Na azáfama no Campo Militar de Santa Margarida, em Constância, sentia-se no ar a esperança e o otimismo dos participantes, apesar das suas obras envolverem componentes muito mais racionais (e tecnológicas), de forma a fazer voar foguetes até ao espaço. Lado a lado, dezenas de estudantes de vários países estrangeiros afinavam os últimos pormenores da montagem dos seus foguetes (rockets), naquele que era o primeiro dia de lançamentos do EuRoc. Ansiavam por vê-los subir aos céus e esperavam que regressassem intactos, com as experiências científicas a bordo – o que significava recuperar a totalidade do foguete, incluindo a boa funcionalidade do paraquedas… isto na melhor das hipóteses. Subir até três mil metros de altitude, na verdade, já é bom. Mas há quem arrisque ir até aos nove mil metros.
O European Rocketry Challenge (EuRoC) é a única competição do género existente na Europa e, desde 2020, tem conquistado um número crescente de participantes. Para a sua quarta edição, a Agência Espacial Portuguesa recebeu um número recorde de 48 candidaturas por parte de várias equipas universitárias europeias. Dessas, foram selecionadas 25 equipas para lançarem os seus rockets este ano, mas nem todas conseguirão efetuar o lançamento.
Pela primeira vez, há duas equipas portuguesas em competição – embora em 2022 também duas equipas portuguesas foram selecionadas mas apenas uma entrou em competição – no EuRoc: os RED, do Instituto Superior Técnico, e a North Space, que inclui estudantes do Instituto Superior de Engenharia do Porto, da Universidade de Aveiro e das Faculdade de Ciências e de Engenharia da Universidade do Porto. A eles juntam-se a outras equipas, vindas de países como Suécia, Polónia, Espanha, Alemanha, Suíça, Reino Unido ou Noruega, por exemplo.







Pedro Soares é do Porto mas integra a equipa de estudantes universitários da Suíça. É aluno do segundo ano de engenharia mecânica na EPFL (École Polytechnique Fédérale de Lausanne), em Lausanne, juntando-se à Rocket Team em 2022.
Sonhava “ir para a Suíça, tentar fazer o melhor que conseguia e a EPFL é uma escola extraordinária. A EPFL Rocket Team é outro dos meus sonhos; o mundo aeroespacial e espacial, e dentro da faculdade a EPFL Rocket Team era quem me colocava mais próximo deste setor. Por isso foi uma escolha bastante fácil e quando me aceitaram dei todo o meu trabalho. Este momento é uma oportunidade incrível, estar numa das melhores competições de foguetões do mundo”, explica ao nosso jornal.
O EuRoc tem como objetivo desafiar estudantes de licenciatura e mestrado a lançarem os seus foguetes de propulsão sólida, líquida ou híbrida, até altitudes de três mil ou nove mil metros. Algo que, provavelmente, só o Campo Militar de Santa Margarida oferece, devido à possibilidade que o Exército Português tem, naquela zona do país, de controlar e restringir o espaço aéreo.

O rocket da equipa da Suíça propunha-se alcançar três mil metros de altitude. “Temos um motor líquido, a maior parte fomos nós que fizemos, por isso temos aqui uma oportunidade de testar as nossas peças e a nossa expertise neste campo. No futuro, em 2030, a nossa equipa gostava de juntar todos os nossos conhecimentos e finalmente conseguir, enquanto equipa de estudantes, mandar um foguetão ao espaço, é esse o objetivo final”, avança Pedro.
Conta que o foguete “está a ser trabalhado há mais de um ano porque há muitos projetos e subprojectos em conjunto, motores da estrutura, que são de projetos anteriores e que entretanto, à medida que o tempo passa, temos estas oportunidades de competição. Juntam-se e conseguimos fazer um só foguete onde centenas de pessoas trabalharam. É uma sensação ótima”.
Para Pedro Soares a “troca de experiências” com alunos de outros países “tem sido extraordinária” também no paddock (local onde se reúnem as equipas para a montagem e avaliações técnicas dos projetos) situado na vila de Constância, no pavilhão desportivo municipal, onde “todas as equipas, todos os foguetões, toda a gente mostrou aquilo que conseguiu fazer”.
A equipa suíça “não só conseguiu mostrar às outras equipas aquilo que fez mas nós também aprendemos com os outros”, particularmente com as equipas não estreantes, que lançam a 9 mil metros de altitude. “O conhecimento adiciona-se e saímos daqui muito melhor do que quando viemos”, assegura o jovem estudante que ambiciona trabalhar futuramente na área espacial, concretamente na Europa “fazer algo no domínio dos foguetões”.

As duas equipas portuguesas em concurso não lançaram naquele dia devido a questões de calendário, organizativas e de alinhamento com as outras equipas, competindo no fim de semana. São três as janelas temporais de lançamento diárias e por norma, em cada hora, lançam entre duas a três equipas, dependendo essencialmente das condições atmosféricas.
No entanto, encontramos outra portuguesa na equipa de Inglaterra. Lara Alves, de Setúbal, encontra-se inserida na equipa de estudantes de Londres sendo aluna do último ano de engenharia aeronáutica na Imperial College London.
“Comecei a gostar muito da área do espaço quando participei na competição do CanSat da ESA [Agência Espacial Europeia] desde aí que fiquei com aquele bichinho, a curiosidade sobre o espaço”, explica o mediotejo.net. Assim, não é de estranhar que para o futuro reserve ambições de trabalhar “na área do espaço”.

Lara define a experiência no EuRoc como “incrível! É poder ver o que toda a Europa, outros países, está a fazer. É ver e rever pessoas que não via há muito tempo, ver as ideias de cada um, partilhar conhecimento, partilhar histórias. No fundo é um grande momento de partilha” a palavra que escolhe para descrever o evento, onde já participou no ano passado.
Em 2022 a equipa do Imperial College London Rocketry veio com um foguete híbrido (com combustível misto, sólido e líquido) e este ano trazem um rocket com combustível apenas líquido para alcançar 3 mil metros de altitude levando experiências científicas a bordo.
As expetativas para o lançamento são elevadas. “Estamos confiantes. Acho que a equipa trabalhou muito bem, de forma muito profissional, chegámos com tudo pronto”, diz Lara referindo que a sua equipa trabalhou no foguete durante um ano. “Saímos da última competição e começamos logo a trabalhar neste”.
A iniciativa, organizada pela Agência Espacial Portuguesa assinala a sua quarta edição, sendo que o protocolo, assinado entre a AEP e a Câmara de Constância, prevê que o município acolha o evento de modo integral, de dois em dois anos, alternando com Ponte de Sor (Portalegre), cidade que acolhe o EuRoc desde a primeira edição, tendo o presidente da Agência Espacial Portuguesa, Ricardo Conde, enfatizado a importância de realizar o evento em territórios como Constância, colocando-os “no mapa europeu da competição de rockets e da promoção de atividades espaciais”.

As equipas competem por prémios em várias categorias. O júri, composto por especialistas nacionais e internacionais em rocketry, avalia o desempenho das equipas segundo o comportamento do foguete em relação à altitude alvo (3 mil ou 9 mil metros), carga útil, design e qualidade do relatório técnico, entre outros parâmetros que constam do regulamento do concurso.
A ANACOM, enquanto Autoridade Espacial Portuguesa, é responsável pelo prémio com o nome das instituição, dedicado à análise e utilização do espectro de frequências pelas equipas. O prémio EuRoc, o mais ambicionado por todos, apesar de não ser de natureza pecuniária, premeia a excelência avaliando todos os aspetos da competição.
Camões sobe aos céus da vila poema
‘Camões’, sucessor do foguete ‘Baltasar’, lançado o ano passado, com nome inspirado na obra de José Saramago, surge numa homenagem que os alunos do Instituto Superior Técnico quiseram fazer à literatura portuguesa, por ordem alfabética, indo atualmente na letra C, e sendo algo que querem dar continuidade. Por coincidência, o foguete ‘Camões’ é montado na vila poema, assim conhecida por ter acolhido o poeta maior e ambiciona subir aos céus de Constância a uma altitude de três mil metros.
O porta-voz da equipa, Gonçalo Machado, de 20 anos, participa pela primeira vez no EuRoc, sendo o terceiro ano da equipa do Instituto Superior Técnico, uma equipa motivada. “Sim. O objetivo é alcançar o máximo e estamos todos muito motivados para alcançar esse objetivo”, garante.

Composta por 80 elementos – estando presentes no EuRoc em Constância cerca de 30 – , a equipa Rocket Experiment Division (RED) foi criada em 2017 e inclui estudantes nas áreas de engenharia mecânica, engenharia aeroespacial, engenharia eletrotécnica e informática, gestão industrial, química, engenharia física e tecnológica, entre outros.
“O objetivo é chegar aos 3 mil metros de altitude. Temos um motos de propulsão sólida, feito por nós, e o objetivo é nem ultrapassar nem ser inferior aos 3 mil metros”, completa Gonçalo.
O ‘Camões’ foi apresentado como “o mais avançado veículo criado até ao momento” pelo RED, equipa constituída, então, por estudantes de vários cursos do Instituto Superior Técnico e inserida no Núcleo de Estudantes de Engenharia Aeroespacial do Técnico. O rocket “é mais robusto e confiável que os seus seis antecessores”, assegura a equipa, sendo portanto, o sétimo foguete dos estudantes do IST, responsáveis por desenvolver a melhor solução com o objetivo de colocar foguetes no espaço.
Para além do espírito poético e competitivo, o ‘Camões’ levará também três experiências científicas a bordo, resultantes de concursos de ideias lançados à comunidade, tornando-se o veículo com maior capacidade de transporte alguma vez realizado pelo projeto.
“Três experiências científicas, duas delas são pequenos satélites da competição da Ciência Viva, o CanSat Portugal, essencialmente a nível de biologia”, detalha o porta-voz da RED.
Se tudo correr positivamente, o foguete regressa do espaço intacto, através de um para-quedas. “O objetivo é que haja uma recuperação intacta, que o rocket esteja pronto para lançar uma segunda vez, uma terceira vez e isso é essencial. Outro dos principais objetivos passa pela reutilização dos materiais”, refere.
O ‘Camões’, que começou a ser construído há cerca de um ano, pesa cerca de 30 quilogramas no total, incluindo o combustível, que consiste numa mistura de sorbitol com nitrato de potássio. Este combustível é consumido logo no início do voo, e depois o foguete voa com 24,08 quilogramas. Quando terminar a competição de 2023 a equipa inicia de imediato a construção do foguete que estará em competição no próximo EuRoc, em 2024.







Gonçalo Machado nota que “esta competição abre as portas aos nossos estudantes, terem um contacto com várias empresas do setor, com outras equipas de outras universidades europeias, mas também uma verdadeira experiência de equipa, trabalho em conjunto e desenvolvimento de capacidades técnicas que vão ser importantes para o futuro, no mercado de trabalho”. Isto porque a maior parte dos elementos da equipa RED ambicionam trabalhar na área espacial e “chegar as maiores entidades e empresas do setor tanto a nível nacional, como europeu e mesmo mundial”.
Projetos futuros à parte, o que mais valioso retiram da competição passa pelo intercâmbio de conhecimentos. “O prémio final é sempre um extra, só a participação por si já beneficia muito, tanto a nível pessoal como a nível de equipa”.
O lançamento do foguete do IST está agendado para a manhã de sexta-feira mas dependerá do estado dos sistemas e essencialmente das condições meteorológicas mas também da sorte. Os rockets “são muito imprevisíveis, a partir do momento que é feita a ignição ele voa sozinho, os sistemas funcionam autonomamente e portanto como não estamos a controlar – o controlo é feito pelo computador de bordo que só nos envia os dados do voo em termos de altitude ou velocidade – há ou podem haver erros associados”.
Portanto, é uma trabalho de “um ano inteiro. Fazemos uma dezena de testes para tentar evitar esses problemas no entanto podem sempre acontecer”, refere acrescentando que “este ano foi impossível lançar o foguete ao ar, em testes” esperando que para o ano consigam fazê-lo “com a ajuda das Forças Armadas. É mais um teste de voo essencial para ver como todos os sistemas vão funcionar no momento da competição”.

A propósito do nome Camões ter sido atribuído ao foguete do IST, o presidente da Câmara de Constância, Sérgio Oliveira, considerou “uma coincidência bonita” e aproveitou essa similitude para deixar uma mensagem ao ministro Pedro Adão e Silva.
“Pode ser que o rocket voe bastante alto e que o senhor ministro da Cultura se lembre que temos uma Casa-Memória que precisa de ser aberta ao público e precisa de ter apoios e efetivamente entre em funcionamento porque somos o concelho com maior ligação a um dos maiores poetas do nosso País e o País ter uma casa aberta diariamente dedicada a Camões”, afirmou.
A outra equipa portuguesa é a North Space, que inclui estudantes do Instituto Superior de Engenharia do Porto, da Universidade de Aveiro e das Faculdade de Ciências e de Engenharia da Universidade do Porto.
Além da equipa, multidisciplinar porque nenhum dos alunos estuda engenharia aeroespacial, mas outros ramos da engenharia e até outras áreas, João Coutinho explicou tratar-se de uma associação juvenil composta por estudantes e não estudantes. O projeto inclui ainda o trabalho um estudante de uma universidade holandesa, sendo a equipa composta por 18 elementos e a associação por 25 “devendo-se expandir para cerca de 50 pessoas”, indica o porta-voz.
A equipa compete na categoria dos 3 mil metros de altitude com o foguete ‘Spati-I’ que possui um motor cots, não desenvolvido pela equipa que espera condições meteorológicas favoráveis e que não interfiram no lançamento nem no desempenho do rocket.
“Acho que as probabilidades de correr mal são maiores do que correr bem porque são muitas variantes. Podemos voar e correr tudo na perfeição, recuperarmos o foguete e as experiências científicas nas condições em que foram enviadas. Se tal não acontecer, mesmo que não recuperemos, para nós se o foguete subir acho que basta”, diz João traçando como o pior cenário “a impossibilidade de realizar a assemblagem do foguete na totalidade” até porque no dia da reportagem a equipa ainda aguardava pela chegada de uma peça ao paddock instalado no Pavilhão Municipal de Constância.

A equipa do Norte confessa-se “otimista” mas “cautelosa” no sentido de “não criar grandes expectativas”. O pensamento da equipa, na verdade, enaltece o participar no concurso, “estar aqui está a ser espetacular. E criar relações no Norte e também com os colegas de Lisboa, foi espetacular, temos uma boa química entre nós. O contacto com as outras equipas, perceber que abordagens têm para o mesmo problema é vantajoso. Há muito conhecimento envolvido. Vemos nas equipas estrangeiras, se calhar nós por cá complicávamos, tentávamos arranjar uma solução complicada, e vemos solução que são muito simples. Acima de tudo o que importa nestas competições é aprendermos mas não só; divertimo-nos. Esse é o principal objetivo”.
Contudo, levar aos céus um projeto não é tarefa fácil. João fala em dificuldades no que toca a patrocinadores, empresas que pudessem financiar o projeto apresentado pela equipa. Por isso a North Space começou a trabalhar “a sério, há três meses” no foguete ‘Spati-I’, contrariamente às equipas com as quais falámos que tiveram cerca de um ano para desenvolver o rocket. Ou seja, data em que o EuRoc aceitou a equipa e “quando finalmente houve empresas que depositaram confiança em nós. Até aí quase ninguém acreditou no nosso projeto. Daí termos criado uma associação, para nos ajudar a conseguir financiamento e material”. No entanto, a ideia surgiu em 2020.
Inicialmente “a ideia surgiu porque eu e outro colega já tínhamos participado noutras competições do género. Quando foi anunciado que o EuRoc ia acontecer em Portugal, pela primeira vez em 2020, ver aquelas imagens que se passavam nos Estados Unidos, lá muito longe, do outro lado do Atlântico, para nós era uma ideia completamente distante, mas saber que ia acontecer em Portugal, despertou o bichinho”.
E esse “bichinho” cresceu, amadureceu. “Nos últimos dois anos começamos a desenvolver ideias, a tentar reunir pessoas e a tentar reunir recursos e achámos que este ano estávamos preparados” para a competição. No entanto, João Coutinho admite as dificuldades de construir um foguete.
“É caro. Tivemos muita ajuda, o nosso maior patrocinador foi a Gislotica, uma empresa de Matosinhos. O engenheiro Rui Fazenda adorou o nosso projeto, a nossa ideia e foi das pessoas que mais investiu tempo sentando-se à mesa para trabalhar connosco, para ajudar no desenho modular, para produzir as peças e por isso foi possível” caso contrário “o projeto não teria chegado até onde chegou”, admite o porta-voz.
Esclarece que nem todos os elementos da equipa ambicionam uma carreira profissional na área espacial mas “grande parte das pessoas começa a virar a agulha para este setor”, confirma.
A competição que começou “quase com um tiro no escuro”
A quarta edição do European Rocketry Challenge arrancou esta terça-feira, dia 10 de outubro, no Pavilhão Desportivo Municipal de Constância, com a tradicional cerimónia de abertura. A vila do Médio Tejo, que este ano acolhe pela primeira vez a competição na íntegra, é palco para o lançamento de dezenas de foguetes (rockets) pensados, concebidos e construídos por equipas universitárias europeias.
A ação desenrola-se entre o paddock, situado, como referido, no pavilhão, onde as equipas preparam os seus projetos, e no launch site, localizado no Campo Militar de Santa Margarida.
Do lado da Agência Espacial Portuguesa, que recebeu este ano 48 candidaturas, tendo sido selecionadas 25 equipas para o EuRoc de 2023, a gestora de projetos de Ciência e de Educação na AEP, Marta Gonçalves, fala “numa evolução muito grande e muito notória”.

Lembra que a primeira edição decorreu em 2020, durante a pandemia da covid-19, e “foi por isso que a competição foi criada. Existe uma competição semelhante nos Estados Unidos da América e devido à pandemia foi cancelada. Havia equipas prontas para lançar o seu foguete que procuravam esta oportunidade. Portugal agarrou o desafio e criou o European Rocketry Challenge. Nessa altura houve apenas seis equipas, nenhuma delas portuguesa, e houve quatro lançamentos”, conta.
Em 2021, a Agência Espacial Portuguesa voltou a repetir a iniciativa “com um evento de maior dimensão e aceitámos na altura 20 equipas, já com uma equipa portuguesa e em 2022 e 2023 aceitámos 25 equipas. Portanto, o evento continuou a crescer e tanto na edição deste ano como na do ano passado foram selecionadas duas equipas portuguesas. Na perspetiva nacional também tem havido uma grande evolução e esse é um dos nossos grandes objetivos”, refere.
Marta Gonçalves recorda que com o EuRoc pretende-se “dar espaço à troca de experiências, à troca de conhecimento, no que toca à parte científica e tecnológica. Isto porque as equipas vêm de 14 países da Europa, têm os seus foguetes, muitos construídos com tecnologias semelhantes mas ainda assim há diferenças entre si, com muito pormenor e com muita complexidade. Principalmente pretende-se que as equipas possam por em prática aquilo que aprendem na sala de aula, aprender a trabalhar em equipa, a comunicar, a gerir uma equipa e a ultrapassar desafios e isso é muito importante no contexto profissional hoje em dia. Alunos que participem nestes eventos são vistos pelas empresas como recursos humanos valiosos”.
Ainda assim, o prémio mais valioso “é o intercâmbio de conhecimento”. A responsável lembra a atribuição de prémios, o geral – que não envolve qualquer valor monetário – e por categorias. Isto porque as equipas, como já referido, “podem propor lançar o seu foguete aos 3 mil ou aos 9 mil metros e depois com diferentes tipos de motor: sólido, híbrido ou liquido, da menor complexidade para a maior complexidade, ou comprado ou construído por si. Claro que construído pela equipa implica maior complexidade”.
Reconhece que o melhor que se retira do EuRoc “são as trocas de experiências. As aprendizagens que se tiram daqui não são só entre as equipas e na informação que é partilhada mas também das próprias operações. Isto porque por vezes o foguete foi construido mas muitos deles ainda não foram operados, e daqui também se vai retirar muito valor . Toda esta informação vai ser transformada em conhecimento a ser aplicado nos próximos anos, vai ser passado aos próximos alunos que vão fazer parte desta equipa e os foguetes, o que se espera, e o que se tem verificado, é que ficam melhores de ano para ano”.
Apesar das melhorias, nem sempre a equipa consegue lançar o foguete o que leva a por vezes a lágrimas de frustração ou pelo contrário a lágrimas de contentamento. “Uma parte engraçada de ver são as reações. Por exemplo há muito choro, que pode ser de tristeza ou de alegria, a tristeza claro de passar um ano a construir um foguete que depois, ou não é lançado ou o lançamento pode correr mal, também acontece e faz parte da aprendizagem. Ou então a grande alegria de ter construído um foguete, vê-lo a voar e ter um voo com sucesso”.

Por seu lado, o presidente da Agência Espacial Portuguesa, Ricardo Conde, lembra que em Portugal “conceptualizamos o evento e fizémo-lo” em ano de pandemia. “Na Europa não há outra competição e não há nenhum sítio para fazer” o EuRoc. “Começamos com quase um tiro no escuro, tivemos uma evolução muito grande desde final de 2019, início de 2020 – a ideia começou em 2019 – fizemos esta evolução gradualmente”.
O objetivo passou por “como se prepara a massa crítica para Portugal ser uma voz e ter uma voz neste contexto internacional. E já está”, assegura Ricardo Conte apesar da pequena dimensão do País. “Somos um país europeu, as nossas capacidades são reconhecidas. Senão vamos pensar ao contrário: não podemos fazer isto cá? É isso que Portugal fez e está a fazer”.
O presidente deu conta que o grande objetivo da Agência “é tornar Portugal numa nação espacial, utilizando os nossos jovens. Utilizando aquilo que é o grande potencial de pegarmos nesta massa de gente, naquilo que a nossa universidade forma e fazermos coisas a partir de lá. Quando laçamos o EuRoc não havia nenhuma equipa portuguesa e há duas e competem ombro a ombro com as equipas internacionais. Por aí já ganhámos esse desafio”.
“Excelência” é a palavra que importa. “Muitas equipas que competiam nos Estados Unidos, no Spaceport America Cup já não competem porque viemos estragar os planos. Já o fazemos cá, algumas equipas da Europa agora competem aqui”, referiu Ricardo Conde.

A seleção de equipas não garante o seu lugar na competição, sendo expectável que algumas, por questões técnicas, acabem por desistir. Por essa razão, este ano, estão em competição 19 equipas, das 25 selecionadas. Ao todo, entre 10 e 16 de outubro, estarão em Constância perto de 600 estudantes vindos de países como Espanha, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Suíça ou Noruega.
No seu papel de anfitrião, o presidente da Câmara de Constância, vê por estes dias o pavilhão desportivo transformado em centro de tecnologia aeroespacial, uma imagem que classifica de “positiva” uma vez que “veio trazer outra dinâmica ao concelho, principalmente à vila. Ter aqui representados 14 países, com esta dinâmica, com tecnologia de ponta e conhecimento académico é algo que orgulha o concelho de Constância e a região enquanto comunidade”, afirmou Sérgio Oliveira aos jornalistas aquando de uma visita ao paddock.
Para o autarca “os territórios têm de estar abertos ao mundo e Constância é um concelho aberto ao mundo e para receber este tipo de iniciativas porque achamos que hoje o desenvolvimento dos territórios baseia-se muito naquilo que é o desenvolvimento científico, académico e nas atividades que trazem valor acrescentado. Este universo de pessoas que está esta semana em Constância, não diria que é amanhã, são coisas que não dão resultados a curto prazo, mas a médio e longo prazo trará retorno para Constância pela projeção nestes 14 países da Europa que estão aqui representados”.
Ainda sem qualquer feedback por parte da população que por estes dias vê circular pela vila mais de 600 pessoas de fora, o presidente pensa que “devem sentir-se orgulhosas por um concelho pequenino com Constância receber um evento internacional desta dimensão”.

Entres os dias 10 e 11 as equipas prepararam os seus projetos e realizaram alguns testes para garantir a prontidão dos rockets para descolar. Depois, entre os dias 12 e 15, têm lugar os lançamento no Campo Militar de Santa Margarida. A edição de 2023 do EuRoC termina a 16 de outubro, no paddock, com a cerimónia de atribuição de prémios.
O EuRoC conta com o apoio da Câmara Municipal de Constância e do Exército de Portugal. Os patrocinadores da edição deste ano do EuRoC são a ANACOM, o CEiiA, a D-Orbit, a Agência Espacial Europeia (ESA), a Meteomatics, a Omnidea, a SUMOL+COMPAL, a TEKEVER e a XICOS.

Tudo vale a pena,para colocar mmnha terra, no mapa do progresso ,para bem da população….
Parar é morrer….
Felizmente o foguetão que caiu num quintal, em S.Miguel do Rio Torto, não atingiu ninguém.