falar consigo?”.

A primeira conversa terminou com Henrique a revelar que Deus estava dentro de si e a marcação de um encontro no dia seguinte. Cerca de 24 horas depois, foi perto do bairro do Alvito que Fernando Correia conheceu o “teto” feito de céu e a “alcatifa” composta por relva e flores que compunham a casa de Henrique, para quem Deus apenas pode existir “assim” e está presente em cada pessoa.

A histórias por detrás da história de “E se eu fsse Deus” foram partilhadas na Casa-Memória de Camões. Fotos: mediotejo.net

Marcaram-se novos encontros em que o sem-abrigo mostrou coisas “que Deus sabe” e que Fernando Correia assumiu desconhecer até percorrer o submundo lisboeta marcado pela droga, prostituição, suicídio e indiferença. O mesmo submundo que o “deslumbrou” e “angustiou” e sobre o qual decidiu escrever “com toda a convicção de que estava a ser útil para a sociedade”.

A viagem revelou-lhe também a sua missão, que mais tarde disse ao mediotejo.net, ser “contribuir para que o mundo seja melhor, para que haja menos egoísmo, para que as pessoas sejam mais fraternas, mais solidárias e olhem para aqueles que precisam”. Na conversa que tivemos momentos depois da apresentação relembrou os sem-abrigo que encontrou pelo caminho e o valor atribuído a alguns minutos de conversa e um simples abraço.

Sessão de autógrafos no final da apresentação. Fotos: mediotejo.net

A missão vai continuar a ser cumprida “desde que consiga encontrar a solução para muitos casos”, acrescentando que conseguiu emprego para algumas pessoas. Esta vertente de homem de causas sociais será fortalecida pelo livro sobre violência doméstica que diz estar “na forja” e deverá ser lançado depois da autobiografia “O que eu sei de mim” prevista para o mês de março.

Haverá muito para conhecer sobre o que Fernando Correia sabe de si próprio. Para já, sabemos que acredita na força da palavra escrita pois “se cada um de nós fizer a sua parte é evidente que o todo fica mais forte portanto eu tento fazer a minha parte para ajudar a mudar o mundo, a torná-lo melhor. Sei que não sou capaz de o fazer sozinho, nem um milésimo, mas a pouco e pouco, grãozinho a grãozinho, conseguimos chegar ao nosso objetivo”.

Na oralidade das declarações acrescentou que “o grande problema é as pessoas não saberem porque estão na vida. Nasceram porquê? Nasceram para quê?” e diz que na resposta à dúvida “porque é que eu existo” está “o melhorar o mundo”. Antes de nos despedirmos perguntámos se ele fosse Deus e apenas pudesse mudar uma única coisa o que seria. Fernando Correia aproveitava a oportunidade divina para acabar “acabar imediatamente com a pobreza, não havia mais pobres ao pé de mim”.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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