“Há pessoas que nos parece que nunca morrem. Habituamo-nos a vê-las seguir pela vida fora, sempre idosas, sempre jovens, sempre ativas, sempre criativas, sempre inspiradoras. E sempre amigas. Manuela de Azevedo é uma dessas pessoas. Conheci-a quando eu era jovem, haverá uns 30 anos. Já então Manuela de Azevedo tinha setenta e tal. Sempre a vi a mesma mulher: inteligente, arguta, determinada, dinâmica, criativa, produtiva, desafiadora. E muito rija, tanto física como emocionalmente. Manuela de Azevedo não era dissimulada nem nunca mandava recado. O que tinha a dizer, dizia. E, em relação às pessoas, ou gostava ou não gostava. Não era de meias-tintas”, escreveu António Matias Coelho, presidente da direção da Associação Casa Memória de Camões, de Constância.

Manuela de Azevedo, a primeira jornalista mulher a ter carteira profissional em Portugal e fundadora da Associação Casa Memória de Camões, em Constância, morreu na sexta-feira, pelas 12:00, no Hospital de S. José, em Lisboa, e foi este domingo a enterrar, naquela cidade. Depois da morte de Clare Hollingworth, há um mês, em Hong Kong, Manuela de Azevedo era a repórter mais antiga do mundo, que trabalhava atualmente num livro com cerca de 200 cartas, segundo a informação divulgada pela direção do Museu Nacional da Imprensa.

A centenária foi romancista, ensaísta, poeta e contista, tendo escrito também peças de teatro, uma delas censurada pelo regime de Salazar, tendo ainda enfrentado a censura num artigo que escreveu em 1935 sobre a eutanásia.

António Matias Coelho está hoje em Lisboa, para acompanhar o funeral de Manuela de Azevedo, tendo deixado umas palavras de homenagem à sócia nº 1 e presidente honorária da Casa Memória de Camões.

“Tive o privilégio de a ter como amiga. Grande e dedicada amiga. Sempre. E de, pela sua mão e a convite seu, acompanhar de muito perto boa parte do trabalho que fez em Constância. Um trabalho absolutamente notável, consubstanciado no Monumento a Camões, no Jardim-Horto de Camões, nas Pomonas Camonianas, na Casa-Memória de Camões. Se agora Constância se associa imediatamente a Camões e Camões é parte da identidade coletiva, isso deve-se, em grande medida, ao trabalho de meia vida de Manuela de Azevedo. Devemos-lhe tanto!

Hoje estou no lugar que, durante muitos anos, foi o de Manuela de Azevedo, à frente da Casa-Memória de Camões. Tenho, com as minhas colegas de Direção, a honra e a responsabilidade de continuar, completar (abrindo ao público a Casa-Memória) e divulgar a obra da fundadora e presidente honorária da Associação Casa-Memória de Camões em Constância. Vamos esforçar-nos por isso. É a forma de lhe dizer obrigado.

Amanhã [hoje/domingo] vou despedir-me de Manuela de Azevedo. Mas apenas de um corpo muito idoso que não resistiu mais aos efeitos do tempo que passou. Porque Manuela de Azevedo é uma das tais pessoas que nunca morrem”, escreveu Matias Coelho.

Também a Câmara Municipal de Constância expressou publicamente o seu pesar pela morte de Manuela de Azevedo, tendo a presidente da autarquia, Júlia Amorim, afirmado na página oficial do município que, “se Camões é uma referência da identidade de Constância, se a nossa terra tem um Monumento a Camões, um Jardim-Horto de Camões e uma Casa-Memória de Camões, isso deve-se, em grande parte, ao trabalho dedicado, persistente e generoso de Manuela de Azevedo”.

“Neste dia triste em que uma especial amiga nos deixa, a Câmara Municipal de Constância expressa as suas condolências à Família e à Associação Casa-Memória de Camões em Constância que fundou e durante muitos anos dirigiu. A obra de Manuela de Azevedo na nossa terra será uma perene lembrança de quanto lhe ficamos devendo”, refere a autarquia, em comunicado.

O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, apresentou as condolências à família de Manuela de Azevedo. Em comunicado emitido pelo seu gabinete, o governante refere que a jornalista “inspirou gerações com a sua coragem e determinação”.

Castro Mendes recorda ainda que, aos 105 anos, Manuela de Azevedo “mantinha ainda vários projetos profissionais, na escrita e no associativismo, nomeadamente na Casa-Memória de Camões, em Constância, tornando-se um exemplo de longevidade ativa”.

Também o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lembrou a jornalista Manuela Azevedo como uma mulher que fez história ao cumprir nas “letras o seu destino e no jornalismo a sua missão”.

Numa mensagem de condolências enviada à família e aos jornalistas portugueses, o chefe de Estado afirma que Manuela Azevedo foi uma “mulher que fez história quando a sua era uma profissão de homens”.

“Manuela de Azevedo, que nos deixou depois de uma vida longa e enriquecedora, enfrentou a censura e o preconceito, cumpriu nas Letras o seu destino e no Jornalismo a sua missão”, acrescenta Marcelo Rebelo de Sousa na mensagem publicada no ‘site’ da Presidência, na qual recorda que em agosto, no seu 105.º aniversário, lembraram “histórias de um passado comum”.

C/Lusa

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